Acordo sobre migrações: Sánchez inicia com Macron périplo pela UE

Novo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, esteve este sábado em Paris, domingo vai estar em Bruxelas, na terça-feira Berlim. Quinta e sexta-feira vai ao Conselho Europeu. E no dia 2 de julho tem prevista reunião com o seu homólogo português António Costa

Enquanto Itália e Malta jogam ao jogo do empurra com a embarcação da ONG Lifeline, que tem 230 migrantes resgatados ao largo da costa líbia a bordo, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, iniciou este sábado, em França, um périplo por vários países da União Europeia para discutir com os seus parceiros os moldes de um novo e vasto acordo sobre a gestão dos fluxos migratórios.

Na semana passada, Espanha aceitou o desembarque em Valência de 630 migrantes que estavam a bordo da frota Aquarius, depois de os mesmos terem sido rejeitados por Itália e Malta. O novo governo italiano, composto por eurocéticos e ultranacionalistas do Movimento 5 Estrelas e da Liga, tem adotado uma posição irredutível sobre a crise migratória. Como aliás já vinham fazendo em relação à questão dos refugiados países de Leste, como por exemplo a Hungria e a Polónia.

"Esse barco não vai tocar solo italiano. As ONG que levem toda a carga de seres humanos para Gibraltar, Espanha, França ou para onde eles quiserem", disse o ministro do Interior e também líder da Liga, Matteo Salvini, num dos seus diretos de Facebook. Classificando os colaboradores da Lifeline como traficantes de seres humanos, Salvini sublinhou ainda: "A guarda costeira italiana escreveu-lhes para que não saíssem do sítio, que a Líbia iria tomar conta da ocorrência, mas estes desgraçados, incluindo pondo em perigo a vida dos imigrantes nos barcos, não ouviram ninguém e prosseguiram, carregando a sua quantidade de carne humana a bordo".

Esta semana, reagindo às posições e declarações de Salvini, o presidente francês comparou o populismo à lepra. "Podem vê-lo a espalhar-se, como a lepra, até em países em que pensávamos ser impossível ver isso de novo, países vizinhos", disse Emmanuel Macron, com quem este sábado almoçou Pedro Sánchez em Paris.

A seguir à França, o primeiro-ministro socialista espanhol, cujo governo é assumidamente europeísta e feminista, desloca-se domingo a Bruxelas, onde tem prevista uma reunião com o presidente da Comissão Europeia. E ainda a participação numa reunião informal de líderes de 16 países, convocada por Jean-Claude Juncker, para discutir as migrações.

Além de Espanha e França, participam, entre outros, Itália, Malta, Grécia, Alemanha, Áustria. Objetivo é acertar posições com vista ao Conselho Europeu de 28 e 29, onde os chefes do Estado e do governo da União Europeia vão debater a forma e o conteúdo de um possível novo acordo de gestão dos fluxos migratórios.

Na semana passada, um projeto de conclusões da cimeira, enviado pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, aos 28 fazia referência à criação de "plataformas de desembarque regionais" para fazer uma triagem de migrantes com motivações económicas e refugiados que fogem da guerra e necessitam de proteção internacional. Tais plataformas seriam estabelecidas em países terceiros. Apesar de não terem sido nomeados, alguns media europeus falam em Tunísia ou mesmo Albânia.

Antes do Conselho Europeu, Pedro Sánchez vai ainda reunir-se com a chanceler Angela Merkel em Berlim na terça-feira. A democrata-cristã está a ser fortemente pressionada a nível interno pelos parceiros de coligação da CSU. O líder do partido bávaro, que é também o ministro do Interior na Grande Coligação, Horst Seehofer, deu duas semanas a Merkel para chegar a um novo acordo com os seus parceiros europeus. Seehofer, junta-se assim a Salvini e a outros, como por exemplo o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que têm criticado ou resistido ao cumprimento das quotas obrigatórias de redistribuição de refugiados pelos países da UE.

Numa tentativa de mostrar o que é a solidariedade europeia, Sánchez e o seu novo governo deixaram entrar os migrantes a bordo das embarcações do Aquarius. Mas arrisca-se, em breve, a começar a ser acusado de estar a provocar um feito de chamada. Apesar de o bom tempo também contribuir fortemente para o aumento das travessias do Mediterrâneo. Só este sábado foi contabilizada a chegada à Andaluzia e às Canárias de 569 migrantes em 21 pateras (embarcações rudimentares), noticiou o jornal El País.

Depois das reuniões com todos estes dirigentes europeus, Sánchez reunir-se-á com o primeiro-ministro português, o qual vai encontrar também em Bruxelas na quinta e sexta-feira. O encontro com António Costa está previsto para 2 de julho.

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.

Premium

Marisa Matias

A invasão ainda não acabou

Há uma semana fomos confrontados com a invasão de territórios curdos no norte da Síria por parte de forças militares turcas. Os Estados Unidos retiraram as suas tropas, na sequência da inenarrável declaração de Trump sobre a falta de apoio dos curdos na Normandia, e as populações de Rojava viram-se, uma vez mais, sob ataque. As tentativas sucessivas de genocídio e de eliminação cultural do povo curdo por parte da Turquia não é, infelizmente, uma novidade, mas não é por repetir-se que se deve naturalizar e abandonar as nossas preocupações.