Divisões no governo ao oitavo dia de greve contra lei laboral

Primeiro-ministro admite que podem ser feitas melhorias na reforma, mas recusa tocar no contestado artigo 2. Ministro das Finanças reconhece que "talvez" seja preciso fazê-lo

Ao oitavo dia, os trabalhadores das centrais nucleares francesas juntaram-se à greve que tem afetado o setor dos transportes e já deixou um quinto dos postos de abastecimento de combustível do país em rutura total ou parcial. Em Paris, a polícia usou gás lacrimogéneo e deteve 16 manifestantes durante o protesto contra a reforma da lei de trabalho - cem mil saíram às ruas, segundo os sindicatos, mas a prefeitura da capital diz que eram no máximo 19 mil. Uma mobilização inferior a manifestações anteriores, numa altura em que começam a transparecer as divisões no interior do governo.

O próximo protesto está marcado para 14 de junho, quatro dias depois do início do campeonato europeu de futebol. Os sindicatos admitem que o Euro 2016 pode sofrer perturbações caso o governo não recue na reforma laboral - que visa flexibilizar os despedimentos, criar um teto máximo para as indemnizações e alargar as exceções às 35 horas de trabalho semanal - e que foi aprovado sem passar pelo parlamento. "O governo tem tempo para dizer "vamos parar" e tudo vai ficar bem", disse à Reuters o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Philippe Martinez.

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, admitiu à BFMTV que o texto da lei El-Khomri (batizada com o nome da ministra do Trabalho, Myriam El-Khomri) pode ser "melhorado" e "modificado". Mas "está fora de questão alterar a sua configuração". E voltou a defender que a reforma laboral é "boa para os trabalhadores porque lhes dá mais direitos", assim como para os empresários, os sindicatos e os jovens. "Estou sereno e determinado", acrescentou.

Minutos antes, o ministro das Finanças, Michel Sapin, próximo do presidente François Hollande, tinha admitido ao canal do parlamento que "talvez" fosse preciso "modificar o artigo 2". Mas Valls desmentiu-o: "Não vamos tocar no artigo 2." Desde o Japão, onde está a assistir ao G7, Hollande apoiou o chefe de governo, explicando que ele disse "o que precisava ser dito".

O artigo 2 é um dos pontos mais contestados da reforma, por prever que, no âmbito do horário de trabalho, o acordo de empresa pode ter primazia em relação ao acordo do setor. Para os defensores, tal permite flexibilidade, incentivando o diálogo social na empresa. Mas, para os sindicatos, enfraquece a posição dos trabalhadores.

Já na véspera, o líder parlamentar socialista, Bruno Le Roux, tinha-se mostrado favorável a uma alteração do artigo, sendo depois contrariado pelo porta-voz do governo, Stéphane Le Foll. Haverá por isso divisões não só no governo, mas também dentro do próprio Partido Socialista - esta mobilização social é sem precedentes para um executivo de esquerda.

Perturbações

Os trabalhadores das 19 centrais nucleares francesas aprovaram a adesão à greve na quarta-feira, mas apenas 12 dos 58 reatores nucleares registaram ontem uma diminuição da produção. Duas centrais térmicas estiveram totalmente paradas. Contudo, a produção de eletricidade foi "normal", segundo a elétrica estatal EDF.

Ao nível do abastecimento de combustível, segundo a União Francesa das Indústrias Petrolíferas (Ufip), cerca de 20% das estações de serviço do país estão ainda em rutura parcial ou total de combustível, mas já não há tantas filas. "Os automobilistas precipitaram-se para encher os depósitos e o consumo foi três a cinco vezes superior ao normal. Mas como não usam logo todo o combustível, a questão está a resolver-se", disse à AFP o presidente da Ufip, Francis Duseux. O governo já usou três dias dos 115 de reserva estratégica de produtos petrolíferos para manter o abastecimento, tendo atuado também para desbloquear o acesso aos depósitos de combustíveis.

A nível dos transportes, continuam os transtornos no setor ferroviário, que obrigam à supressão de alguns comboios, e a Direção Geral de Aviação Civil recomendou uma redução de 15% no número de voos de e para Orly. Além de Paris, aeroportos de Nantes e Toulouse também têm sido afetados.

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