Menores de Calais em centros de acolhimento até decidirem destino final

Menores não acompanhados terão de escolher entre ficar em França, tentar outro país da UE ou alegar ter família no Reino Unido

"Não queremos ir para o autocarro, só queremos ir para Inglaterra. Inglaterra, não França", desabafava ontem um jovem afegão. Este era o sentimentos de grande parte dos 1616 menores não acompanhados que foram ontem retirados do campo de refugiados de Calais, em 48 autocarros, pelas autoridades francesas. Estavam alojados em contentores desde o desmantelamento da Selva, na semana passada, e tinham como destino seis centros de acolhimento e orientação para menores (CAOMI) espalhados pelo país.

Instalados nestes CAOMI, estes menores não acompanhados terão de escolher o seu futuro, ou pelo menos, indicar qual pretendem que seja o seu destino - pedir asilo em França (no caso dos sudaneses, por exemplo), considerar ir para um país da União Europeia ou alegar a existência de laços familiares para ir para o Reino Unido.

Enquanto estiveram nos contentores em Calais, os menores não acompanhados foram sujeitos a uma pré-verificação das suas idades feita pelo gabinete francês de proteção de refugiados. Caso tenham ficado dúvidas, poderá ser feita uma avaliação mais profunda nos CAOMI. Muitos deles parecem ser adolescentes, talvez entre os 14 e os 17 anos, mas alguns são bem mais novos. Estima-se que a criança mais nova tenha oito anos. Grande parte é oriunda do Afeganistão e da região do Darfur, no Sudão, da Etiópia.

Antes de entrarem nos autocarros que os iriam levar para fora da Selva, abraçam e desejam boa sorte a outros menores que ainda esperam pela sua vez, mas também aos voluntários que os acompanharam. Para saberem qual era o seu autocarro deram-lhes pulseiras coloridas com o número do veículo que os iria levar.

Promessas criticadas

O futuro das crianças não acompanhadas que viviam no campo de Calais espoletou uma disputa diplomática entre Paris e Londres, com o clima de tensão a piorar nos últimos dias, depois do presidente francês, François Hollande, pressionar o Reino Unido a aceitar a sua quota de responsabilidade pelos menores não acompanhados.

Muitas das crianças que estavam até agora na Selva querem ir para o Reino Unido - que fica do outro lado do Canal da Mancha, a pouco mais de 30 quilómetros - alegando que têm família lá.

As regras da União Europeia dizem que o Reino Unido tem de acolher os menores não acompanhados com laços familiares no país. O parlamento britânico aprovou também no ano passado a chamada Emenda Dubs, na qual o país se compromete a acolher crianças migrantes vulneráveis.

O secretário de Estado britânico para a Europa, David Jones, explicou esta terça-feira numa comissão parlamentar que o Reino Unido já acolheu mais de 300 crianças desde o dia 10 de outubro, mas admitiu ter havido uma pausa no processo de admissão dos menores enquanto o campo de Calais estava a ser desmantelado. "Pensamos recomeçar o processo no final da semana", declarou. "O desafio agora é implementar os termos do acordo com os britânicos", disse ontem, por seu turno, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve.

Dezenas de oficiais do Ministério do Interior britânico, incluindo elementos do serviço de fronteiras, estavam ontem em Calais e irão visitar 60 centros de acolhimento temporário em França dedicados a crianças não acompanhadas para avaliar os seus pedidos de asilo.

A Comissão das Nações Unidas para os Direitos das Crianças criticou duramente Londres e Paris por não salvaguardarem os interesses dos menores não acompanhados. "Desentendimentos entre os governos francês e britânico sobre quem deverá responsabilizar-se pela maioria destas crianças levou a graves violações dos direitos destas crianças. Centenas de crianças foram sujeitas a condições de vida sub-humanas, deixadas sem abrigos apropriados, comida, serviços médicos e apoio psicossocial, e, nalguns casos, expostas a contrabandistas e traficantes", denunciou ontem o organismo em comunicado.

Hollande prometeu esta semana aos moradores da cidade de Calais que o migrantes não voltam. Ontem, o presidente da região de Pas-de-Calais prometeu que mesmo o parque de contentores, onde as crianças foram alojadas na última semana, será desmantelado.

Promessas criticadas pelos trabalhadores humanitários da Selva. "Tememos que muitos dos adolescentes irão voltar a Calais. Como é que o Estado irá olhar por elas? Serão deixadas a dormir na rua?", questionou Christian Salome, presidente da Auberge des Migrants.

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