"China é agora o país que reúne melhores condições para desafiar os EUA"

Entrevista a Luís Nuno Rodrigues, historiador e diretor do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL, que organiza segunda-feira e terça-feira em Lisboa uma conferência sobre a queda do Muro de Berlim e o final da Guerra Fria.

A queda do Muro de Berlim faz agora 30 anos representou o fim da Guerra Fria de forma simbólica ou em termos reais mesmo?

Foi o momento mais simbólico de um processo mais longo que foi o final da Guerra Fria e que constitui, aliás, o tema deste projeto que agora lançamos no ISCTE-IUL. Um processo cujas origens podemos encontrar na própria cimeira de Helsínquia, em 1975, mas que só fica concluído quando em dezembro de 1991 a União Soviética é extinta. Mas a queda do Muro de Berlim é mais do que um momento simbólico: as divisões em torno da reconstrução da Alemanha tinham sido, afinal de contas, a causa mais direta do início da Guerra Fria e do estabelecimento das duas Alemanhas, com dois regimes políticos diferentes. Com a queda do muro toda a lógica que presidira ao ordenamento internacional do pós-guerra começou a esboroar-se. O historiador Timothy Garton Ash definiu lapidarmente este nexo causal: "No Wall, no Soviet Union".

O presidente americano Ronald Reagan exigia a destruição do Muro, o líder soviético Mikhail Gorbatchev resistia. O que aconteceu de facto naquele 9 de novembro de 1989, já com George W. Bush na Casa Branca, e como mudou o mundo?

"Mr. Gorbachev, tear down this wall!", disse o Presidente norte-americano Ronald Reagan em Berlim, em junho de 1987, mas só passados mais de dois anos é que o muro foi de facto derrubado. Tratou-se do culminar de várias semanas de protestos e de agitação social no ano de 1989, que conduziram à demissão do histórico líder da República Democrática da Alemanha, Erich Honecker e que tiveram o seu ponto alto na grande manifestação numa das mais emblemáticas praças de Berlim oriental, a Alexanderplatz. Na sequência dos eventos, o governo da RDA acabou por anunciar que os seus cidadãos poderiam atravessar o muro e transitar para o sector ocidental de Berlim e este anúncio fez com que milhares de alemães, do Ocidente e de Leste confluíssem para o muro e que a sua destruição de iniciasse de forma espontânea e pacífica.

O fim da URSS dois anos depois era inevitável à luz dos acontecimentos de 1989?

Os acontecimentos de 1989 foram decisivos para o fim da URSS. Mas não apenas em Berlim. Muitas vezes não é dado o devido relevo às eleições na Polónia nesse mesmo ano, na sequência das quais os eleitores polacos escolheram praticamente todos os candidatos da oposição. Essa foi a primeira peça do dominó a cair. Para além disso, temos que saber fazer uma leitura de mais longa duração e perceber que muitos dos fatores de crise do império soviético, um império demasiado estendido, insustentável, tinham começado a surgir anteriormente, com o peso insuportável das despesas militares, a degradação da situação económica e social, a guerra no Afeganistão, o desastre nuclear em Chernobyl.

Surpreendeu-o que o fim do Pacto de Varsóvia coincidisse com o crescimento da NATO?

Numa perspetiva histórica temos que entender que a NATO e o Pacto de Varsóvia tinham sido criadas no contexto específico da Guerra Fria, sendo instituições que funcionavam como um espelho. A existência de uma era a razão de ser da outra. Com as transições democráticas na Europa de Leste, o Pacto de Varsóvia acabou por ser extinto, em julho de 1991. O que merece ser analisado é não apenas a sobrevivência, mas também a expansão da NATO para Leste, não existindo já a União Soviética. Essa expansão não coincidiu exatamente com a extinção do Pacto de Varsóvia, verificando-se já no final dos anos 1990 e resultou em grande medida de um interesse genuíno dos próprios governos da Europa de Leste que pensavam assim consolidar a integração internacional dos seus Estados perante a Rússia.

