Caxemira no centro de nova escalada entre velhos rivais Índia e Paquistão

Países nascidos da partição da Índia britânica são potências nucleares e 2 das 3 guerras que travaram foram por causa de território.

Horas após soldados indianos terem realizado uma incursão no lado paquistanês de Caxemira, o Twitter encheu-se de mensagens com o hashtag #ModiPunishesPak (ModiCastigaPaquistão), fãs do primeiro-ministro indiano publicaram um vídeo de Tom e Jerry em que a Índia representada pelo rato espanca o gato Paquistão, os apoiantes do governo de Narendra Modi não escondiam o "momento de orgulho" para o país e atores de Bollywood, como Paresh Rawal ou Tahir Raj Bhasin, agradeceram ao exército nas redes sociais por fazer agora o que "devia ter feito há 30 anos".
Estas reações aos ataques cirúrgicos que Nova Deli garante terem resultado na morte de 30 militantes que se preparavam para se infiltrar na Índia e realizar ataques contra várias cidades, mas que Islamabad nega terem existido, denunciando a morte de dois soldados numa troca de tiros na linha de controlo que divide Caxemira, revelam a pressão crescente sobre Modi para endurecer o tom com o Paquistão.
No poder desde 2014, quando o seu BJP (nacionalista hindu) derrotou o Partido do Congresso de Sonia Gandhi, uma das promessas de Modi era apostar numa linha mais dura na relação com o Paquistão. A 18 de setembro, depois de um ataque de militantes paquistaneses a uma base militar na Caxemira indiana, que fez 18 mortos, Modi garantiu este que não ficaria "sem castigo". Foi o ataque mais mortífero dos últimos anos no território disputado pelos irmãos-inimigos.
Com uma população de maioria muçulmana, Caxemira é disputada pela Índia e Paquistão desde a partição da Índia britânica, em 1947. Ambos reivindicam a totalidade do território, mas apenas controlam parte, com a chamada Linha de Controlo a representar a fronteira de facto. Ao longo dos anos, os incidentes têm-se multiplicado, com Caxemira no centro de duas das três guerras entre os rivais.
O ataque de ontem, que começou pouco depois da meia noite e terminou antes do nascer do dia, vem reacender os receios de um conflito de larga escala entre Índia e Paquistão, ambos potências nucleares desde 1998.
Apesar de as chefias militares indianas garantirem ter avisado os homólogos paquistaneses, estes negam e denunciam uma "mentira completa e sem qualquer base". O primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, criticou por seu lado a "agressão das forças indianas" e garantiu que os militares do seu país são capazes de frustrar "qualquer desígnio maléfico para minar a soberania do Paquistão".
Este incidente surge num momento delicado para o Paquistão, com o poderoso chefe do Estado-Maior do Exército, o general Raheel Sharif, prestes a passar à reserva e o primeiro-ministro a ter ainda de designar um sucessor. Os militares protagonizaram vários golpes no Paquistão, tendo governado o país durante metade da sua existência independente. Muito popular - há cartazes dele nas ruas de Carachi, a maior cidade do país -, Raheel Sharif chegou a ser visto como ameaça à liderança do primeiro-ministro.


Do lado indiano, Modi também está sob pressão. "A Índia espera apoio global para lançar ataques mais cirúrgicos contra o Paquistão", explicou à Reuters Ajai Sahni, do Instituto para a Gestão de Conflitos em Nova Deli. O especialista confirma que "há uma pressão imensa sobre o primeiro-ministro para provar que é capaz de tomar ações fortes".
Perante as novas tensões, o líder de Jammu Caxemira, Mehbooba Mufti, alertou que se não forem tomadas medidas urgentes, a situação pode tornar-se um desastre. "Nova Deli e Islamabad têm de abrir canais de comunicação, percebendo o perigo de uma escalada nos confrontos fronteiriços", sublinhou. Apesar desta ameaça, os analistas ouvidos pela BBC acreditam que um confronto entre as duas potências nucleares é pouco provável.

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