"Mandela pediria a Trump para fazer a paz"

Chester Williams, o único negro na seleção de raguebi sul-africana que venceu o Mundial de 1995, está em Portugal para disputar este sábado, no Jamor, o Mandela Legends Cup.

Em 1995 Chester Williams era o único jogador negro na seleção sul-africana de râguebi - Springboks - que venceu o Mundial após derrotar os neozelandeses All Blacks e ajudou, assim, Nelson Mandela a unir o país. História foi imortalizada no filme Invictus. Está em Portugal para disputar este sábado, no Jamor, o Mandela Legends Cup, que reverte a favor da Escolinha de Rugby da Galiza no Estoril. Ao DN, o sul-africano, agora com 48 anos, diz que se Mandela fosse vivo hoje pediria a Donald Trump que fizesse a paz com toda a gente no mundo. "É preciso ultrapassar as lutas de poder".

Este jogo em que vai participar destina-se a promover a luta contra a exclusão. O Chester cresceu num regime que excluía as pessoas: o Apartheid. Quão duro foi para si conseguir afirmar-se, que o reconhecessem como um bom jogador de râguebi e não como um jogador que estava ali para preencher a quota dos negros num desporto dominado por brancos?

Cresci num país em que havia segregação, as pessoas não falavam umas com as outras, foram tempos muito difíceis, mas consegui que me identificassem não só como um sul-africano negro, mas como um bom jogador de râguebi que talvez pudesse ajudar a unir a nação. Através do râguebi, em 1995, com o apoio de Nelson Mandela, conseguimos unir a nação por uma vez.

A história do Mundial de Rugby de 1995 tornou-se bastante conhecida, primeiro através do livro de John Carlin Playing the Enemy depois do filme de Clint Eastwood Invictus. Mas o Chester conheceu Mandela muito tempo antes de 1995...

Sim, conheci Mandela dois anos antes do Mundial, em 1993. Fiquei muito amigo dele, aprendi muito, com a sua personalidade, honestidade. O seu amor pelas crianças era impressionante porque acreditava que elas eram o futuro da África do Sul. Eu acho que são o futuro do mundo. As crianças, se ninguém olhar por elas, serão negligenciadas. É importante tentar ser como Mandela onde quer que vamos. A sua assistente pessoal, Zelda La Grange, telefonou-me, ao princípio pensei que era uma brincadeira. Depois vi que era verdade e convidou-me para jantar em casa dele. Gostei muito, ele falou das experiências dele, eu das minhas, de como ele tencionava unir o país.


Falou-lhe dos 27 anos que passou na prisão?

Sim, falou, mas não demasiado, porque era um tema sensível para ele. Mas partilhou de bom grado algumas das suas experiências comigo.

Como é que ele continua a inspirá-lo no seu dia-a-dia?

Inspirou, como indivíduo, pois alguém que passa tanto tempo na prisão e, depois de sair, tenta agir de forma agradável com todos, mostra que estamos perante um ser humano especial. Por mais que nos esforcemos por ser como ele, acho que nunca vamos sê-lo, por isso ele é um ícone mundial e nós somos apenas lendas do râguebi.

No dia 18 de julho passarão 100 anos sobre o nascimento de Mandela. Qual a lição mais importante que os líderes mundiais da atualidade deviam tirar do seu exemplo?

Assinalar o seu centenário, apesar de ele só ter vivido até aos 95 anos, é algo muito especial para nós sul-africanos. Aprendemos com a sua humildade e honestidade. Enquanto esteve preso as únicas pessoas que via eram adultos, por isso acho que também se preocupou mais com as crianças, com o facto de saber como poderia melhorar as suas vidas. Quando saiu em liberdade fez aquilo que tinha pensado fazer.

Na sua biografia, em 2002, o Chester dá uma versão sobre o Mundial de Râguebi de 1995 que não é assim tão romântica. No fim de contas, o que foi genuíno e o que foi puro marketing?

O jogo, em si, foi genuíno, porque nós tínhamos que ganhar para fazer com que o país se tornasse o que é hoje. Não podemos dizer que nada foi genuíno, porque tudo foi perfeito para nós sul-africanos: Nelson Mandela a entrar no campo, motivando-nos ao dizer que o país tinha orgulho em nós, a cumprimentar e a agradecer às pessoas, isso foi genuíno. Ele queria fazer isso, unir o país, para que todos vivessem em paz e harmonia na África do Sul. Quando ganhámos o Mundial, celebrámos com ele, agradecemos-lhe por nos ter feito ganhar o campeonato pelo país.


Sentiu-se, na altura, sob maior pressão do que os outros jogadores?

A pressão esteve sempre mais em mim. Não interessa se foi antes do Mundial, durante ou depois. Houve sempre pressão porque eu era a única pessoa negra na equipa e o mundo tinha os olhos postos em mim e questionava-se: "ele está ali porque é mesmo bom ou só por causa da sua cor de pele?". Tive sempre que estar a dar provas. Mas não tanto pelos outros, mais por mim, queria provar a mim próprio que era bom o suficiente. E creio que a minha história de sucesso se deve ao facto de eu ter provado a mim próprio que era bom antes de o provar aos outros.

Só agora, quase 23 anos depois do Mundial de Râguebi de 1995, vemos um negro - Siya Kolisi - ser nomeado capitão dos Springboks. Porque demorou tanto tempo?

Talvez não houvesse líderes, porque leva tempo a definir um bom líder. Ao longo desses 23 anos também tivemos líderes brancos maus. Não é fácil encontrar um superlíder como por exemplo François Pienaar [capitão em 1995]. É preciso identificar a pessoa certa. Talvez tenha vindo agora também na altura certa para a África do Sul a nomeação de Siya Kolisi.

Toda a ideia do sistema de quotas - Black Economic Empowerment - tem resultado? Alguns críticos dizem que só serviu para criar elites negras ricas e corruptas, enquanto uma grande parte dos negros continua a viver na pobreza...

Política é política e não é só na África do Sul. Mas precisamos de ver que o râguebi tem sofrido com a política. Se não estivermos seguros de como queremos jogar râguebi, este vai sofrer, não só na África do Sul, mas em todo o mundo. Estádios de râguebi têm cada vez menos gente. É preciso ter cuidado para não matar o râguebi por causa da política.

A África do Sul teve três presidentes depois de Mandela: Thabo Mbeki, Jacob Zuma e Cyril Ramaphosa. Honraram o legado dele?

Todos têm as suas fraquezas e forças. Não sabemos que legado é que Mandela lhes deixou, para eles, o que a visão dele significa para eles. Talvez Mandela quisesse Zuma como presidente, a dada altura, não sabemos. Ele esteve lá. Agora temos Ramaphosa, espero que aprenda com todos os erros de Mandela, Mbeki e Zuma. Pegar no positivo e melhorar onde houve fraquezas.

Se Nelson Mandela fosse vivo o que acha que diria a Donald Trump?

Provavelmente para fazer a paz com toda a gente no mundo. Os EUA são muito poderosos. É preciso ultrapassar as lutas de poder para viver em paz e harmonia. Era o que Nelson queria: paz e harmonia.

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