Bruxelas vista do Iraque, ou Europa, culpa, redenção e incerteza

Nível de alerta baixou de 4 para 3 e acabaram as revistas sistemáticas, embora as operações policiais se sucedam, com tiros e explosões. Os sustos não acabaram na semana que foi tudo menos santa. Mas para um refugiado iraquiano todos os dias na Bélgica são

"Se há três ou quatro anos se controlassem as fronteiras e não deixassem as pessoas ir para a Síria isto [os atentados] não teria acontecido." Para este iraquiano de 27 anos que pretende o estatuto de refugiado para ficar na Bélgica o que não vai resolver nada é "mais soldados, mais polícia. Há polícia em todo o lado mas não conseguiram evitar o que sucedeu, não é?"

Em todo o caso, o que sucedeu não parece a Hussein, que se apresenta como ex-tradutor da Zona Verde (a zona de Bagdad de segurança estrita onde estão instalados os serviços governamentais), muito grave, se comparado com o que se passa no Iraque. "Houve uma altura, entre 2005 e 2006, em que perdemos cem pessoas por dia em ataques terroristas." Ainda ontem foram 26, no fim de um jogo de futebol num subúrbio a norte da capital iraquiana, mais 71 feridos. Um rodapé nas TV ocidentais. Aliás mesmo atentados na europeia Turquia são desvalorizados - entre janeiro e março, quatro, dois em Ancara e dois em Istambul, mataram 81 pessoas, várias delas turistas da UE. Isso mesmo quis um cartoonista turco sublinhar no desenho em que juntava às duas bandeiras francesas e belgas que choravam abraçadas - um cartoon que circulava nas redes sociais - a bandeira turca, a tentar também abraçá-las.

Há cinco meses na Bélgica, Hussein, cujo inglês trai os professores americanos, está à espera da segunda entrevista do processo de asilo, e parece convencido de que lhe vai ser concedido. Tem dois irmãos já na Suécia, mas não tenciona ir ter com eles. Os olhos claros (serão verdes? Ou cinza?) riem: "Está muito frio lá." E aqui até já tem namorada e amigos, e gente que gosta de o ouvir tocar o seu instrumento (alaúde). Um dia talvez volte ao Iraque - quando estiver em paz, diz. E irrita-se quando ouve que a Europa não tem condições para receber toda a gente que a procura, e medo de que os problemas de integração que se revelam nos autores dos atentados se multipliquem. "Se calhar deviam pensar nisso quando vendem armas aos nossos países, quando intervêm lá." Quanto ao argumento de que há uma crise na Europa, ri: "Crise, qual crise? Crise económica? Toda a gente tem de comer e de beber. Não têm crise nenhuma. Não podem dizer que não há lugar para refugiados."

A culpa eterna da Europa

Crise nenhuma. Mas entre os motivos que encontra para a atração do Daesh para os belgas de origem árabe que perpetraram os atentados encontra a ausência de perspetivas de vida e o facto de, segundo percebeu, um bairro como Molenbeek "não ter boas escolas, é como o Iraque; se calhar são piores do que no Iraque." Mehdi Kassou, belga de origem marroquina, voluntário que trabalha com os refugiados, corrobora: "Há muita coisa que faz que, no fim, eles não tenham uma boa razão para se integrarem. E não tendo razão para viver na Bélgica aceitam uma razão para morrer. Passam a ter um objetivo."

Como se combate isso, então? Como se combate o poder do Daesh? Hussein contrapõe: "Antes de mais, o que é o Daesh? Quem andou a apoiá-lo? Surgiu como? E tem assim tanto poder?" Há um misto de teoria da conspiração e de verdade no que recita de seguida sobre as origens da organização que já teve vários nomes e que no Iraque, sublinha, tem operacionais que já foram da Al-Qaeda. A culpa, claro, atribui-a a quem armou os grupos contra Assad, na Síria, e à invasão do Iraque, aos ataques contra Kadhafi e ao seu derrube. Europa e EUA, claro. A ligação entre as ações do Ocidente e a ascensão do Daesh parece indesmentível, decerto. Mas não estará a confundir ingenuidade e até boas intenções com intuitos perversos? Chega a insinuar que ainda não se acabou com este exército de radicais porque não se quis. É fácil, garante, citando uma povoação no Iraque onde só havia quase mulheres e que, cercada, lhe resistiu. É fácil, hã. Mas tu, Hussein, vieste-te embora, não ficaste para lutar e talvez morrer, pois não?

