Brexit: "Penso que acabaremos por voltar à União Europeia"

Jackie Jones, do Labour, está arrasada com a saída do Reino Unido da União Europeia. "Era uma eurodeputada, e acabo de perder o meu emprego, mas não estou triste apenas por mim. Estou triste enquanto cidadã europeia, que já não sou", disse ao DN.

O Reino Unido cortou os laços de 47 anos de integração comunitária. Com o Brexit, 73 eurodeputados britânicos perderam o mandato no Parlamento Europeu.

Além do grupo dos eurocéticos, há um grupo de deputados que se despede de Bruxelas de forma emocionada, antecipando um hipotético regresso ao espaço da União Europeia. É o caso de Jackie Jones, eurodeputada trabalhista, que se confessa arrasada pela circunstância do Brexit.

Filha de uma paixão improvável, no pós-guerra, numa altura em que a relação entre o Reino Unido e Alemanha ainda não era pacífica, a agora ex-eurodeputada britânica, Jackie Jones descreve o Brexit como um momento devastador.

"A minha mãe era alemã. O meu pai era britânico. Eram crianças durante a guerra, conheceram-se em Malta e casaram. É este o sonho europeu. De paz e segurança na Europa e as famílias a unir-se. O meu filho tem 18 anos e ele sempre foi europeu. Então, estamos absolutamente arrasados", confessou numa conversa com o DN, em Bruxelas.

Mas a antiga eurodeputada trabalhista eleita no País de Gales faz também uma análise racional sobre o significado do Brexit. "Para o País de Gales, estamos a sair da maior zona de livre comércio do mundo. Não faz sentido economicamente", afirma, lembrando que "o País de Gales é um beneficiário líquido da UE", e por isso, "não faz sentido" saírem, pois vão "perder muito".

Quando as perdas atingem os bolsos, nunca passam despercebidas. Pode demorar tempo, mas as sociedades tiram as devidas consequências. É pelo menos essa a análise de Jackie Jones, que olha agora para potenciais mudanças internas no Reino Unido.

"No País de Gales, na Escócia e na Irlanda do Norte, existem movimentos separatistas", diz ela, que vem de uma região do país em que esses movimentos existem, mas "não tanto como em outras partes do Reino Unido, especialmente na Escócia".

"Esses, certamente já questionaram se deveríamos ter um sistema federal. E acredito num sistema federal há muito tempo. Portanto, esperamos que também ocorram algumas mudanças positivas", afirma, considerando que as consequências do Brexit são ainda mais vastas.

Outra das consequências do Brexit é o crescente número de associações locais de matriz pró-europeia. E, a partir deste sábado, "dia 1 de fevereiro, vão transformar-se em grupos a favor da readesão e poderão progredir, confiantes como grupo para readmissão [na União Europeia], principalmente para a geração mais jovem".

Refere-se a "cinco milhões de jovens que perderam o seu direito de ser cidadãos europeus", por essa razão, "eles perderam tanto", lamenta a agora antiga eurodeputada, admitindo que, do lado do bloco europeu, também há lições a tirar, pois "dentro da União Europeia, também é um alerta de que devemos lutar por esses valores que mantemos como a democracia e Estado de Direito, dignidade humana, solidariedade",

O Brexit chegou sem pompa nem circunstância em Bruxelas. As bandeiras britânicas foram retiradas. Durante a tarde, a Union Jack foi arriada dos edifícios das instituições europeias, de forma singela, sem qualquer cerimónia a assinalar os 47 anos de vínculo comunitário, que se perde a partir de agora que a guilhotina do Brexit cortou o laço legal com o bloco europeu.

"É um momento muito triste e estou de coração partido", confessa Barbara Gibson, à porta do Parlamento Europeu, onde foi assinar a passagem da meia-noite, de 31 de janeiro. "Era uma eurodeputada, e acabo de perder o meu emprego, mas não estou triste apenas por mim. Estou triste enquanto cidadã europeia, que já não sou".

"Acabo de perder a minha identidade", afirma, entre um choro contido, a antiga eurodeputada liberal, do grupo Renovar a Europa. "Também estou triste pelo meu país, porque nós éramos maiores, enquanto membros da União Europeia. Será um longo processo".

"Penso que acabaremos por voltar à União Europeia", disse ao DN em Bruxelas, embora pense que "isso possa levar muito tempo. E, enquanto eurodeputada - antiga eurodeputada - o meu objetivo é manter essas relações tão perto quanto possível e assegurarmo-nos que as nossas vozes são ouvidas na União Europeia".

Em Bruxelas, o momento ventura "histórico" chegou de forma discreta, numa noite banal de sexta-feira. Na embaixada britânica, a bandeira das 12 estrelas douradas, em fundo azul já tinha sido retirada, durante a tarde. A Union Jack desfraldada na noite ventosa de Bruxelas, contrastava com os conjuntos de bandeiras das instituições, onde a bandeira do Reino Unido foi substituída pela da UE.

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