Deputada chama assessor do Planalto de "viado". Bolsonaro demite-a

"Só respeito os assumidos", escreveu Joice Hasselmann, do partido do governo, em resposta a afirmação de Filipe Martins. Ela é uma das parlamentares do PSL e ele o braço direito do presidente para a área das relações internacionais. Planalto destituiu-a e ela agradeceu.

A crise do PSL, o partido de Jair Bolsonaro mas do qual o presidente da República do Brasil pode sair a qualquer momento em rota de colisão com os seus dirigentes, tem efeitos colaterais cada vez mais inesperados. Nas últimas horas, Joice Hasselmann, deputada do PSL que se intitulava na campanha eleitoral de "Bolsonaro de saias", acusou um dos assessores mais próximos do presidente de ser um "viado", abreviatura de transviado e calão brasileiro para homossexual, a meio de um tiroteio via Twitter.

O pano de fundo foi a tumultuada eleição para a liderança parlamentar do PSL na Câmara dos Deputados. O atual líder, Delegado Waldir, aliado de Luciano Bivar, presidente do partido, e por isso em choque com a família Bolsonaro, quase perdeu essa liderança por causa de uma manobra, mal-sucedida, que pretendia colocar Eduardo Bolsonaro no seu lugar. O próprio Jair Bolsonaro foi gravado num áudio de Whatsapp por deputados do seu partido a tentar articular essa solução em torno do filho - "uma desonestidade", disse o presidente da República a propósito de ter sido gravado.

A meio do duelo entre Waldir e Eduardo, o assessor especial da presidência Filipe Martins, conselheiro do Palácio do Planalto para a área das relações internacionais e discípulo de Olavo de Carvalho, o filósofo autodidata que serve de guru à nova direita brasileira, escreveu que "Eduardo Bolsonaro é o líder [parlamentar] natural do PSL. O requerimento, assinado por 27 deputados federais, para que ele se torne o líder de facto e de direito do partido vem em boa hora. O PSL e a sua bancada precisam de um líder capaz de conduzi-los em consonância com os anseios populares".

E concluiu, em inglês, que Eduardo "é uma escolha e não um eco" - "a choice not an echo", no tweet original.

Hasselmann, que de Bolsonaro de saias está a passar gradualmente para o campo da oposição interna ao presidente e à sua família, reagiu de imediato. "Ei, macho, macho man!", escreveu. E depois: "Respeito os 'viados' assumidos. Os que são corajosos. Os que se escondem no conservadorismo, fazem pinta de machões escondidos em suas pseudos canetas e ficam mandando indiretas como se fossem 'machos' não merecem o meu respeito. Frouxo é frouxo, não importa o posto que tenha".

No meio do fogo cruzado, surgiu um comentário de Douglas Garcia, deputado estadual também do PSL. "Agora o Congresso tem uma parlamentar que se preocupa com a saída do armário alheia. Basicamente ela disse que só os 'viados' assumidos podem ser machos, os discretos não. Vejam só: mais de um milhão de votos para ser fiscal da vida íntima dos outros".

A resposta de Hasselmann foi imediata: "Sentiu o baque, mona?".

Garcia ficou célebre por ter dito em plenário que retiraria "no tapa" um transexual que quisesse usar a casa de banho feminina onde estivessem a sua mãe ou irmã, em resposta a uma intervenção da parlamentar transexual pelo POL Erica Malunguinho. Dada a natureza do ataque, amigos do deputado ameaçaram-no de revelar a sua homossexualidade, caso ele não o fizesse por si só.

Entretanto, na controvérsia entre Martins e Hasselmann, o presidente Bolsonaro, sem surpresa, ficou do lado do primeiro e demitiu a segunda do cargo de líder dos assuntos parlamentares no Congresso.

"Já estava farta de discursar em plenário a consertar as trapalhadas desse governo", reagiu ela.

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