Costa defende união de forças progressistas em mensagem de apoio a Macron

Partido La Republique en Marche, do presidente francês Emmanuel Macron, exibe apoios europeus à sua ideia de criar um grupo político centrista que, no Parlamento Europeu, defenda um renascimento da Europa

Emmanuel Macron tem um sonho. O de, depois das eleições europeias de maio, ver surgir no Parlamento Europeu um grupo político centrista que defenda um renascimento do ideal europeu. Por contraponto aos nacionalismos e populismos.

Isto numa altura em que as sondagens apontam para perdas importantes do Partido Popular Europeu e Socialistas e Democratas, até agora os maiores grupos políticos na eurocâmara, mas por outro lado para uma subida dos eurocéticos, nacionalistas, populistas e extremistas e direita e também dos liberais e centristas.

O partido do presidente francês, La Republique en Marche, quer mostrar que tem apoios para tornar esse sonho realidade, num comício da lista Renascimento, esta tarde, em Estrasburgo, cidade onde fica a sede do Parlamento Europeu. A liderar o evento estará a cabeça de lista do partido às europeias, Nathalie Loiseau, ministra dos Assuntos Europeus de França que foi notícia há umas semanas por, em jeito de brincadeira, ter inventado que tinha batizado o seu gato de Brexit.

O atual líder do grupo liberal do ALDE no Parlamento Europeu, Guy Verhofstadt, já mostrou alguma abertura para dissolver o grupo e fundi-lo com o que vier a surgir desta lista do Renascimento do partido de Macron. Na sexta-feira, o ex-primeiro-ministro belga, várias vezes candidato à presidência da Comissão Europeia, esteve no Reino Unido a apoiar a campanha para as europeias dos liberais-democratas de Vince Cable. Isto numa altura em que, depois das eleições locais, este partido pró-UE aumenta o número de votos, vindos, sobretudo de descontentes pró-europeus, nomeadamente do Labour. Desta vez, Verhofstadt não é o candidato dos liberais à Comissão, mas sim a atual comissária da Concorrência, Margrethe Vestager.

A ação do La Republique en Marche em Estrasburgo contará com o apoio de partidos como o do primeiro-ministro holandês Mark Rutte, que integra agora o grupo do ALDE, o Ciudadanos de Albert Rivera, partido liberal espanhol que dentro de 15 dias pode subir de dois eurodeputados para 12 depois das eleições europeias, bem como de outras formações mais pequenas: os Democratas 66 da Holanda, o VLD da Bélgica, o partido liberal Voice da República Checa, o movimento Momentum da Hungria ou o +Plus da Roménia. Este é liderado pelo ex-primeiro-ministro e ex-comissário europeu Dacian Ciolos.

Além disso, o evento da lista Renascimento contará com figuras como Édouard Philippe e Jean-Pierre Raffarin, atual e ex-primeiro-ministro de França, respetivamente, François Bayrou do partido centrista francês Modem ou o ex-eurodeputado dos Verdes alemães Daniel Cohn-Bendit. Matteo Renzi, ex-primeiro-ministro de Itália e ex-líder do Partido Democrático (PD), enviará um vídeo de apoio a Macron, refere o site da RFi. Amanhã, em Turim, Stanislas Guerini, oficial do La Republique En Marche, organizará um evento público com o atual líder do PD, Nicola Zingaretti, avança o site Euractiv. Também o primeiro-ministro português e líder do PS, António Costa, enviou um vídeo de apoio a Macron. O PS, tal como o PD, são atualmente parte do grupo Socialistas e Democratas. Isso não os impede de dar o seu apoio ao projeto centrista de Macron. Este também enviou, em fevereiro, um vídeo de apoio a Costa, por ocasião da Convenção Europeia do PS em Gaia.

"Caro Emanuel, caros amigos. Há dois anos que tenho o privilégio de trabalhar com Emmanuel Macron e de testemunhar a sua determinação reformista no sentido de um renascimento europeu. Estou de acordo contigo, Emmanuel. Jamais a Europa esteve em tão grande perigo. E, por isso, devemos proteger a Europa para que ela possa continuar a proteger-nos. A proteger os nossos valores contra as forças populistas, protecionistas e xenófobas. A proteger a segurança dos nossos cidadãos contra a ameaça terrorista, a proteger o ambiente e garantir uma transição energética sustentável. A proteger o nosso modelo social. A nossa coesão, assegurando uma convergência entre as economias da Zona Euro. Isso só será possível se completarmos a nossa união económica e monetária. É preciso, por isso, completar a união bancária, a união do mercado de capitais e criar um verdadeiro orçamento europeu para promover a convergência e a estabilização ", diz o chefe do governo português no vídeo em francês enviado a Macron, com quem esteve na quinta-feira, Dia da Europa, no Conselho Europeu informal de Sibiu, na Roménia.

Todos estes desafios, sublinha António Costa na sua mensagem, exigem uma resposta europeia. Para que assim seja possível "responder às expectativas dos nossos cidadãos. É preciso uma Europa progressista, fundada sobre a paz, a democracia e os valores humanistas e centrada no crescimento, no emprego e na convergência económica e social. Só essa Europa progressista poderá continuar a garantir a paz, a estabilidade e a prosperidade às futuras gerações, como tem feito ao longo de mais de 60 anos pelas nossas gerações". Para que tudo isso seja possível, realça o dirigente socialista, "depois das próximas eleições europeias, as forças progressistas devem unir-se para trabalhar nas mudanças necessárias para que seja possível voltar a dar confiança e esperança no futuro aos nossos cidadãos e às nossas empresas".

