Badajoz sem memória, 80 anos depois da matança da guerra civil espanhola

Um mês após o início do conflito, a cidade caiu às mãos das tropas de Franco. Milhares de republicanos foram fuzilados. Hoje, quase nada existe para lembrar o que se passou naqueles dias

Dizem por aqui que houve um dia em que as ruas escorreram sangue. As tropas de Francisco Franco, lideradas por Juan Yagüe, entraram na cidade na madrugada de 15 de agosto de 1936 e começaram a matar. Os primeiros fuzilamentos organizados e sistemáticos, visando em especial os adversários políticos, aqueles conotados com a república e com o socialismo, deram-se durante a tarde. Contra o muro da catedral. Levados em grupos, eram dispostos em fila. Depois, uma rajada de metralhadora dilacerava-lhes a carne. Os seguintes subiam para cima daqueles que tinham acabado de cair. Morto a morto, foi crescendo o monte de cadáveres a céu aberto, naquela que hoje dá pelo nome de Praça de Espanha.

O episódio é contado por José Manuel Corbacho, presidente da Associação para a Recuperação da Memória Histórica da Extremadura, enquanto chama a atenção para o ligeiro declive do chão. Tanta foi a mortandade que o sangue, empurrado pela inclinação do terreno, seguiu cidade abaixo, entrando pela estreita Rua Vicente Barrantes.

Para ilustrar o que conta, Corbacho pega no telemóvel e faz uma pesquisa. No ecrã aparece Saturnino Medina, nascido em 1914 e testemunha da matança às portas da catedral. Morreu em 2004, mas ficou o depoimento que gravou para a televisão espanhola. Narra como se tingiu de vermelho aquela que a memória coletiva de Badajoz se habituou a chamar a "rua do sangue". Hoje, 80 anos volvidos, não há nada na praça que recorde os acontecimentos. Nenhuma placa. Nenhuma inscrição. Nenhuma memória.

Descendo pela Rua Ramón Albarrán, chega-se ao local onde, noutros tempos, estava instalada a praça de touros. Foi aí que muitos outros foram fuzilados. Ou feitos prisioneiros para depois serem levados a matar, contra os muros do cemitério de San Juan. Já nada resta da arena. Foi demolida em 2002 para dar lugar a um centro de congressos. Em homenagem aos factos históricos que ali se viveram, apenas uma escultura metálica, que se ergue no meio do passeio, da autoria de Blanca Muñoz. Explica Corbacho que a escultora estudou as constelações do céu de Badajoz e que foi a partir das linhas que unem as estrelas que desenhou a escultura. Todos os 15 de agosto, com o Sol a pique do meio-dia, as sombras desenham no chão o coração de uma flor. Quem por ali passa não tem forma de o saber. Nem sequer é possível descobrir o nome da escultora.

Um pouco mais ao lado encontra-se uma placa com informação turística. Fala do baluarte de São Roque, parte da antiga muralha. O escrito explica que "em 1817 inaugurou-se no seu interior uma praça de touros, reedificada em 1859 e que esteve em funcionamento até 1966". Aparentemente nada se passou nos anos 30 do século passado.

"Sempre defendi que se fizesse aqui um lugar de memória, com um centro de interpretação, mas a direita espanhola ainda tem muita dificuldade em admitir os erros do franquismos. Para o Partido Popular, a matança de Badajoz é uma espécie de tabu. Dizem que não vale a pena reabrir feridas, mas a questão é que elas não estão fechadas", sublinha Corbacho.

No cemitério de San Juan muitos foram fuzilados contra os muros. E centenas incinerados numa vala comum. Mas as antigas paredes brancas, erguidas em 1837 e testemunhas da crueldade de 1936, foram tapadas em 2009. A ideia era diminuir o impacto visual para os futuros residentes de um condomínio de luxo que iria ser construído no terreno contíguo. Mais uma vez, nada pode ler-se sobre a história do local. "É outro lugar de memória que se perdeu. Para mim este é o verdadeiro muro do esquecimento", lamenta Corbacho.

Lá dentro, no interior do cemitério, um pequeno jardim, construído em cima do lugar onde repousam os mortos e inaugurado em 1986, serve como tímida homenagem. Aí pode ler-se o desejo de que nunca mais "voltem a suceder factos como aqueles de há 50 anos". Corbacho sente-se revoltado. "Factos? É preciso chamar as coisas pelos nomes. O que aconteceu aqui foi uma repressão violenta, um genocídio dos opositores políticos do franquismo."

Num dos jazigos do cemitério está enterrado Eladio López Alegría, o primeiro presidente da Câmara de Badajoz, nos tempos da república. Morreu em setembro de 1936, às mãos dos rebeldes. O seu neto, Miguel Ángel, foi o primeiro astronauta nascido em Espanha a viajar no espaço e tem uma rua na cidade com o seu nome. Honra que o avô ainda não conseguiu. Mas está quase. A associação de Corbacho conseguiu, em abril deste ano, que a câmara aprovasse a proposta. A atual Avenida Entrepuentes virá a chamar-se Eladio López Alegría.

Uma distinção semelhante à que teve direito Sinfoniano Madroñero, edil de Badajoz nos dias da matança. Conseguiu fugir para Portugal, mas foi preso em Campo Maior pelas autoridades portuguesas e devolvido às tropas de Franco. Acabou fuzilado a 20 de agosto. Uma das principais artérias da cidade foi batizada com o seu nome.

O sol está inclemente. Junto à antiga praça de touros as ruas estão quase desertas. Chari, 46 anos, é auxiliar de farmácia e segue para o trabalho. Sim, recorda-se de que antes estava ali a praça e sabe o que se passou. Ainda assim, está contente com o centro de congressos. "Era um espaço que só servia para os drogados irem injetar-se."

Um pouco depois, vindos do mesmo sítio, surgem dois adolescentes, que vão mexendo no telemóvel. David tem 17 anos e Arián 13. Ambos nasceram e sempre viveram em Badajoz. Surpreendem-se com a notícia de que ali já esteve uma praça de touros. E dizem que não, que não sabem o que se passou naquele local. "Somos jovens", desculpa-se o mais novo.

Em conversa com o DN, o historiador Francisco Espinosa, autor do livro La Columna de la Muerte e um dos principais estudiosos dos tempos do conflito, concorda que a direita espanhola ainda não acertou contas com o passado, mas também aponta o dedo à esquerda, relembrando que a decisão de demolir a velha praça de touros foi tomada pelo socialista Rodríguez Ibarra, presidente da Junta da Extremadura entre 1983 e 2007.

Não há número certo para as vítimas em Badajoz, mas poderão rondar as quatro mil. A culpa da desmemória, para Espinosa, é da "sociedade neoliberal" que não se preocupa com a história. "Vivemos em sociedades apáticas, por onde não corre o sangue. Como correu, rua abaixo, pela Vicente Barrantes, vindo dos cadáveres empilhados junto à parede da catedral.

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