Maratonas, futebol e noitadas. Como o "paciente 1" espalhou o coronavírus em Itália

O "paciente 0" não revela sintomas do vírus e terá sido Mattia, o "paciente 1", a propagar o Covid-19 em Itália. O homem de 38 anos tem uma vida social muito ativa e isso explica a disseminação tão rápida.

Bastaram 19 dias para Mattia, o "paciente 1" italiano, propagar o novo coronavírus no país que nas últimas 24 horas anunciou a morte de duas pessoas e já colocou mais de 50 mil pessoas de várias localidades em quarentena. Tudo terá começado no dia 1 de fevereiro, num jantar com amigos, onde estava presente o "paciente 0", acabado de regressar da China. Mattia é um homem ativo e com uma agenda social carregada e deslocou-se a vários locais públicos nos dias seguintes. Desportista participou em maratonas (uma delas em Portofino, zona muito turística) e jogou futebol. Com as saídas à noite e atividades desportivas, o vírus encontrou o caminho para se espalhar. E a bola de neve foi engordando.

As autoridades italianas empreenderam a difícil tarefa de reconstituir todos os passos do "paciente1" e contactar as pessoas com quem se encontrou desde o dia 1 de janeiro - quando jantou com o amigo regressado da China, o suposto "paciente 0" - até ao dia 19, quando foi internado. Mattia, de 38 anos, encontra-se em estado grave num hospital de Milão. A mulher, grávida de oito meses, também está infetada, mas o seu estado é estável.

O vírus covid-19 terá, pois, encontrado a via de escape no jantar do "paciente 1" com colegas de trabalho em Codogno, uma das cidades que já foram isoladas pelas autoridades. À mesa estava D.G., gerente numa empresa de Fiorenzuola d'Arda (também isolada) e que passa mais tempo na China do que em Itália - é considerado o "paciente 0".

"Paciente 0" não revela sintomas do vírus

Só que não terá sido D.G. a funcionar como veículo para a propagação do coronavírus, porque será assintomático. Segundo o virologista Giorgio Palù, citado pelo Corriere della Sera, é provável que o "paciente 0" tivesse uma quantidade insignificante do covid-19 no seu organismo quando fez os exames para - a carga seria, contudo, suficiente para contaminar outra pessoa, o "paciente 1". D.G. também está internado no hospital Sacco de Milão.

"O meu filho ligou-me na quinta-feira e disse-me que até agora os testes deram negativo e que está bem", contou o pai de D.G., ainda muito assustado com o desfecho. Mesmo que os exames realizados não revelem que D.G. está infetado, um dos seus cunhados deu positivo - esta situação reforça ainda mais a teoria de ele estaria infetado, mas é assintomático ao vírus, ou seja, não revela sintomas do covid-19.

Os médicos estão a tentar perceber se D.G. desenvolveu anticorpos contra o vírus - a ser assim, estava infetado, mas escapou ileso do vírus que provocou o surto em Itália através de Mattia.

As autoridades sanitárias italianas decidiram isolar as cidades como Codogno, Castiglione d'Adda e Casalpusterlengo, a cerca de 60 quilómetros de Milão, enquanto 250 pessoas estão em quarentena à espera do resultado dos exames que dirão se estão infetadas com o novo coronavírus. Há 30 casos confirmados, cinco deles profissionais de saúde, uma grávida, a mulher de Mattia, e ele próprio.

Uma vida social ativa: todos os passos de Mattia

A rapidez com que um simples jantar de amigos levou à propagação do vírus surpreendeu os especialistas. Mas o "paciente 1" italiano tinha uma vida social e desportiva bastante ativa e será essa a explicação para o contágio tão rápido.

Na reconstituição dos passos do "paciente 1" concluiu-se que, no dia 4 de fevereiro, Mattia fez uma noitada com os amigos - no encontro volta a estar presente D.G. que não tinha regressado à China devido à grave situação causada pelo coronavírus - naquele país já causou a morte de mais de 2300 pessoas e há mais de 77 mil infetados. Acontece que neste bar, três clientes - que não estavam no grupo deles - ficaram doentes. Depois foi a bola de neve.

O último dia de trabalho de Mattia na Unilever foi a 13 de fevereiro - no mesmo local, trabalham cerca de 160 pessoas e todas elas estavam sexta-feira a realizar os testes. No sábado de manhã, dia 15, o homem esteve num curso da Cruz Vermelha em Codogno e à tarde foi jogar futebol com a sua equipa, a Picchio Somaglia, contra os Amatori Sabbioni, na província de Cremona.

Era fim de semana e o "paciente 1" tinha uma agenda tão preenchida que só terminaria à noite quando foi até Rivergaro para jantar com uns amigos. E foi nessa mesma noite que teve os primeiros sintomas, longe de os relacionar com os contactos como amigo vindo da China, muito menos de imaginar que já poderia ter contaminado outras pessoas com o vírus que desconhecia carregar.

No dia 17 de fevereiro, sente-se tão mal que chama o médico a casa e é consultado por volta da hora de almoço - o médico está agora em quarentena, à espera do resultado dos testes. Passaram cerca de 24 horas, estamos a 18 de fevereiro, e Mattia não sente melhoras. Decide então ir ao centro de saúde de Codogno. Na madrugada de 19 de fevereiro, às 03.12, é finalmente hospitalizado.

O "paciente 1" está em estado grave num hospital de Milão. Os pais sublinham que é um homem enorme, pesa 90 quilos e tem uma estrutura muito forte. "Mas agora está muito mal. Entubado e dorido", dizem os pais, que vivem em Castiglione d'Adda e estão em quarentena. A última vez que falaram com o filho foi na quarta-feira e nessa altura ele ainda não estava nos cuidados intensivos.

A quarentena estendeu-se aos companheiros de trabalho, amigos, familiares, médicos e enfermeiros que atenderam o "paciente 1". Até a sala de urgência onde foi atendido foi encerrada.

Autoridades proíbem eventos públicos

Em menos de 24 horas, a Itália anunciou a morte de duas pessoaspelo novo coronavírus - na sexta-feira morreu um homem de 78 anos e este sábado uma mulher de 75. As regiões mais afetadas são a Lombardia e o Veneto que já totalizam 30 infetados.

As autoridades italianas anunciaram sexta-feira medidas de emergência com vista à contenção da propagação do vírus e optaram pelo encerramento de escolas, bares e outros espaços públicos em dez localidades. Atividades públicas, desde desfiles de Carnaval, às missas e eventos desportivos estão proibidos. A primeira cidade a ser isolada foi Codogno, com cerca de 15 mil habitantes, onde vivem Mattia e a sua mulher.

"A Itália está pronta, preparamos um plano porque ficou claro que isto poderia acontecer. Agora é uma questão de implementar o plano preparado", disse o ministro da Saúde, Roberto Speranza ao anunciar as medida.

O coronavírus surgiu em Wuhan, a sétima maior cidade da China e, além dos territórios de Macau e Hong Kong, foram confirmados casos de infeção em cerca de 30 países - em Portugal todos os casos suspeitos, até agora, deram negativo. Com as duas mortes em Itália, e uma em França, são três as vítimas mortais em território europeu.

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