Elisa Ferreira "chumbou na prova escrita, mas passou na prova oral"

Representantes de três grupos políticos anunciaram já que votarão favoravelmente à nomeação da portuguesa, embora com críticas ao teor das respostas enviadas antecipadamente por escrito.

Elisa Ferreira saiu "satisfeita" da audição "muito interessante" no Parlamento Europeu, manifestando até algum "prazer" por discutir com "peritos" assuntos "tão importantes" para os europeus. Quanto ao desfecho, "não vale a pena fazer antecipações", considerou Elisa Ferreira, revelando "não estar apreensiva, amanhã [hoje] se verá".

Mas, ao que o DN apurou, a aprovação de Elisa Ferreira não encontrará "resistências". Representantes de três dos grupos políticos anunciaram ainda ontem que votariam favoravelmente, embora com críticas ao teor das respostas enviadas antecipadamente por escrito, nas quais ficava subentendido um apoio a um orçamento "com cortes" nos fundos que virão a ser tutelados por Elisa Ferreira.

Durante a audição, a antiga eurodeputada esclareceu várias vezes os eurodeputados, dizendo ser "contra todos os cortes" e no caso em questão prometeu bater-se "com os colegas" no colégio de comissários pela melhoria da proposta de orçamento de longo prazo, "nas margens possíveis".

Neste aspeto, Elisa Ferreira lembrou que "a receita é decidida por vocês [eurodeputados] e pelos Estados-Membros" e, por essa razão, não está dependente de quem apenas tem poder de decisão sobre a despesa, sem poder decidir sobre receita. "Assim, é no diálogo com os dois colegisladores que é decidido o que será o orçamento. Irei, na comissão e em toda a parte, apoiar o nível mais elevado possível", disse.

"Definitivamente, com a margem de manobra que possamos ter, irei fazer campanha junto dos meus colegas na Comissão para o mais alto nível possível do Quadro Financeiro Plurianual, para conseguirmos alcançar os objetivos a que nos propomos", garantiu Elisa Ferreira, tendo classificado a proposta que a Comissão Juncker colocou em cima da mesa como "uma base de trabalho, que inclui inúmeras questões que são positivas e que considero muito adequadas".

Dúvida desfeita

As declarações de Elisa Ferreira tranquilizaram "de alguma forma" os eurodeputados, havendo na sala quem saudasse "o recuo" nas afirmações anteriores, e resolvesse "a contradição".

"O que já ouvimos hoje é uma absoluta mudança de posição ao que vinha nas respostas às perguntas escritas, da sua posição que nós saudamos", declarou ao DN o eurodeputado do Bloco de Esquerda, José Gusmão, considerado que seria lamentável que a comissária da pasta [da Coesão], nas negociações que estão a decorrer sobre o orçamento comunitário, sobre o futuro da política de coesão, basicamente alinhasse ao lado da anterior Comissão Europeia".

Antes da audição, o eurodeputado social-democrata José Manuel Fernandes exigiu que Elisa Ferreira "defina de que lado está", por considerar "muito estranho, que se tenha colocado do lado dos inimigos da política de coesão, pois são eles que dizem que a proposta é moderada e que até o melhor cenário". Mais tarde, dava-se por satisfeito com os esclarecimentos "na prova oral".

Luz verde?

"A comissária indigitada chumbou na prova escrita, mas passou na prova oral", afirmou José Manuel Fernandes, apontando "uma contradição entre o que escreveu e o que depois acabou por dizer".

Por essa razão "o nosso grupo político não vai inviabilizar Elisa Ferreira, embora eu considere que todos os grupos políticos chumbaram a Elisa Ferreira nas respostas escritas", admitiu José Manuel Fernandes, referindo-se à posição do Partido Popular Europeu.

José Gusmão adiantou também que "na reunião de coordenadores da [comissão parlamentar de] Economia e a minha comissão iremos apoiar a nomeação de Elisa Ferreira", embora possam vir a fazer "recomendações em torno das preocupações que aqui manifestamos" durante "a elaboração da carta que consubstancia esse apoio"

Por sua vez, a eurodeputada socialista Margarida Marques considerou que as suas expectativas "e as expectativas dos colegas com quem falei foram completamente cumpridas".

"Acho que se percebeu que Elisa Ferreira estava no seu meio e que tinha, de facto, uma prática de ser questionada desta forma e de dar a resposta", apontou Margarida Marques, elogiando o facto da comissária indigitada "não procurar fugir às perguntas e mesmo as perguntas mais complexas como o Fundo de transição, em que o Parlamento pediu à comissão que criasse este fundo, a senhora Van der Leyen assumiu que iria criar este fundo".

Marido

Questionada por uma comissária austríaca do PPE sobre a polémica em torno de uma potencial conflito de interesses dadas as funções de comissária com as funções do seu marido, na CCDR Norte, Elisa Ferreira esclareceu que tomou medidas para afastar "todas as dúvidas"

"Escrevi à presidente eleita dizendo que, se em algum momento, houver algum risco - e vou ler o que escrevi -, estou preparada para tomar todas as medidas necessárias para prevenir qualquer perceção de conflito de interesses", respondeu.

"Concretamente, isto significa que me absterei de qualquer participação em decisões relativas à implementação de fundos que são da minha responsabilidade e que possam diretamente ou indiretamente ter impacto nos interesses pessoais do meu marido enquanto presidente dessa instituição", garantiu a comissária indigitada.

Audição

No seu discurso inicial, Elisa Ferreira recordou a carta de missão, que lhe foi endereçada pela presidente da Comissão, dizendo que "a política futura deve ser moderna, simples de usar e levar a investimentos de alta qualidade".

"Temos de trabalhar em estreita colaboração com os Estados-Membros na simplificação e racionalização de procedimentos, sem comprometer a qualidade dos controlos", disse, acrescentando que "os programas setoriais e administrados centralmente também devem desempenhar um papel: levar em consideração o impacto espacial e, na medida do possível, criar sinergias efetivas com a política de coesão".

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