Durante 9 dias, Lauren ligou para a polícia a denunciar assédio do ex. Ao nono foi assassinada

Universitária foi morta por homem em liberdade condicional e inscrito no registo nacional de criminosos sexuais, depois de repetidamente se ter queixado dele à polícia. Mas a revisão de caso, agora conhecida, não conclui por negligência das autoridades. Pais da vítima discordam e exigem medidas para que não volte a acontecer.

Lauren McCluskey, 21 anos, estava ao telefone com a mãe quando o assassino a encontrou e arrastou para o seu próprio carro, onde a atingiu com vários tiros. "Não, não, não", foram as últimas palavras que Jill McCluskey ouviu da filha. Ligou logo de seguida para a polícia, que chegou ao local menos de 10 minutos depois, mas tarde de mais. O homicida, Melvin Rowland, 37 anos, estava em liberdade condicional e no registo nacional dos agressores sexuais, porém a polícia da universidade do Utah, à qual Lauren tinha comunicado que ele estava a assediá-la depois de ela ter terminado uma curta relação, nunca comunicou o assédio à polícia estadual. Lauren foi morta no campus da universidade; o homicida suicidou-se pouco depois, quando a polícia o encurralou numa igreja.

O homicídio ocorreu a 22 de outubro; Lauren tinha terminado a relação de cerca de um mês a 9 de outubro, após descobrir que Melvin lhe tinha ocultado o seu passado criminal e mentido sobre a idade, e fez a primeira queixa à polícia a 12 de outubro, informando que estava a receber mensagens estranhas, em que lhe era dito que o ex namorado morrera e se queria ir ao enterro, o que sabia ser falso pela atividade dele nas redes sociais. A sensação de Lauren era de que alguém estava a querer a atraí-la a algum sítio. Fez queixas repetidas mas nunca conseguiu ação das autoridades.

Agora, as chamadas de Lauren para as autoridades foram divulgadas, ao mesmo tempo que foi conhecida uma revisão independente do caso que, apesar de certificar a incapacidade do departamento policial da universidade em verificar a história criminal do suspeito (este estava em liberdade condicional pela terceira vez, após ter violado os termos da mesma duas vezes e regressado à prisão), ou qual o seu estatuto perante a lei, conclui não ser possível dizer que a morte da jovem podia ter sido evitada por melhor trabalho policial.

Os pais de Lauren, Jill e Matthew McCluskey, uma professora universitária de economia e um físico, já reagiram: "Discordamos respeitosamente dessa conclusão", escreveram num comunicado. "A polícia teve numerosas oportunidades de intervir e de a proteger durante as quase duas semanas entre o momento em que a nossa filha começou a exprimir preocupação com a situação, preocupação essa que se foi agudizando, e aquele em que foi morta. (...)De cada vez que Lauren ligou para a polícia, foi como se fosse a primeira vez. A pessoa com quem falava não dava sinais de saber alguma coisa do caso ou de quem ela era. Era-lhe pedido que explicasse tudo de novo, que respondesse às mesmas perguntas e preenchesse os mesmos formulários."

De facto, nos pedidos de ajuda da atleta universitária, a sua frustração com a inoperância das autoridades é clara. A 19 de outubro, ligou para a polícia de Salt Lake City, a capital do Utah, onde a respetiva universidade está sediada, denunciando as tentativas de extorsão de que estava a ser vítima e reportando o facto de, apesar da sua insistência, a polícia da universidade não estar a fazer nada em relação ao caso. Lauren admitiu ter transferido 1000 dólares (cerca de 880 euros) para uma conta em resposta à ameaça de que fotos suas íntimas fossem divulgadas, informação que já tinha dado à polícia universitária.

Mas a polícia estadual remeteu-a para a da universidade. Lauren ainda comunicou com esta uma última vez, por mail, na manhã do dia em que foi morta, para dar conta de que recebera uma mensagem suspeita, em que o remetente se identificava como um detetive e lhe pedia para se se encontrar com ele na esquadra. Lauren desconfiou que estavam (não sabia se se tratava de Rowland só ou de mais gente) a querer que apanhá-la. De facto, as câmaras de vigilância da universidade detetaram Rowland no campus desde 19 até ao 22, dia do homicídio. Mas o agente com quem falou, apesar de lhe dizer que a mensagem era falsa e que não deveria responder-lhe, não comunicou o facto a ninguém.

"De cada vez que Lauren ligou para a polícia, foi como se fosse a primeira vez. A pessoa com quem falava não dava sinais de saber alguma coisa do caso ou de quem ela era. Era-lhe pedido que explicasse tudo de novo, que respondesse às mesmas perguntas e preenchesse os mesmos formulários."

Caso a polícia estadual ou o departamento de execução de penas tivessem tido conhecimento das queixas de assédio contra Rowlands, estas seriam consideradas umas possível violação da sua liberdade condicional, o que teria eventualmente levado à sua prisão. Mas o caso de Lauren foi classificado como de extorsão e oficialmente aberto apenas a 19 de outubro (três dias antes do homicídio), apesar de a polícia da universidade saber, nessa altura, que Rowland fora condenado por "forcible sexual abuse" (que no Código Penal português será um crime entre importunação sexual e coação sexual), que tem no Utah uma pena de um a 15 anos de prisão (exceto se durante o cometimento do crime a vítima sofrer ofensas corporais graves, caso em que a pena é de 15 a perpétua).

Rowland foi acusado, em setembro de 2003, por assédio sexual on line ao fazer propostas a um agente que se fazia passar por uma menina de 13 anos, e por agressão/coação sexual de uma jovem de 17 que conhecera on line e que apresentou queixa depois de ele ser detido. Cumpriu pena de 2004 a 2012, tendo voltado à prisão em 2013, por um ano, e de novo em 2016, por violação de liberdade condicional. Foi colocado de novo em liberdade em agosto de 2018. Na audiência em que lhe foi concedida a liberdade condicional, admitiu ter violado duas outras mulheres e reconheceu ser "um mulherengo", acrescentando que "todas as mulheres com quem me cruzo, uso as minhas táticas de manipulação para conseguir o que quero." Em setembro, conheceu Laurel num bar.

Os pais de Lauren dizem não perceber como é que, sabendo que se tratava de um condenado por um crime violento, os polícias não consideraram que a filha podia estar em perigo. Agora, a polícia da universidade já anunciou que as pesquisas sobre o passado criminal e o estatuto legal dos suspeitos são mandatórias em todos os casos mais graves que "passar um sinal vermelho".

Por outro lado, o relatório independente sobre o caso encontrou problemas na própria base de dados: um dos agentes universitários quis averiguar do cadastro de Rowlands, usando para tal o número da sua carta de condução. Isso deveria ter chegado para descobrir que ele estava em liberdade condicional mas o sistema associava essa informação a um velho cartão de identidade, não à carta de condução, pelo que nada foi encontrado.

"A polícia teve numerosas oportunidades de intervir e de a proteger durante as quase duas semanas entre o momento em que a nossa filha começou a exprimir preocupação com a situação, preocupação essa que se foi agudizando, e aquele em que foi morta."

Segundo a revista Rolling Stone, porém, a morada de Rowlands estava disponível no registo nacional de agressores sexuais (que foi criado nos EUA após a violação e homicídio de Megan Kanka, de sete anos, por um abusador de crianças previamente condenado que vivia no mesmo bairro que a criança).

Apesar de admitir várias falhas gerais e a necessidade de alterar procedimentos, a universidade, que publicou a cronologia dos acontecimentos que culminaram com a morte de Lauren, recusa a existência de responsabilidades individuais no caso.

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