A tragicomédia da família Le Pen contada numa reportagem em BD

La Face Crashée de Marine Le Pen, da autoria de Riss, diretor do Charlie Hebdo, do guionista Richard Malka e do jornalista Said Mahrane, tenta mostrar quem é, na verdade, a líder do partido de extrema-direita Frente Nacional

O fatídico destino do gato de Marine Le Pen, Artémis, poderia resumir a história da família dividida que ambiciona reunir o apoio da maioria dos franceses nas eleições presidenciais do próximo ano. O episódio verídico é um dos vários momentos tragicómicos de La Face Crashée de Marine Le Pen (A face oculta de Marine Le Pen), a primeira reportagem de investigação em banda desenhada e em tom humorístico sobre a vida da candidata e presidente do partido Frente Nacional (FN). Em 2014, três anos depois de Marine suceder ao pai à frente da formação política de extrema-direita, Jean-Marie Le Pen não consegue digerir a mudança de discurso e de imagem do partido com que a filha tenta virar a página das décadas de posições sulfurosas - antissemitas, xenófobas e racistas - do fundador da FN. Uma tensão crescente entre o octogenário e a que deveria ser a sua herdeira política, que vai culminar, em setembro desse ano, com a morte do gato Artémis, entre as mandíbulas dos cães do patriarca - Sargento e Major - no jardim da luxuosa residência familiar dos Le Pen, em Montretout, nos arredores de Paris.

Laços de sangue

Entre cães e gatos, pai e filha, militantes neonazis homofóbicos e conselheiros de esquerda homossexuais, a banda desenhada de mais de 90 páginas retrata as contradições de Marine Le Pen e do partido que lidera. Uma sucessora condenada a "matar" o pai para poder vingar na política, mas também uma filha do meio comprometida a cuidar e a defender o progenitor na velhice. A ação do livro descreve, entre distopia, sátira e investigação jornalística, a jornada da segunda volta das eleições francesas, a 7 de maio de 2017, e as últimas horas antes de a líder da FN poder tornar-se a sucessora de François Hollande, o atual presidente francês. Uma probabilidade explorada, com algum temor e com muito humor, pelos autores do livro - o desenhador e diretor do Charlie Hebdo, Riss, o guionista e advogado Richard Malka e o jornalista da revista Le Point, Said Mahrane. Uma biografia satírica em pré-campanha eleitoral, quando Riss e Malka tinham já publicado em banda desenhada La Face Karchée de Sarkozy (A face oculta de Sarkozy) em 2006, antes de o político conservador ser eleito presidente de França.

"Sim, é possível"

Os autores tentam responder à pergunta: "Quem é verdadeiramente Marine Le Pen?" O livro explora os "esqueletos no armário" da presidente da FN, que não estava destinada à carreira política - uma segunda escolha depois de a irmã mais velha ter apoiado um dissidente do pai. Os autores recordam as "amizades perigosas" da candidata no meio da extrema-direita mais dura, herdadas do pai, em contraste com as suas posições recentes, mais à esquerda, a favor do casamento homossexual ou contra a reforma laboral. No livro, a sede da FN ostenta duas bandeiras do movimento gay e a candidata é escoltada em permanência por sósias do célebre grupo Village People. Ao longo de vários flashbacks durante o dia da segunda volta das presidenciais, e uma breve passagem de Marine pelo divã de um psicanalista, o livro evoca também as declarações racistas e antimuçulmanas de vários militantes do partido, longe da posição mais moderada da candidata. Uma série de factos bem conhecidos do público e que não parecem abalar a popularidade da FN nas sondagens (30% de intenções de voto). No tom cómico que percorre toda a história, os autores parecem dar a resposta a esta contradição, num diálogo, ao início do livro. "Acreditas que é mesmo possível que cheguemos ao governo?", pergunta Marine ao companheiro e vice-presidente do FN, Louis Aliot, que responde, "graças aos atentados, aos migrantes, aos oligarcas, às inundações e à crise... sim, é possível".

PERFIL:
Filha rebelde e ao mesmo tempo menina do papá

A segunda filha de Jean-Marie Le Pen não estava destinada a uma carreira política, como sublinham os autores do livro de banda desenhada La Face Crashée de Marine Le Pen.

Aquando do nascimento da filha, o patriarca não escondeu a deceção de não ter tido um rapaz - "Deus castigou-me", terá afirmado - e escolheu mesmo como padrinho de Marine um conhecido proxeneta dos prostíbulos de Pigalle.

"A irmã Marie-Caroline, como irmã mais velha, é que deveria ter sido a sucessora, mas acontece que casou com um megretista (Bruno Mégret, um dissidente do partido) e foi excomungada pelo pai", recorda o coautor do livro, o advogado e guionista do Charlie Hebdo Richard Malka em declarações à rádio France Inter.

A advogada defensora de imigrantes clandestinos e frequentadora assídua das noites parisienses, vista como "uma esquerdista" pela antiga cúpula do FN, foi assim chamada a assumir as suas responsabilidades na formação, o seu único empregador até hoje, de responsável jurídica do partido, em 1998, até chegar à presidência, em 2011.

"Ela só aceitou para poder defender o pai, para poder reabilitá-lo, e aí está o paradoxo, que tenha decidido entrar na política por causa do pai e que tenha acabado por matá-lo", ironiza Malka.

O livro baseia-se também na autobiografia de Marine Le Pen - À Contre Flots (A contracorrente) de 2006 - em que a política revela vários episódios da relação tensa com o pai e da profunda depressão aos 16 anos após a fuga da mãe.

Foi em agosto do ano passado que o partido agora liderado por Marine Le Pen, de 48 anos, decidiu expulsar o seu cofundador, Jean-Marie Le Pen, de 88 anos. Na origem da decisão, a insistência recorrente por parte do líder histórico da Frente Nacional em negar que o Holocausto - extermínio de judeus pelo regime nazi alemão - tenha alguma vez acontecido.

Em Lyon

Exclusivos