Censuradas críticas sobre remoção do limite de mandatos do Presidente

As propostas à alteração da Constituição serão votadas na Assembleia Nacional Popular na sessão anual que decorre no próximo mês

A censura chinesa está a eliminar comentários sobre a proposta do Partido Comunista de remover da Constituição o limite de mandatos para o cargo de Presidente, enquanto analistas preveem que o país regresse ao absolutismo.

A proposta à alteração da Constituição chinesa possibilita que o atual Presidente chinês, Xi Jinping, o mais forte líder chinês das últimas décadas, prolongue a sua liderança para além de 2023, quando termina o seu segundo mandato.

A limitação de mandatos vigora na política chinesa desde os anos 1980, visando prevenir os desastres causados pelo totalitarismo de Mao Zedong (governou entre 1949 e 1976).

Um dia depois da proposta do Partido Comunista Chinês (PCC), uma busca nas redes sociais chinesas pelas palavras "Xi Jinping servir outro mandato" não dá nenhum resultado.

No entanto, utilizadores do Weibo, espécie de Twitter chinês, partilharam imagens do desenho animado do Ursinho Pooh a abraçar um jarro com mel, com a legenda "Agarra-te àquilo que amas".

Vários memes têm nos últimos anos comparado o Presidente chinês ao urso da Disney.

Outros internautas escreveram "Atenção, o veículo está a fazer marcha atrás", - um aviso automático usado pelos veículos de entregas na China -, numa alusão ao regresso do país a um sistema absolutista semelhante ao do 'reinado' de Mao.

Outro comentário aludia à pressão familiar em torno do casamento.

"A minha mãe disse-me que eu tinha de casar enquanto o Grande Tio Xi fosse Presidente", lê-se num outro comentário. Que foi, posteriormente, eliminado.

"Agora, posso finalmente respirar de alívio", acrescenta.

As propostas à alteração da Constituição serão votadas na Assembleia Nacional Popular (ANP), órgão máximo legislativo da China, composto sobretudo por membros do PCC, e cuja sessão anual decorre no próximo mês.

Segundo a emenda constitucional de 1982, o exercício do cargo de Presidente está limitado a dois mandatos.

"É muito provável que se torne num posto vitalício", afirma Zhang Ming, um antigo professor de ciência política na Universidade Renmin, em Pequim, citado pela Associated Press.

A nível interno, Xi afastou já os principais rivais políticos, enquanto legitimou a sua liderança aos olhos da população, através da mais ampla e persistente campanha anticorrupção de que há memória na China, que puniu já mais de 1,5 milhões de membros do PCC, incluindo 400 altos quadros do regime.

Em termos de política externa, Xi adotou uma postura mais assertiva no Mar do Sul da China, reclamando a totalidade do território, apesar dos protestos dos países vizinhos.

Pequim abdicou ainda da discrição no palco internacional e passou a assumir a ambição de participar na governação de questões globais, num período em que a liderança de Donald Trump, nos Estados Unidos, ou o 'Brexit', na União Europeia, desafiam certezas antigas da geopolítica internacional.

O professor e comentador chinês Hu Xingdou diz duvidar que Xi queira ser Presidente vitalício, mas que há preocupações de que a China "possa deslizar para um tipo de fascismo ou ditadura pessoal com graves consequências".

Além de secretário-geral do PCC e Presidente da China, Xi é também presidente da Comissão Militar Central, Comandante-Chefe do exército chinês e chefia a Comissão Central de Segurança Nacional e o "grupo dirigente" encarregue de supervisionar o programa de "aprofundamento geral das reformas". Um outro organismo novo, responsável pela "segurança do ciberespaço", é também dirigido por Xi.

Xi terá já dado sinais de querer prolongar a sua estadia no poder quando durante o congresso do PCC, no ano passado, quebrou com o protocolo de elevar um possível sucessor ao comité permanente do Politburo, a cúpula do poder na China.

No mesmo congresso, o mais importante evento da agenda política chinesa, o nome e teoria de Xi foram incluídos na constituição do partido, elevando-o ao estatuto de Deng Xiaoping, o arquiteto-chefe das reformas económicas que transformaram a China, e do fundador da República Popular, Mao Zedong.

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