É a primeira vez que o jovem iraquiano de olhos risonhos parece não ter resposta. Talvez seja injusto confrontá-lo com as suas incoerências, insensível até. Mas o discurso sobre a infindável culpa ocidental, numa semana em que se choram 31 vítimas mortais desse permanente ajuste de contas e vindo de alguém que se coloca na situação de pedir, ou exigir até, a generosidade da Europa não pode deixar de ser questionado. Como não confrontar alguém que acusa a Europa de não saber integrar bem os imigrantes e sua descendência - o que é verdade, mas também não é - com o facto de estar a propor-se ser mais um? "Não tenho nenhum motivo de queixa dos belgas", diz Hussein, conciliador. "Somos migrantes, vamos trazer coisas nossas mas não vamos mudar a maneira como se vive aqui. É a Europa que vai mudar os refugiados. Vai correr bem."

"É preciso uma lei forte"

Ivan Vásquez e a mulher Mariel, ele boliviano e ela do Equador, têm menos certezas. Ivan está há 25 anos em Bruxelas, ela há 19. Vivem na Avenue Rougier, exatamente em frente ao local onde ontem um homem foi atingido a tiro pela polícia e o saco que trazia explodido por um engenho telecomandado. As notícias dizem que a polícia terá garantido que o saco tinha explosivos, e que o homem é um de três detidos na sexta-feira na continuação das investigações relacionadas com os ataques na capital belga e em Paris - ataques que terão finalmente sido relacionados diretamente pela descoberta de que o ADN de um dos suicidas do aeroporto de Bruxelas estava nos explosivos de um apartamento parisiense. Ivan e Mariel tinham ido às compras mas os vizinhos de cima, uruguaios, viram tudo. Os relatos, porém, contradizem-se. Uns dizem que eram três homens e dois fugiram, outros que era só um e estava sentado à espera do elétrico, com a filha de uns 7 anos ao lado, outros que vinha a correr, por causa da polícia, e se agarrou a uma menina que ali estava como refém. E há também quem garanta que o saco que trazia estava "completamente vazio". Há vários vídeos, mas não permitem decidir qual a versão correta: só que o homem foi atingido a tiro numa perna e arrastado pela polícia para uma carrinha e o saco alvo de explosão controlada. Uma intervenção musculada e à vista de toda a gente. Ivan e Mariel, porém, não estão muito ralados: "É preciso meter esta gente no sítio. As pessoas vêm para cá, têm de viver como se vive aqui. Somos um país, vá, católico. É preciso uma lei forte contra este laxismo. E o Estado nunca devia ter deixado que se juntassem todos no mesmo sítio." Eles, bem entendido, são "os árabes". Como estes miúdos de 19 anos, de origem magrebina, que dizem dos atentados que "os enojam". Mostram um vídeo do ocorrido aqui, filmado por "uma amiga". Gabam-se de o terem vendido por 200 euros a uma TV. A autora, uma belga muito loura de lenço na cabeça, chega, com um carrinho de bebé, e reúne-se aos vizinhos Mariel e Ivan. "Conhecemo-nos todos aqui", diz. Segue o olhar para o lenço, sorri: "Converti-me ao islamismo há dez anos. Atenção, os convertidos não são todos extremistas." Não se quer identificar, mas aceita falar. "O homem estava à espera do elétrico. Se calhar a polícia enganou-se. Acredito que ele não esteja isento de culpas, mas não me parece que seja o terceiro do aeroporto [o homem de chapéu que não se fez explodir e que a polícia procura]."

No dia em que foi anunciada a alteração do nível de alerta de 4, o máximo, para 3, houve mais duas prisões alegadamente ligadas aos atentados. Noutra delas o detido também foi atingido a tiro; com os nervos em franja, a polícia, na dúvida, dispara. Ainda assim, Peter Mertens, porta-voz do centro de crise criado devido aos atentados, explicava ontem de manhã a mudança de classificação: "Quer dizer que não está um ataque iminente". Três era o nível de alerta existente a 22, terça-feira.

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