Concluindo, Costa dirige-se novamente diretamente ao presidente de França, bem como aos apoiantes do La Republique En Marche: "Caro Emmanuel, contamos com a tua determinação para esta mudança progressista. E tu contas comigo e com a minha amizade para continuar a fazer avançar a Europa da paz, da liberdade, do progresso económico e social. A todos vós, que participam neste evento, os meus melhores votos. Viva a Europa!"

"Queremos mostrar que não estamos sozinhos", disse um quadro da campanha do En Marche, citado pelo site da RFI. Os coletes amarelos, que têm mantido os protestos contra o governo apesar das cedências de Macron, também planeiam ser notícia este sábado. Com protestos em várias zonas de França. Incluindo Estrasburgo. "Chegou a hora do Renascimento europeu. Por isso, resistindo às tentações do recuo e das divisões, proponho-vos construirmos, juntos, este Renascimento em torno de três ambições: a liberdade, a proteção e o progresso", escreveu Macron, num artigo de opinião publicado em vários jornais europeus, a 4 de março, incluindo no DN.

Como se chamaria então o novo grupo político dos centristas no novo Parlamento Europeu? "A mudança do nome e as negociações não estão na agenda antes de 26 de maio. A prioridade é construir o grupo. Queremos unir-nos em torno de um programa que aposte na reconstrução da Europa e vá para além da filiação partidária", disse ao site Euractiv fonte do La Republique En Marche, numa altura em que o partido aposta numa derrocada da direita tradicional, especialmente no falhanço da candidatura do alemão Manfred Weber à presidência da Comissão Europeia. A mesma fonte sublinha que o mais importante é negociar uma coligação baseada num projeto e não numa maioria eleitoral.

Passaria esse projeto alternativo por uma aliança que viabilizasse a candidatura de Vestager? A dinamarquesa tem feito manchetes por toda a Europa por causa da sua luta intransigente com gigantes como Google, Facebook ou Amazon. Uma luta que encontra pontos de contacto com algumas ideias defendidas pelo presidente Macron.

Na sexta-feira, Macron recebeu o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, tendo este saído do encontro a dizer que o plano francês para o controlo do discurso de ódio nas redes sociais constitui uma boa base para um modelo a nível da UE. "Espero bem que a legislação que os franceses querem sobre as redes sociais sirvam de modelo no seio da União europeia", declarou Zuckerberg, pouco depois de o secretário de Estado para a área da Economia Digital, Cédric O, ter publicado um relatório sobre a "responsabilização das redes sociais" preparado por especialistas franceses que, durante seis meses, trabalharam em colaboração com o Facebook.

A França propõe, assim, a criação de uma Autoridade administrativa independente em cada país europeu, encarregue de fazer respeitar pelas redes sociais um princípio de "transparência" sobre a sua maneira de hierarquizar e moderar conteúdos públicos pelos internautas. Além disso, as autoridades francesas querem mais acesso aos algoritmos do Facebook, maior margem para auditar as políticas internas da empresa contra o discurso de ódio. "A inadequação e a falta de credibilidade na abordagem de autorregulação adotada pelas maiores plataformas justificam a intervenção pública para torná-las mais responsáveis", refere o relatório, acrescentando que, empresas como o Facebook, não podem simplesmente declarar que são transparentes.

Apesar de a ideia das listas transnacionais de Macron ter sido chumbada pelo Parlamento Europeu cessante, o partido do presidente francês sublinha que na lista do Renascimento constam pessoas de sete países da UE. "Nós quisemos que esta lista tivesse a ambição transnacional. Sete nacionalidades europeias estão representadas na lista Renascimento. Sete, é esse o número de nacionalidades necessárias à criação de um grupo político no Parlamento Europeu. Nesta lista há cidadãos de França, Grécia, Portugal, Itália, Alemanha, Hungria e Bélgica, que escolheram viver em França, estando unidos na nossa lista por um Renascimento europeu", lê-se num comunicado do En Marche, de 24 de abril.

A questão é que, segundo os regulamentos internos do Parlamento Europeu, um "grupo político inclui membros eleitos em pelo menos um quarto dos Estados membros. O número mínimo de membros para formar um grupo político é de 25". Segundo disse ao Euractiv um porta-voz do Parlamento Europeu "não é uma questão de nacionalidades, mas do país de eleição, sendo eleito. Um grupo precisaria de deputados eleitos em pelo menos sete Estado membros diferentes". O La Republique en Marche estará, assim, a fazer uma reinterpretação das atuais regras que regem a eurocâmara.

Porém, segundo disse fonte do La Republique En Marche ao site Euractiv, o partido de Macron acredita que vai ser possível juntar num grupo centrista e liberal, favorável à reconstrução da Europa, entre 75 a 100 eurodeputados. "O nosso objetivo é conseguir reunir num mesmo grupo cerca de uma centena de pessoas". O Parlamento Europeu que sair das eleições europeias de 23 a 26 de maio deverá ser constituído a 2 de julho e, até que haja efetivamente Brexit, contará com 751 eurodeputados.

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