Cemitério de Manaus abre valas comuns para vítimas de covid-19

Número de enterros no estado do Amazonas triplicou e os sistemas de serviços de fúnebres e de saúde beiram o colapso. Prefeito da cidade fala em calamidade, chora e exige responsabilidade a Jair Bolsonaro

Na última terça-feira, no maior cemitério de Manaus, a capital do estado do Amazonas, coveiros abriam uma vala comum para enterrar sete mortos pelo novo coronavírus. Um trator cobria depois o local de terra. Agora, os enterros no Nossa Senhora da Aparecida, no bairro de Tumarã, são coletivos para evitar a propagação do vírus e, sobretudo, por causa do aumento de óbitos. Onde antes se realizavam cerca de 30 enterros diários, agora fazem-se em torno de 100 a cada dia.

"As instruções que nós recebemos foi de que nos enterros de quem morreu por vírus entram somente três pessoas, nos de morte natural cinco. Uma situação caótica. Eles estão fazendo valas e botando caixões. Eles esperam acumular cinco caixões até enterrar e jogar a lama em cima", contou Any Souza à TV Globo, à porta do cemitério, onde foi obrigada a ficar por não ter sido autorizada a participar no enterro do tio.

"O meu pai não teve como ver a própria esposa que viveu anos e anos com ele ser enterrada, isso é uma dor para qualquer família", continua, por sua vez, a empresária Kelzia da Mata.

O prefeito da cidade, Arthur Virgílio, abriu um gabinete de crise para cuidar do aumento de serviços fúnebres, que, segundo diz, entraram em colapso, assim como o sistema de saúde arrisca entrar a qualquer momento. "Vimos uma crise que tinha o tamanho mundial e o caos funerário está aí. É a falência também do sistema de atendimento, graças ao enfraquecimento que se verificou e que parece um processo de difícil irreversibilidade", disse o autarca.

Noutra reportagem, Virgílio, em lágrimas, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo que a capital amazonense "já não vive em estado de emergência mas de calamidade". Segundo o próprio, 17% dos óbitos de coronavírus morreram nas suas casas. "Estamos chegando a um ponto muito doloroso a que não precisaríamos ter chegado se tivéssemos praticado a horizontalidade da quarentena, entramos num ponto de barbárie em que o médico pergunta 'salvo o jovem ou o velho?'".

Depois de participar num encontro com o vice-presidente Hamilton Mourão, o autarca admitiu que exigiu responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro, cuja frase "é só uma gripezinha" correu mundo. "Enquanto isso ele participa em aglomerações a pedir o regresso da ditadura", disse Virgílio, que é do PSDB, de centro-direita, referindo-se ao discurso do presidente perante populares que pediam o AI5, ato institucional de 1968 que decretou a tortura, a ditadura e a perda de mandato de todos os deputados.

A situação nos hospitais de Manaus também continua no limite. Em todo o estado, já são 2270 casos de covid-19 e 193 mortes. Mas o próprio governo estadual admitiu que existe subnotificação. Segundo as autoridades, 96% dos leitos das emergências dos hospitais públicos da capital estadual estão ocupados por pacientes com coronavirus ou com suspeita da doença.

Nas redes sociais circulou uma imagem de um doente num hospital de Manaus com dificuldades para respirar usando um improvisado saco de plástico como câmara de ar enquanto aguardava vaga.

Numa reportagem da Rede Amazónica foi noticiada a morte de uma idosa numa emergência depois de aguardar quatro dias por atendimento.

A secretária estadual de saúde, Simone Papaiz, informou que o Amazonas busca contratar novos profissonais de saúde com urgência.

No Brasil havia até esta quarta-feira 43.079 casos confirmados e 2741 mortes, segundo o ministério da saúde agora liderado por Nelson Teich, substituindo o demitido Luiz Henrique Mandetta, defensor, ao contrário do presidente, de rígido isolamento social no combate à pandemia.

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