A América ganhou mesmo a Guerra Fria?

Os Estados Unidos venceram a Guerra Fria, sem dúvida, e a URSS também a perdeu. No entanto, neste projeto que estamos a desenvolver no ISCTE, com a Universidade de Helsínquia, a Fundação Willy Brandt e outros parceiros, o que pretendemos salientar é o papel da Europa e dos europeus em todo este processo, frequentemente analisado e explicado com o foco apenas nas duas superpotências. Ora, a verdade é que estes atores europeus, a CEE, líderes políticos, associações de jovens ativistas, foram estabelecendo desde meados da década de 1970 toda uma rede de contactos e de ligações que se viria a revelar fundamental para o final da Guerra Fria. Se olharmos para esta dimensão, podemos afirmar que foram também a Europa e os europeus, de Ocidente e de Leste, que ganharam a Guerra Fria.

As ações russas na Crimeia e na Síria representam de algum modo um regresso à Guerra Fria ou a Rússia, tirando o arsenal nuclear, é hoje uma média potência sem recursos para competir globalmente com os EUA?

Não creio que representem um regresso à Guerra Fria, uma vez que, como muito bem diz, a Rússia não tem condições para se tornar um ator global e para competir com os Estados Unidos pela hegemonia no sistema internacional. Isto não significa, claro, que a Rússia não disponha de capacidade de interferência no Ocidente e, inclusivamente, nos Estados Unidos, influenciando resultados eleitorais, financiando partidos políticos, já para não falar na importância do gás natural importado da Rússia pelos países da União Europeia.

A futura Guerra Fria será EUA-China?

Por princípio devemos ter muito cuidado com as analogias históricas, uma vez que o contexto internacional do século XXI é muito diferente daquele que era o contexto da Europa e do mundo após a II Guerra Mundial, no qual os Estados Unidos e a União Soviética emergiram como duas superpotências num contexto de quase completa destruição da Europa. No entanto, se quisermos significar com essa ideia de uma "nova Guerra Fria" que a China é agora o país que reúne, sob todos os pontos de vista, melhores condições para desafiar os Estados Unidos e pôr em causa o seu papel de liderança em termos internacionais, nesse caso existem de facto alguns pontos em comum.

Como vê a reunificação alemã de 1990 perante hoje a ascensão da extrema-direita em território da ex-RDA?

Vejo com muita preocupação a ascensão da extrema-direita no antigo território da RDA. Inclusivamente a AfD na sua propaganda chega a fazer equivaler a situação de hoje no Leste da Alemanha com a situação que vivia antes da queda do muro de Berlim. Embora este não seja um fenómeno específico da Alemanha, a verdade é que ainda hoje se sentem grandes contrastes entre as duas zonas da Alemanha, como se a reunificação tivesse ficado de certo modo incompleta, sob o ponto de vista económico e social e até mesmo sob o ponto de vista da cultura política.

O colóquio internacional que se inicia esta segunda-feira no ISCTE-IUL que novidades trará a esta temática?

Este colóquio é o pontapé de saída de um projeto mais vasto, financiado pela Comissão Europeia, e com a partipação da Universidade de Helsínquia, da Fundação Willy Brandt, da associação Young Educators e da Stichting Caat ProjectsAssociation. Conforme disse, o que pretendemos fazer é ultrapassar as narrativas tradicionais da Guerra Fria, que tendem a colocar os Estados Unidos e a União Soviética no centro da ação, assumindo que a Europa foi um ator relativamente passivo no decurso dos eventos. E, portanto, trazer a Europa para o centro do processo, numa perspetiva que tem vindo a ser explorada pela historiografia da Guerra Fria nos últimos anos, enfatizando o papel específico dos atores europeus nos anos finais da Guerra Fria e nos desenvolvimentos que culminaram na queda do Muro de Berlim em 1989. Ao fazê-lo estaremos também a mostrar às novas gerações europeias que, tal como no passado, a construção do futuro passa em grande parte pela sua capacidade de mobilização e pela sua cidadania ativa.

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