Cartéis mexicanos usam a pandemia para ganhar a simpatia da população

Distribuem alimentos e medicamentos, em caixas de papelão com imagens de figuras como El Chapo impressas no exterior. Querem parecer modernos Robin dos Bosques, em que substituem o Estado, para terem a população do seu lado.

Os cartéis mexicanos estão a aproveitar a pandemia de Covid-19 para garantir uma melhor imagem junto da população, através da distribuição de comida e outros bens essenciais numa altura em que o confinamento levou a crise a largas fatias da sociedade no México. O objetivo dos traficantes é ter a população do seu lado, alertam os especialistas em segurança, e por isso tentam passar a imagem de que substituem o estado neste período complicado. A estratégia repete-se em vários países da América latina, com os gangues a tirarem vantagem da ineficácia dos estados.

"A verdade é que eles dão comida. Estão a ajudar-nos", disse uma mexicana, numa reportagem da BBC, não se sentindo muito incomodada com a origem do dinheiro.

Desde março, quando o governo mexicano declarou uma emergência nacional de saúde, impondo restrições rígidas para combater a propagação da Covid-19, que se assiste a distribuição de bens nas zonas em que os cartéis estão mais ativos.

Moradores de Ciudad Victoria, capital de Tamaulipas, começaram a receber apoio de cartéis de drogas em abril. A distribuição de cabazes de alimentos, dinheiro, medicamentos e máscaras nas comunidades tem sido documentada no Twitter e no Facebook por muitas pessoas. Existem vídeos e imagens da família de Joaquin 'El Chapo', o mais famoso dos líderes de cartel, atualmente preso nos EUA, a distribuir comida à população.

Noutras regiões mexicanas, onde os cartéis da droga estabeleceram um governo de facto, seguiu-se a mesma a mesma tendência. Nos estados de Jalisco e de Sinaloa começaram também a entregar cabazes de alimentos e medicamentos. Ambos os cartéis estão a usar as caixas de papelão, cheias de mantimentos, e as máscaras como ferramenta de propaganda. Na parte externa das caixas, imprimem imagens do ex-chefe do cartel de Sinaloa, Joaquin "El Chapo", ou do atual líder do Cartel de Nova Geração de Jalisco, Nemesio Oseguera Cervantes, "El Mencho".

Os cartéis mexicanos também impuseram um recolher obrigatório em algumas regiões para impedir a propagação do coronavírus nestes territórios sob o seu controlo.

"Não são novos Robin dos Bosques. Eles buscam o apoio da sociedade. É muito importante para eles, terem as pessoas do seu lado porque assim conseguem proteção para os seus elementos e familiares quando a população é abordada nas investigações pelo exército mexicano", explicou Gerardo Rodriguez, especialista em segurança, ouvido pela BBC.

De resto, esta estratégia é seguida pelo crime organizado em vários outros países. No Brasil, nas favelas, a situação tem semelhanças com os grupos criminosos a imporem recolher obrigatório e a proibirem os turistas de entrarem nos bairros. Na Colômbia, em cidades como Medellin, os gangues começaram a ir de porta em porta para distribuir desinfetantes para as mãos e cabazes de alimentos e medicamentos. Em El Salvador, Guatemala ou Venezuela há relatos de atuação de grupos de crime organizado da mesma forma.

Perante a ineficácia dos países, os grupos criminosos visam, a longo prazo, substituir algumas das funções do Estado, a fim de garantir a prosperidade dos seus interesses ilegais. Os analistas apontam que agora os cartéis estão a apelar a mais emoções positivas - gratidão e solidariedade -, em vez unicamente da habitual violência extrema, para criar um vínculo emocional com a população.

Mas, no México já morreram mais de 250 mil pessoas na "guerra" com os cartéis de droga e há indicadores que apontam para um aumento de homicídios durante a pandemia.

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