A teoria do abraço do urso revisitada

Coligações governamentais são quase a regra na União Europeia, mas têm feito perder votos aos parceiros mais pequenos.


"O bando não se pôs de acordo para repartir o saque", disse Albert Rivera mal soube que fracassara a investidura do socialista Pedro Sánchez como primeiro-ministro espanhol porque o Podemos de Pablo Iglésias só o apoiará se integrar o governo. Ora, aquilo que o Podemos ambiciona é quase a regra na União Europeia, um governo de coligação, como os que existem em 19 dos 28 países. E, porém, não só nunca aconteceu na Espanha democrática, como, a ter em conta a crítica do líder do Ciudadanos, qualquer acordo nesse sentido entre os dois partidos de esquerda seria sobre um assalto aos altos cargos.

Olhando-se para um mapa que o El País publicou na quinta-feira: Espanha e Portugal e mais quatro países têm governos monocolores minoritários e há outros três governados por partidos que chegaram à maioria absoluta. São a exceção. O padrão é uma aliança de partidos a partilhar cargos ministeriais como acontece desde há muito na Bélgica, na Holanda e na Alemanha.

Pois bem, paremos um pouco para observar o que se passa em Berlim, onde a democrata-cristã Angela Merkel cumpre o quarto mandato como chanceler, três deles, incluindo os dois últimos, à frente de uma coligação com os sociais-democratas. A cada legislativa, o parceiro de esquerda perde apoios, e nas recentes europeias teve mesmo o pior resultado no pós-Segunda Guerra Mundial. A mesma perda de votos tem afetado outros parceiros menores de coligações por essa Europa fora, como que a relembrar o célebre abraço do urso dado por François Mitterrand aos comunistas, que depois de integrarem o governo francês junto com o PSF foram perdendo votos .

Em artigo publicado há dias no Washington Post, dois académicos fazem uma análise atualizada da teoria do abraço com o sugestivo título "Por toda a Europa, as alianças governamentais estão a prejudicar os partidos que se juntaram a elas".

Passadas à lupa 219 eleições em 28 países entre 1972 e 2017, concluem Heike Klüver, da Humboldt em Berlim, e Jae-Jae Spoon, da Universidade de Pittsburgh, que os partidos mais pequenos fazem tais compromissos para integrar o governo que deixam cair as suas promessas e acabam penalizados. Os liberais alemães, em tempos um partido-charneira, destinado a atenuar políticas à direita ou à esquerda consoante o parceiro grande fosse a CDU ou o SPD com agrado dos seus eleitores, sofreu em 2013 uma pesada derrota porque foi para o governo depois de uma campanha a prometer a reforma fiscal e não a aplicou.

Voltemos a Espanha. Curioso que seja o Podemos a insistir em integrar o governo, como se não tivesse medo do abraço do urso. Afirmam Klüver e Spoon que os pequenos e médios partidos que ficam na oposição tendem a ganhar votos enquanto os que entram para o governo perdem. Rivera, cujo Ciudadanos podia ser uma espécie de antigo FDP (moderador tanto do PSOE como do PP), prefere sonhar em ser a grande força da direita e até lá ficar nas fileiras da oposição. Diz o artigo no Washington Post que cada vez mais vai ser difícil formar governos. O tal "saque" pode não compensar.

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