Brasileiros em Portugal atentos ao Brasil no epicentro da pandemia

Até à chegada da covid-19 o sentimento mais intenso entre os cerca de 150 mil brasileiros residentes em Portugal em relação aos parentes e amigos no Brasil era a saudade. Agora, é o medo.

O contraste é gritante. Enquanto Portugal respira mais aliviado sob a máscara e caminha com passos lentos e hesitantes em direção à liberdade vigiada do novo normal imposta pelo vírus, do outro lado do Atlântico milhões de pessoas unidas por laços históricos e afetivos aos portugueses fazem o caminho inverso e trancam portas e janelas para proteger a própria vida. Na última semana, a Organização Mundial de Saúde reorientou o epicentro do terramoto da pandemia em direção à América do Sul, irradiado a partir do Brasil, e fez soar alerta no maior contingente de imigrantes no País.

Até então, o sentimento mais intenso entre os cerca de 150 mil brasileiros residentes em Portugal em relação aos parentes e amigos no Brasil era a saudade. Agora, é o medo. O país sul-americano alçou o nada honroso segundo posto no pódio mundial de infetados, com mais de 350 mil casos oficiais, abaixo apenas dos EUA (quase 1,7 milhões), que se especula ainda maior, graças ao alto número de subnotificações. Mesmo assim, já são mais de 22 mil óbitos notificados. Um caos já instalado no qual se soma a desconfiança em relação ao facto de o presidente Jair Bolsonaro saber lidar com a situação.

Em plena pandemia, os brasileiros testemunharam a demissão de dois ministros da Saúde, "acusados" pelo mandatário que publicamente desdenha do vírus de darem atenção demasiada à Ciência, ao defenderem o confinamento e rechaçarem o uso massivo do medicamento cloroquina pela população, como sugere Bolsonaro. O Brasil entra no olho do furacão com um general - o nono ministro militar no governo - como interino da Saúde, um paraquedista de carreira e que, aparentemente, também pousou de paraquedas na função.

"Além do covid-19, temos de lutar contra o covard-17", diz o empresário brasileiro Júlio Silveira, 48 anos, há dois em Portugal, num jogo de palavras formado pelo adjetivo que atribui ao presidente e o número utilizado pelo mesmo na campanha presidencial. De Paredes, ao lado da mulher e de dois filhos, "todos a salvo de um perigo maior no Brasil", monitoriza os parentes que lá estão.

A pandemia pegou os pais, divorciados, em plenas férias, mantendo-os confinados distantes do Rio de Janeiro, onde residem. "Meu pai está de quarentena no interior da Bahia e a minha mãe, em Pernambuco. O que é um alívio, pois se a situação no Brasil está ruim, no Rio costuma ser sempre pior", avalia. Enquanto os estados do Nordeste mantêm a ocupação dos leitos de CTI no patamar dos 50% o sistema de saúde fluminense aproxima-se do limite (98%).

O jornalista César Rocha, 51 anos, esteve até há pouco tempo no campo de batalha. Em quarentena em Lisboa, após aterrar no último dia 10 de maio, sente-se aliviado em ter deixado o Brasil, onde passou os últimos dois meses. Rocha também não poupa a forma como presidente "não gere" a pandemia, estimulando parte da população que ainda lhe é cegamente fiel a ignorar as medidas de segurança. "O taxista que me levou ao aeroporto falou que confiava em Bolsonaro. Não usava máscara e garantiu que se sentia protegido do vírus, pois comia alho todos os dias", relata.

Para além da questionável fé de Bolsonaro na cloroquina e dos seus seguidores no poder do alho, Rocha teme pelo crescimento de uma velha epidemia brasileira e igualmente letal: a violência. "Os polícias também são infetados e na proporção que o policiamento diminui, cresce a crise, a escassez e a fome", afirma. Uma equação que pode levar ao aumento da curva da criminalidade, em paralelo à curva do vírus.

Apesar do cenário pouco convidativo, a fragilidade dos familiares, somada a uma certa sensação de desamparo em Portugal, tem levado um grande número dos imigrantes brasileiros a cogitar o retorno ao Brasil. Mesmo com as restrições no tráfego aéreo entre os dois países, a Embaixada Brasileira estima em cerca de 8 mil os repatriados que passaram por algum tipo de coordenação consular desde o início da crise. Só a Embaixada fretou aviões para levar 2.114 deles.

A maquilhadora Lucélia Silva Mesquita, 31 anos, tem passado os últimos dias entre Queijas, em Oeiras, e o aeroporto de Lisboa, na expetativa de seguir o mesmo destino. Espera reencontrar a filha de 7 anos, que vive com os avós em Governador Valadares, em Minas Gerais. "Ela estava comigo até voltar, no ano passado, devido a um problema respiratório severo, que piorava bastante no inverno. Mas agora com a situação no Brasil, o risco dela é ainda maior. O meu coração de mãe está apertado", desabafa.

Aliado ao problema de saúde da filha, Lucélia perdeu o emprego em Portugal e a falta de uma perspetiva positiva acelerou o desejo do retorno. A gota de água para a maquilhadora foi o assalto que sofreu na semana passada, no centro de Lisboa, quando seguia para uma casa de câmbio no Rossio a fim de enviar um pouco da economia que conseguiu fazer para a filha. "Foi um sinal", acredita.

Desejo de voltar ao Brasil

Um "sinal" também são os três grupos de WhatsApp que a advogada Rilane Oliveira administrava, cada um deles com cerca de 250 brasileiros, todos desejosos em voltar ao Brasil. A própria Rilane, incluída. Com o pai, em São Luís (Maranhão), contaminado pelo covid-19, e ainda uma filha em Brasília, Rilane também teve o vínculo profissional cortado em decorrência da pandemia e, ao esbarrar na "burocracia" do guarda-chuva social do Estado português, não vê outra saída a não ser o retorno.

"Não faz sentido o governo português, neste cenário desesperador, prestar ajuda apenas aos emigrantes que apresentem documentos que só se conseguem no Brasil ou em órgãos portugueses com funcionamento parcial e mediante agendamento", critica Rilane. Debilitada com a própria situação, a advogada não teve forças emocionais para seguir partilhando o desespero de outras centenas de brasileiros no WhatsApp. "Tive que desabilitar dois dos três grupos. Infelizmente, era mais do que podia suportar", diz.

Voltar ao Brasil não está nos planos de Júlio Silveira, embora a pandemia também tenha atrapalhado suas atividades profissionais em ambos os países. Empresário do ramo editorial, Silveira viu o festival que organiza no Rio de Janeiro, o Salão Carioca do Livro (LER), ser adiado de Agosto para Novembro, além dos prejuízos que contabiliza com o cancelamento da Feira do Livro de Lisboa. Enquanto espera para retomar as operações, arrisca as primeiras incursões de desconfinamento. "Fui à Nazaré pois soube que lá não foram registados casos", disse, precavido.

César Rocha ainda não teve a mesma sorte. Segue em um dos quartos do apartamento em Campo de Ourique, isolado do restante da família, numa quarentena que se autoinfligiu, pois não chegou a ser abordado por autoridades no desembarque em Lisboa que lhe dessem orientações neste sentido. Uma falha que para o jornalista, que sentiu a terra tremer no novo epicentro mundial, não desabona a forma como Portugal manteve os pés firmes e os cidadãos seguros durante a pandemia.

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