"À Rússia não interessa o Leste da Ucrânia mas sim desestabilizar Kiev"

Jornalista e político, Vitali Portnikov esteve esta semana em Portugal para proferir uma conferência sobre "A Ucrânia e a Nova Ordem Mundial". Ao DN falou sobre a situação no seu país, dos problemas económicos aos desafios políticos e nas questões de segurança nacional.

Os Acordos de Minsk, assinados em 2014 pela Ucrânia, Rússia e separatistas pró-russos, para pôr fim ao conflito no Leste do seu país, está a ser cumprido?

Nunca achei que funcionassem. Um dos pontos diz que deve haver cessar-fogo, mas isto não é do interesse da Rússia por que significaria a possibilidade de estabilizar a Ucrânia. Isso não interessa a Moscovo. Os separatistas controlam uma parte importante do Leste, o que é um problema sério e contribui para a desestabilização da Ucrânia. A continuação do conflito, a perda de vidas humanas, a incerteza, tudo isto mina a ação e o apoio ao governo. A Rússia nunca vai aceitar os acordos. A única utilidade é a aplicação de sanções a Moscovo.

Mas controla o Leste da Ucrânia?

À Rússia não interessa o Leste da Ucrânia mas sim desestabilizar o poder em Kiev.

Uma aproximação à NATO e o reforço da cooperação com a UE teria alguma influência na evolução do conflito?

Sempre defendi a adesão à NATO, desde 1991. Isso nunca sucedeu e fomos atacados. Foi então que as pessoas compreenderam o que estava em jogo, a realidade. Mas era tarde. Queremos cooperar com a NATO e defender a nossa soberania. Queremos ter boas relações com a Rússia, mas não é do interesse russo ter boas relações com a Ucrânia.

E que cooperação com a NATO?

Deixe-me contar uma história: em 2014, uma pessoa próxima do Kremlin disse-me que a verdadeira guerra só começaria no dia em que o primeiro militar da NATO entrasse em território ucraniano. Por isso, compreendo as limitações da NATO e as nossas. Mas deve ser possível alguma forma de parceria. Temos de modernizar as nossas forças armadas, e vamos fazê-lo. Para que os nossos inimigos percebam que não queremos guerra com eles, mas iremos defender-nos. Não podemos permitir que nos roubem territórios.

O que pode a Ucrânia esperar da presidência de Donald Trump?

Em minha opinião, gostava que tivessem uma reação adequada aos desafios e tivessem uma perceção real sobre a influência da Rússia nas atuais crises internacionais. E aqui não estamos a falar da história da Ucrânia, mas da história da Europa. Se Trump tiver respostas adequadas a estes desafios, e acredito que ele é capaz de as ter, a Ucrânia nem necessitará que os EUA verbalizem o seu interesse pelo que se está a passar.

Muito está ainda por fazer na Ucrânia em termos de reformas e de combate, por exemplo, à corrupção e à ineficiência da economia?

Sim. Temos de lembrar que só desde há três anos é que começámos a fazer reformas a sério, a deixar para trás uma economia pós-soviética e a nossa estrutura económica coloca-nos desafios diferentes dos de outros países da Europa central e de Leste ou do Báltico. Temos uma indústria pesada e química a necessitar de profunda mudança, temos de modernizar a agricultura e, ao contrário de outros países, nunca tivemos qualquer tipo de propriedade privada da terra ou a possibilidade de ter pequenos negócios no período do socialismo. É necessário também uma mudança de mentalidades. Há ainda um outro importante problema: um número reduzido de grandes empresas controla a maior parte da nossa economia.

Como disse, é preciso mudar as mentalidades e também a legislação. Que setores devem ter prioridade?

Só sobrevive uma economia que dê lucro e que seja independente em termos energéticos. Não acredito que setores tradicionais, como a metalurgia ou a indústria do carvão, tenham grande futuro, mas penso que conseguiremos modernizar a agricultura e aumentar as exportações nesta área. É claro que temos de apostar nas novas tecnologias e na informática. Já temos empresas europeias destes setores na Ucrânia. Por outro lado, devo reconhecer que temos dificuldades com o investimento devido a três problemas: a existência de monopólios, corrupção e a guerra. Um dado a reter: estamos a conseguir preservar a nossa democracia, não nos transformámos, por exemplo, num novo Cazaquistão.

São problemas que não vão desaparecer a curto prazo.

Essa é a verdade. As pessoas estão conscientes disso. E há ainda um outro problema: muitas pessoas têm uma relação com a Ucrânia como se este não fosse o seu país, como se estivessem a viver num país estrangeiro. Felizmente, é algo que está a mudar: muitos já compreendem como é importante envolverem-se nas questões sociais, terem papel ativo e denunciarem o que está mal, como a corrupção ou o mau funcionamento da Justiça.

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