Boeing garante aviões mais seguros. Pilotos pedem calma

Empresa efetuou alterações no polémico sistema de estabilização de voo MCAS e espera que entidades reguladoras voltem a deixar voar aquele modelo. Autoridades americanas estão a investigar dois acidentes em cinco meses.

A Boeing apresentou esta quarta-feira mudanças no software e manual de controlo de voo dos aviões 737 Max, garantindo que dizendo que as correções implementadas melhoram a segurança deste modelo de aeronave, que esteve envolvido em dois acidentes mortais desde outubro e foi suspenso pelas autoridades de segurança de aviação.

"Estamos a trabalhar com clientes e reguladores em todo o mundo para restaurar a confiança na nossa empresa, mas também para reafirmar o nosso compromisso com a segurança e reconquistar a confiança dos passageiros", disse Mike Sinnett, vice-presidente da Boeing, nas instalações em Renton, Washington, garantindo que as aeronaves "são seguras".

Com estas informações, a Southwest Airlines, a maior operadora do 737 Max, revelou que se sente encorajada pelas mudanças propostas, mas os pilotos da American Airlines Group, a maior operadora do mundo, pediram à Boeing e aos reguladores federais que não apressem a aprovação da atualização de software.

"Estamos otimistas com o progresso, mas cautelosos", reiterou a associação dos pilotos (Allied Pilots Association, no original), que representa os aviadores da American, num comunicado, citado pela Bloomberg. "Não queremos ver o processo de certificação apressado ou acelerado."

A Boeing alterou o chamado sistema MCAS (Sistema de Aumento de Caraterísticas de Manobra, na sigla em inglês), um mecanismo de estabilização de voo desenvolvido pela companhia especificamente para os 737 MAX 8 e MAX 9, de forma a aumentar os níveis de proteção. O objetivo é diminuir o risco do MCAS se ativar de forma espontânea.

O software agora atualizado pela Boeing usa dois sensores no nariz do avião, em vez de um, para ler o ângulo de ataque e avaliar a inclinação da aeronave, além de que foi projetado para não acionar o sistema MCAS repentinamente. Se aqueles sensores discordarem em mais de 5,5 graus, o sistema MCAS será desativado e não empurrará o nariz do avião para baixo. A Boeing adicionará ainda um indicador no painel de controlo para avisar os pilotos quando os sensores de ângulo de ataque não concordarem.

As investigações de um dos acidentes com estas aeronaves - o de outubro de 2018 na Indonésia - indicam que foi a ativação deste sistema que inclinou o nariz do avião da Lion Air de forma tão pronunciada que as "tentativas dos pilotos para recuperar o controlo do aparelho foram inúteis". Segundo a empresa, as atualizações divulgadas vão reduzir a carga de trabalho da tripulação em situações anormais de voo.

A tentativa de contenção da crise passou por uma visita da comunicação social às instalações da empresa em Renton, Washington, onde o avião é fabricado, bem como de 200 pilotos e das autoridades do setor, com os técnicos da empresa a detalharem as mudanças de software que pretendem submeter à Administração Federal de Aviação (FAA, no original).

Até ao final desta semana, a Boeing planeia enviar as atualizações de software e um plano de treinos de pilotos para a FAA, para aprovação da certificação - de resto, o processo de aprovação anterior destes modelos por parte da FAA foi tema de uma audiência muito esperada do Senado americano na tarde de quarta-feira.

Segundo a Bloomberg, os legisladores questionaram o administrador da FAA, Daniel Elwell, sobre o referido software "anti-stall", que os investigadores suspeitavam estar com problemas, contribuindo para o acidente de 29 de outubro de um avião da Lion Air no mar de Java, na costa da Indonésia, e possivelmente no acidente subsequente de um voo da Ethiopian Air em 10 de março.

Na sua primeira resposta pública a semanas de controvérsia, Daniel Elwell disse que a FAA manteve inicialmente a supervisão da certificação do sistema MCAS porque era novo, mas mais tarde - depois de a agência ter ficado mais confortável com o sistema - permitiu que os funcionários da Boeing, delegados pela FAA, assinassem os projetos para as aprovações finais.

Já a fabricante diz que trabalha com as agências reguladoras para certificar a atualização do software e que o prazo para a conclusão das mudanças vai depender de cada país. Depois de aprovadas, a Boeing enviará o novo software às companhias aéreas clientes.

"A atualização de software da Boeing parece acrescentar mais uma camada de segurança à operação da aeronave MAX", disse Bob Waltz, piloto-chefe da Southwest, uma das companhias aéreas que têm as aeronaves da Boeing na sua frota. "Aguardamos com expectativa a orientação final da FAA e cumpriremos todas as modificações e requisitos de treino adicionais para fortalecer a confiabilidade do 737 Max."

346 mortos em dois acidentes nos últimos cinco meses

Recorde-se que, neste mês de março, autoridades de aviação de todo o mundo suspenderam a utilização dos modelos 737 Max, depois de, a 10 de março, a queda de um avião da Ethiopian Airlines ter provocado 157 mortos, levantando dúvidas sobre a segurança do modelo. Sobretudo porque esse foi o segundo acidente em cinco meses envolvendo um 737 Max 8, já que em outubro passado 189 pessoas morreram num voo da indonésia Lion Air.

Contactado pela CNN, o regulador aeronáutico norte-americano não quis tecer qualquer comentário sobre a atualização do software da Boeing e sobre se isso será suficiente para recuperar a autorização de voo para esses modelos. Mas uma fonte disse à cadeia televisiva norte-americana que "a FAA não pode permitir que dezenas de aviões 737 Max regressem aos ares até que saiba mais sobre as causas do acidente aéreo etíope".

[notícia atualizada às 8.40 de 28/3, com a posição dos pilotos e relato da audiência no Senado americano]

Exclusivos

Premium

EUA

Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.