"EUA são maiores que Trump e a Rússia que Putin. Eles vão acabar por desaparecer"

A investigadora e arquivista Svetlana Savranskaya esteve em Lisboa para uma conferência no ISCTE-IUL sobre o fim da Guerra Fria. A investigadora do National Security Archive, ligado à George Washington University, não gosta da analogia entre a atualidade e a queda da URSS. E acredita que a cooperação entre Rússia e EUA é possível até porque ambos são "maiores" do que os seus líderes.

30 anos depois da queda do Muro de Berlim, basta fazer uma busca para encontrar inúmeras referências a uma nova Guerra Fria. Concorda com essa ideia?
Não gosto dessa analogia. Com certeza estamos num período de grande tensão entre os EUA e a Rússia. Mas chamar-lhe uma nova Guerra Fria não ajuda. Porque se lhe chamarmos assim estamos a focar-nos em dinâmicas que prevaleciam durante a Guerra Fria e isso impede-nos de ver dinâmicas importantes como a cibersegurança ou o nacionalismo. Acho que temos de pensar em novos conceitos. Não estou a dizer que as tensões são menores - de certa forma até acho que a nossa época é ainda mais perigosa porque é menos previsível. Estamos a afastar-nos rapidamente do sistema sólido de controlo de armas nucleares. De certa forma é ainda mais perigoso do que nos anos 80. Mas é uma era diferente. É nossa preguiça mental que nos leva a usar o conceito de Guerra Fria, de que todos nos lembramos e com o qual nos sentimos confortáveis. Mas a situação hoje é diferente. Se pensarmos na Guerra Fria, na competição, vamos pensar em termos de confrontação e não de cooperação. Não de confiança. Prepara-nos para coisas más. A forma como começamos a olhar para os outros é com suspeita. Com a ideia que eles podem fazer algo de mau contra nós. Tempos de pensar de forma mais cooperante, em tratados, em negociações. Não nos focarmos no confronto.

Não será fácil com os líderes que temos hoje.
Não será fácil. Mas os países são maiores do que os seus líderes. Os EUA são maiores do que Donald Trump e a Rússia é maior do que Vladimir Putin. Eles vão acabar por desaparecer. Com o tempo.

Durante a Guerra Fria havia duas ideologia a competir pelo domínio do mundo, hoje já não é bem assim.
Isso é muito importante. Havia duas ideologias. E a ideologia soviética era universalista, apresentava um modelo diferente do futuro. De acordo com a ideologia soviética, em determinado momento, todo o mundo iria adotar esse modelo comunista do futuro. E esses dois modelos não iriam conviver durante muito tempo porque no final seria a vitória do comunismo. Hoje a ideologia russa é sobretudo nacionalista, patriótica. É um pensamento de grande potência comum. Um pouco como o que acontecia no século XIX. A Rússia já não aspira a ser a segunda superpotência, mas é uma grande potência, que acredita que precisa de uma voz - não só na Europa, mas globalmente. Não difere muito das outras potências, com um pensamento realista, de real politik. O mesmo acontece com a China. Esta é formalmente comunista, mas não tenta apresentar o seu modelo como um modelo global. O seu objetivo é construir uma China poderosa. Está perto de ser uma superpotência económica, mas não é ainda uma superpotência militar. Não tenta construir um império global. Como a Rússia não tenta construir um império global. Vê-se como um membro dos BRICS [com o Brasil, Índia, China e África do Sul] mas não como líder de metade do mundo.

Diria que foi o declínio da ideologia comunista que levou à queda da União Soviética e obrigou os líderes soviéticos a capitular e aceitar a NATO às suas portas?
Não diria que Gorbachev alguma vez tenha aceitado que a NATO chegasse às fronteiras da Rússia. Ele acreditava que a NATO não se iria expandir e construiu a sua política europeia na ideia de que ambos os blocos se tornariam apenas organizações políticas e acabariam por se dissolver. Gorbachev nunca desistiu do socialismo como ideologia, como conjunto de crenças. Mas ele aprendeu e o seu pensamento mudou. E por volta de 1990 estava a pensar mais como um social-democrata. Imaginou uma União Soviética multipartidária. Um dos seus maiores lamentos foi não ter dividido o Partido Comunista em vários partidos, uma vez que havia no seu interior várias fações e grupos. Mais tarde, ele admitiu que devia ter deixado o Partido Comunista dividir-se em vários partidos. Ainda hoje ele garante ser um socialista empenhado.

