Como é ser prisioneiro na Coreia do Norte? Estes desenhos mostram o terror

Kwon Hyo Jin desenhou algumas das torturas praticadas nas prisões norte-coreanas. Prisioneiros subnutridos convivem com ratos, que são uma fonte de alimentação

A assinatura do acordo entre Kim Jong-un e Donald Trump, assinado esta madrugada, não tem qualquer referência aos direitos humanos. Os dissidentes do regime norte-coreano temem que, com mais poder, Kim aumente a repressão, além de não acreditarem que o país se vá desnuclearizar completamente. Um relatório da ONU alega que existem 80 mil a 120 mil prisioneiros políticos detidos no país.

Numa entrevista à revista Foreign Policy, Yeonmi Park, estudante da universidade de Columbia diz que "dava crédito a Trump", porque o presidente falou pela primeira vez do assunto, há uns meses, em janeiro. "Isto nunca tinha acontecido", disse. Mas, por outro lado, "ele devia ter obrigado a Coreia do Norte a algumas concessões. Se Trump quer mesmo a mudança devia ter pedido a Kim para abrir os campos de concentração e deixar os jornalistas entrarem no país".

Thae Yong Ho, diplomata norte-coreano a viver no sul, disse recentemente que a ideia que a Coreia do Norte se iria completamente desnuclearizar era uma "fantasia", sobretudo porque esse processo conduziria ao "colapso do seu poder absoluto sobre o país".

Na verdade ambos são porta-vozes daquilo que o mundo já sabia há muito, e que o relatório da Comissão de Inquérito aos Direitos Humanos na Republica Democrática da Coreia apurou em fevereiro de 2014.

O relatório é uma cartilha de horrores. Fala de várias violações de direitos humanos e há desenhos do prisioneiro norte-coreano Kwon Hyo Jin incluídos no relatório da ONU, que comprovam algumas das torturas praticadas pelo regime norte-coreano.

- Violações da liberdade de pensamento, expressão e religião - nomeadamente em relação aos católicos. Kenneth Bae um evangelista que fazia tours no país foi condenado a 15 anos de trabalhos forçados e, 2013 por crimes contra o governo.

- Discriminação sexual entre homens e mulheres.

- Violações da liberdade de movimentos e residência - há vários relatos de migrações internas por razões de trabalho forçado.

- Falta de direito à comida e à vida - segundo a UNICEF há mais de 200 mil crianças com fome e 60 mil severamente malnutridas.

- Detenções arbitrárias, tortura, execuções, campos de prisioneiros - segundo um relatório do Departamento de Estado americano haverá entre 80 a 100 mil prisioneiros.

- Raptos e desaparecimentos de mais de 200 mil estrangeiros - alguns dos que estão presos irão ser libertados, segundo o acordo.

- Crimes contra a humanidade - nomeadamente exterminação, homicídio, escravatura, tortura violência sexual, perseguição política e religiosa, transferências forçadas de populações, fome. E isto tudo acontece, segundo a ONU, porque a " política e as instituições e os padrões de impunidade permanecem".

Segundo a ONU, estes "não são meros excessos do Estado. São componentes essenciais de um sistema político que abandonou os ideais em que afirma se ter fundado."

E conclui: "A gravidade, escala e natureza destas violações revelam um estado sem paralelo no mundo contemporâneo".

Depois disto, a ONU fazia várias recomendações. Entre elas, a reforma do Código Penal, a introdução de imprensa livre, a permissão de religiões como a católica, a autorização do acesso livre à comida, a libertação das viagens dentro e fora do país, o fim da perseguição de pessoas com base na lealdade ao partido e ao Estado, a reforma do próprio estado a diminuição do poder do Líder Supremo e do Partido dos Trabalhadores.

Não está prevista, como o relatório propunha, a presença de uma base da ONU no país.

Como dizia a dissidente Lee Hyeon-seo, que esteve recentemente em Portugal a lançar o seu livro, A Rapariga com Sete Nomes, «nós tivemos lavagens cerebrais e vivíamos afastados do resto do mundo. Isso fazia-nos não nos queixar. É a única coisa que conhecemos, portanto achamos que as coisas são assim. Para mim - e para a minha mãe, que ainda hoje acredita nisso - éramos vítimas dos imperialistas americanos e os sul-coreanos eram escravos deles. O nosso país era o melhor do mundo. Eu achava que o resto do mundo era bem pior que a Coreia do Norte, por isso ficava agradecida ao nosso líder."A canção que os meninos cantavam na escola chamava-se "Nada a Invejar".

Nessa palestra que deu em Lisboa, a dissidente disse que só começou a perceber o que estava a acontecer quando houve a primeira fome nos anos 90.

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