"É necessário um Plano Marshall para travar o radicalismo em França"

Jean-Pierre Pochon, ex-diretor de informações da Direção-Geral de Segurança Externa (DGSE), defende resposta mais integrada ao terrorismo. O professor reformado, mas com 40 anos de experiência, pensa que haverá mais ataques como os de há um ano

Como é que se explica que mesmo depois do que se passou no Bataclan, a 13 de novembro, aconteça um ataque como o de Nice no feriado do 14 de Julho?

É preciso fazer uma distinção: os ataques do Bataclan foram levados a cabo por um comando, foi um ataque organizado, enquanto o ataque em Nice foi um ato individual. A jihad faz-se algumas vezes de maneira organizada, mas a indicação é para se fazer esta guerra no coração das democracias de todas as maneiras possíveis. O objetivo do terrorismo é virar todos os meios disponíveis nas democracias, nomeadamente as novas tecnologias e as sociedades abertas, contra elas próprias.

Como é que os atentados vieram mudar a forma como os serviços de informações atuam?

Os serviços de informações tentam sempre adaptar-se aos métodos dos terroristas. Antes, o terrorismo não tinha a forma que tem hoje. Para os serviços, a dificuldade é conseguirem adaptar-se. Em França, desde os anos 1980, temos uma grande experiência em terrorismo, mas o que mudou foi não apenas existirem novos meios como a internet e as redes sociais, mas o número de pessoas vigiadas pelos serviços ser hoje significativo. Isto obriga a ter mais meios humanos e materiais.

Tem noção de quantas pessoas estarão a ser vigiadas pelos serviços em França?

Há cerca de 700 franceses que partiram para a Síria e o Iraque. Em território francês, acredito que haja milhares de indivíduos com a Fiche S [Ficha S], ou seja, uma ficha sobre alguém que atraiu a atenção dos serviços por coisas que disse ou algum comportamento fora do normal. Mas não quer dizer que estas pessoas sejam terroristas. Podem vir a ser, mas por enquanto estão apenas a ser seguidas com atenção.

Considera que as leis em França permitem aos serviços de informações fazer o acompanhamento necessário deste tipo de pessoas?

Sim, o problema que existe é que de cada vez que há atentados isso significa um falhanço para os serviços de informações. Após [o 11 de setembro de] 2001, os serviços estão no centro das atenções. Antes disso, na Guerra Fria, não se falava nos serviços nem no seu trabalho. E depois dos ataques a Nova Iorque não se fala de outra coisa e os políticos atribuem as culpas do terrorismo aos serviços. Ora, o terrorismo não diz apenas respeito aos serviços de informações.

Mas se só as leis não são suficientes, o que há a fazer então?

A França está a combater o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Mas há um ponto mais difícil. Falo de membros do Estado Islâmicos e da Al-Qaeda que estão em França, vivem nos bairros das cidades francesas. É necessário identificá-los e travá-los. Mesmo que se consiga parar o Estado Islâmico na Síria, vamos estar apenas a suprimir um dos elementos da jihad. A prioridade deve antes ser trabalhar no território nacional e estabelecer um género de Plano Marshall para travar o radicalismo em França. Não é só um problema social ou económico. Mas também não é só uma questão de segurança.

E como é que funcionaria esse plano Marshall?

É necessário rever o sistema de educação e o sistema de redistribuição na nossa economia. É preciso trazer a República para os bairros mais preocupantes. Envolve uma mudança global, já que nem os melhores serviços de informações do mundo podem travar sozinhos o terrorismo. É um problema que diz respeito a todos os instrumentos da democracia.

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