Amy Coney Barrett, a juíza mais nova de sempre no Supremo dos EUA

A terceira nomeação de Trump para o Supremo será a pessoa mais nova a sentar-se no tribunal superior de Washington. Comprometeu-se em ser imparcial e em servir os norte-americanos. Cabe agora ao Senado aprovar o seu nome.

Não é só mulher e mãe de sete, e a primeira no Supremo com filhos em idade escolar: Amy Coney Barrett é "altamente qualificada", a "pessoa para o lugar", disse Donald Trump durante a cerimónia no Rose Garden da Casa Branca.

O presidente disse que Coney Barrett "vai ser fantástica" e disse que recebeu "muitas cartas de apoio" para tomar esta decisão. "Não há ninguém melhor do que Amy Coney Barrett" para defender "a sobrevivência da segunda emenda, da liberdade religiosa", crê Trump.

Amy Coney Barrett, de 48 anos, é juíza apenas desde 2017, mas tem experiência no Supremo Tribunal, uma vez que foi assistente do juiz Antonin Scalia, entretanto falecido.

"Adoro os EUA e adoro a Constituição dos EUA", disse por sua vez a juíza federal, que de seguida homenageou Ruth Bader Ginsburg e o seu mentor, Antonin Scalia, ambos juízes que se distinguiram no Supremo.

"Tive a felicidade de trabalhar com Scalia. As lições que aprendi que aprendi ainda ecoam. Um juiz deve aplicar a lei como foi escrita. Os juízes não fazem política devem ser resolutos e afastar as opiniões políticas que possam ter", afirmou, tentando afastar a partidarização da escolha.

"O presidente nomeou-me para servir no Supremo Tribunal e essa instituição pertence a todos nós. Se for confirmada [no Senado], não assumirei esse papel no interesse das pessoas do meu círculo e certamente não no meu próprio interesse, assumirei esse papel para vos servir", disse dirigindo-se aos norte-americanos.

Quase 24 horas antes de Donald Trump se dirigir aos norte-americanos e anunciar a sua escolha para preencher a vaga deixada pela morte da juíza Ruth Bader Ginsburg no Supremo Tribunal, jornais como o Washington Post e o New York Times avançavam que a escolha estava feita. Tendo em conta que Amy Coney Barrett foi a única das cinco mulheres recebidas pelo presidente (e logo por duas vezes), a decisão foi tudo menos surpreendente.

A candidata ao nono lugar do Supremo, se confirmada pelo Senado, irá fazer com que a balança penda decisivamente para os conservadores, que passam a ser seis.

Na quarta-feira, Trump previu que o Supremo Tribunal irá precisar de nove juízes para determinar o resultado das eleições presidenciais. "Penso que isto vai acabar no Supremo Tribunal. E penso que é muito importante que tenhamos nove juízes", disse.

"Penso que é melhor se for antes das eleições porque penso que isto - este esquema que os democratas estão a usar - irá ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos", continuou o presidente. O "esquema" é o voto postal, que o candidato pelos republicanos tem vindo a alegar ser uma fraude.

Os democratas, por seu lado, não queriam que a escolha fosse feita pelo presidente em fim de mandato, tal como aconteceu com Barack Obama em 2016. A mesma opinião tem a maioria dos norte-americanos. Segundo uma sondagem do Washington Post-ABC, 57% dos cidadãos disse que a escolha devia ser feita pelo vencedor das eleições e a consequente confirmação pelo Senado, também ele renovado nas eleições de novembro em mais de um terço dos assentos.

Seis irmãos, sete filhos

Filha de um advogado e de uma dona de casa, Amy Coney Barrett cresceu num subúrbio de Nova Orleães, com mais cinco irmãs e um irmão. Coincidência ou não, é mãe de sete filhos (dois deles adotados do Haiti, como Trump fez questão de mencionar) do casamento como com Jesse Barrett, ex-procurador e agora advogado.

Frequentou uma escola católica feminina antes de se formar no presbiteriano Rhodes College, no Tennessee, para depois obter o diploma de Direito na católica Universidade de Notre Dame, em South Bend, Indiana. Durante os estudos foi editora da revista de Direito da faculdade e formou-se com as melhores notas da sua classe.

Estabeleceu-se em South Bend, e na mesma universidade em que formou foi professora durante 15 anos. Coney Barrett é atualmente juíza num tribunal federal de segunda instância em Chicago, o que a leva a viajar todos os dias 1h45 em cada sentido.

Quando, em 2017, teve de passar pelo crivo do Senado para se tornar juíza federal, defendeu a sua fé católica e a sua capacidade para agir pela lei e não pela fé. "O dogma vive fortemente dentro de si, e isso é motivo de preocupação", disse a senadora da Califórnia Dianne Feinstein à candidata, ao que Barrett respondeu: "Se está a perguntar se levo a sério a minha fé católica, eu levo, embora sublinhe que a minha filiação pessoal na igreja ou a minha crença religiosa não depende do cumprimento dos meus deveres como juíza."

Coney Barrett pertence a um grupo religioso particularmente conservador, People of Praise, que defende os papéis tradicionais da família, entre os quais que o marido deve assumir a autoridade.

Já assumiu publicamente que é crítica do caso Roe vs. Wade, a decisão do Supremo Tribunal de 1973 sobre o aborto, todavia não acreditava que alguma vez o Supremo viesse a mudar essa decisão. Em 2016, sugeriu que o tribunal muito provavelmente iria deixar o direito à interrupção voluntária da gravidez em vigor, mas esvaziaria a decisão ao permitir a cada um dos estados legislar para tornar o aborto mais difícil de realizar.

Além de religiosa, Coney Barrett assume-se como herdeira de Antonin Scalia quanto à visão conservadora da Constituição, o chamado originalismo constitucional. É uma corrente que defende a leitura da lei fundamental no espírito da época, todo um conceito aberto a controvérsias.

Isso encontra-se nas suas sentenças. Por exemplo, defendeu vencida um caso em que um indivíduo condenado por fraude no Wisconsin (estado que aplica como pena acessória a interdição de posse de armas a delinquentes) pugnava pelo seu direito a porte de arma. Para defender a posse de armas do homem condenado, Barrett usou argumentos, em 37 páginas, inspirados no século XVIII.

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