Costa defende "abordagem pragmática" com Hungria, sem ceder nos "valores"

O primeiro-ministro António Costa considerou que o Conselho Europeu deve adotar uma "abordagem pragmática", desde que não estejam em causa os valores europeus. António Costa falava à entrada para o jantar informal que antecede a cimeira de Salzburgo, na Áustria.

"O que é fundamental é que tenhamos abordagem pragmática mas que não ceda no que é essencial, que são os valores", defendeu o primeiro-ministro português, sem concretizar se o pragmatismo que defende passa por acolher a recomendação do conselho para que seja ativado o artigo 7.º do Tratado de Lisboa, que, no limite, conduz à retirada dos poderes de um Estado membro, dentro do Conselho Europeu.

António Costa deixou claro, porém, que as violações ao Estado de direito, as restrições à liberdade de imprensa ou a perseguições das minorias, de que a Hungria é acusada, não são compatíveis com os valores que sustentam a União Europeia, e nesse ponto, "a Europa não pode ceder".

"Porque quando a Europa ceder nos valores, perde-se a sua razão de existir e aquilo que a diferencia no seu conjunto do mundo", vincou. O tema não está na agenda oficial. Mas acaba por ser um dos tópicos principais à margem da cimeira.

Em declarações aos jornalistas portugueses, António Costa considerou que é na partilha de responsabilidades que se pode encontrar as soluções para a Europa e para os Estados, uma mensagem contrária às que tem sido defendidas pelo controverso líder húngaro, que tinha entrado silencioso para o jantar instantes antes.

"Só em conjunto nós podemos ter um programa de desenvolvimento do continente africano, só em conjunto nós podemos ter uma boa proteção da nossa fronteira externa, só em conjunto nós podemos cumprir a nossa responsabilidade de acolher que tem direito à proteção internacional, só em conjunto nós podemos repartir, de forma solidária, o dever de acolhimento de quem busca na Europa a salvação das suas vidas e a oportunidade para reconstruir a sua vida", defendeu António Costa.

Otimista sobre o brexit

António Costa teve ainda tempo para responder a uma jornalista britânica, que o questionou sobre as expectativas em relação ao brexit. "Estou bastante otimista", declarou o governante.

O assunto vai estar amanhã em cima da mesa, num almoço de trabalho, sem a presença da primeira-ministra britânica, Theresa May.

O presidente do Conselho Europeu defendeu que, "em primeiro lugar", os lideres chegam a uma "visão comum sobre a natureza e a forma geral da declaração política conjunta, relativamente à futura parceria com o Reino Unido. Em segundo lugar, discutiremos como organizar a fase final das conversações do brexit, incluindo a possibilidade de convocar outro Conselho Europeu em novembro. Em terceiro lugar, devemos reafirmar a necessidade de um apoio legalmente operacional à Irlanda, de modo a garantir que não haverá fronteiras rígidas no futuro", afirmou.

Vários líderes frisaram a urgência para que seja alcançado um acordo.

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