Hoje sente-se a tensão entre a NATO e a Rússia. E se formos a países do Leste europeu, como a Polónia, poucos têm dúvidas em ver a Rússia como ameaça real. É mesmo?
Se eu vivesse no Leste da Europa, especialmente na Ucrânia, compreenderia perfeitamente que a Rússia seja vista como uma ameaça. Mas passaram 30 anos desde a maior oportunidade falhada da História e a Rússia sente-se excluída, sente-se ameaçada porque as forças da NATO estão às suas fronteiras neste momento. Se nos tentarmos pôr na pele dos russos, vamos perceber que o território russo e as suas alianças encolheram. De facto, as fronteiras da Rússia hoje são mais pequenas do que na época de Pedro, o Grande. O território russo encolheu para a dimensão que tinha no início do século XVIII. Psicologicamente tem impacto na forma como as pessoas pensam. Na Rússia a NATO é vista como uma aliança da Guerra Fria - universalmente. Não importa se acreditam que Putin é um grande líder ou se é da oposição, todos têm a perceção que a NATO pertence ao período da Guerra Fria. Houve um esforço nos anos 90 para integrar a Rússia. Chamava-se Parceria para a Paz. Foi lançado pelos EUA em 1993 e a Rússia e a Ucrânia foram os primeiros países a aceitá-lo. Mas não durou muito, infelizmente. E a principal dinâmica na NATO foi a expansionista e não a da parceria para a paz, de uma organização mais inclusiva. A maior oportunidade falhada no final da Guerra Fria foi um lar europeu comum. A Rússia não foi integrada na sociedade europeia.

Vive nos EUA, como vê o papel da América de Donald Trump na relação com a Rússia?
Dizer que estou desiludida é muito suave. Donald Trump desestabiliza totalmente a situação internacional, a relação com a Europa e a situação global. Talvez inicialmente ele tivesse um desejo inicial de negociar e melhorar as relações com a Rússia, mas membros da sua Administração, muitos deles já não estão lá, não acreditavam nos tratados de controlo de armas, nem em qualquer instituição multilateral. O Congresso, como ator forte da política americana, nunca concordaria com um acordo com a Rússia. O que vemos é o oposto. Os EUA vão-se retirando de tratado atrás de tratado. E até estão a pensar retirar do tratado Open Skies, que é maravilhoso. A Rússia já disse que mesmo que os EUA saiam, ela fica porque muitos países assinaram este tratado. Quando um avião russo do Open Skies sobrevoou Washington houve artigos na imprensa a questionar o que estava ali a fazer. Vá lá! Os EUA assinaram o tratado! E aumenta a transparência e segurança. Mas há tanta desconfiança e suspeita em relação a tudo o que é russo!

Ainda hoje?
Hoje, de novo. Nos anos 90 os russos eram vistos como parceiros pela maioria dos americanos.

Na Guerra Fria, a ameaça nuclear era a mais perigosa, hoje ainda é assim ou há outros perigos a competir?
Acho que o nuclear continua a ser a maior ameaça. O nuclear e a ameaça ambiental - ao mesmo nível. A proliferação nuclear é uma ameaça, claro, mas o uso acidental, os erros, o terrorismo nuclear também. O problema agora é que perdemos o sistema de tratados e de verificação. E nem a Rússia nem os EUA estão muito interessados num regime de verificação que existia com Reagan e Gorbachev e até antes deles. E se perdermos o último tratado, o START [Tratado de Redução de Armas Estratégicas], Então cada país pode armar-se e nem saberíamos . Claro que há as informações dos serviços secretos, mas não chega. E não poderíamos enviar inspetores para os outros países, nem sequer sobrevoá-los de avião. É perigoso. Porque vamos sempre suspeitar que o outro país está a construir armas nucleares. Não saberemos, mas iremos construir as nossas armas. Os outros vão ver isso e construir as deles também. É uma bola de neve.

Nos anos 90, houve um período em que os arquivos soviéticos estiveram abertos. Como é a situação hoje?
A situação é ótima. Não estava à espera desta resposta, não é? A maior parte das pessoas pensa que os arquivos russos estão fechados. Nos anos 90 houve um curtíssimo período de abertura total. Podia ir a qualquer arquivo e pedir qualquer documento e fazer cópias. Mas isso durou dois anos. Depois começaram a fechar tudo. Mas nos últimos três anos começaram a abrir os arquivos. O serviço é mais profissional. Tem um ótimo sistema de arquivamento. Este ano, com a reabertura dos Arquivo estatal russo de História Contemporânea, é uma mina de ouro. É fácil de usar. Abriram os documentos desde 1991. Podemos ler todas as discussões que levaram ao fim da União Soviética. É espantoso.

Há ainda muitos segredos por descobrir?
Muitos segredos! E leituras muito interessantes. Quando lemos aqueles documentos temos a sensação de que se desperdiçaram grandes oportunidades. Os soviéticos estavam dispostos a fazer tanto. Mas depois a URSS colapsou. Politicamente, economicamente. Também em termos de identidade: as pessoas perderam o seu país. Foi muito difícil para as pessoas passar por esta transformação política.

Do que viu nos arquivos, do que estudou, esses segredos que ainda ali estão guardados podem mudar a forma como vemos a Guerra Fria?
Samos tanto já sobre o fim da Guerra Fria que acho que não vamos descobrir nenhum mistério enorme e desconhecido. Mas vamos ficar a saber muito mais sobre as nuances. O período sobre o qual há mais para aprender é o último ano da União Soviética. Quando existem notas escritas à mão de todas as discussões sobre o que planeavam fazer, sobre as várias opiniões. Havia grandes divergências. Talvez aqui se encontre alguma revelação que desconhecemos. Talvez sobre a forma como a União Soviética se desmantelou. Mas no que se refere às relações entre os EUA e a URSS, já vimos tantos documentos. A Fundação Gorbachev tem documentos que revelam todos estes processos internos nas relações entre EUA e URSS e no que se refere à política externa de Gorbachev. Eles deram-nos a conhecer essa história.

Em que arquivos espera descobrir mais segredos?
Nos arquivos soviéticos. Mas eu sou suspeita! Tivemos grandes sucessos nas bibliotecas presidenciais de George H. W. Bush e Ronald Reagan. Na primeira são excelentes, desclassificam tudo rapidamente. Mas como estamos nos EUA, estamos à espera que isso aconteça. Na Rússia, quando chegamos e vemos os documentos pensamos: UAU! Não estamos à espera daquilo.

Perante a situação política tensa que se vive, diria que há mais interesse em estudar a História?
Curiosamente nos últimos dois meses, descobri que nem todos estão interessados em 1989. Para mim é o período mais interessante da História mundial. Mas muita gente acha que já foi há muito tempo, que as expectativas não se cumpriram, que não funcionou assim tão bem. Por isso diria que precisamos de mais interesse pela História.

As pessoas não estão interessadas em aprender com os erros do passado?
É importante não só para não repetirmos os erros mas também para evitar que a história seja usada para fins políticos. Na Rússia, por exemplo, a História é muito importante. E Putin até disse que é a ciência mais importante. Mas estuda-se a História com um certo ângulo e interpretação que fazem com que a Rússia e a URSS pareçam as maiores. Por isso se estudar a história da Grande Guerra Patriótica, a II Guerra Mundial, terá acesso a todos os documentos. Mas se estudar a história dos movimentos dissidentes, é menos popular. Por isso temos de estudar História para sermos nós a decidir e não deixar que a visão sobre os acontecimentos nos seja imposta pelos media.

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