A filantropia do dono da Zara causa polémica em Espanha

Entre os equipamentos doados pela Fundação Amancio Ortega destaca-se o "pepino", uma máquina que permite realizar ressonâncias magnéticas e simulações de radioterapia. Podemos criticou doações.

Amancio Ortega, fundador do grupo Inditex - proprietário de marcas como Zara, Pull & Bear, Oysho e Massimo Dutti -, iniciou em 2015 um projeto de apoio à oncologia pública em Espanha, que prevê doações no valor de 309 milhões de euros até 2021. No entanto, diz o El Mundo, metade das máquinas doadas estão bloqueadas devido a burocracias. Os problemas administrativos estão a dificultar as doações do sexto homem mais rico do mundo, que recentemente foram alvo de críticas por parte do Podemos.

Este mês, a candidata do partido à Comunidade de Madrid, Isa Serra, criticou as doações feitas por Amancio Ortega, dizendo que a saúde pública "deve financiar-se com impostos" e acusando o fundador da Inditex de não cumprir com as suas obrigações fiscais. Uma posição reforçada por outros membros do Podemos, como Pablo Inglesias, Pablo Echenique e Juanma del Olmo.

As declarações motivaram reações por parte dos diferentes partidos, nomeadamente do PP e do Ciudadanos, que aplaudiram o gesto do presidente da Fundação Amancio Ortega, responsável pelas doações.

Em causa estão cerca de 309 milhões de euros, que permitiram a aquisição de 440 equipamentos para diagnóstico e tratamento de cancro em todo o país, nomeadamente mamógrafos digitais, ressonâncias magnéticas, aceleradores lineares, braquiterapia.

Segundo o El Mundo, pouco mais de metade dos equipamentos estão atualmente em funcionamento, permitindo tratar milhares de pacientes com diferentes tipos de tumores e, desta forma, reduzir listas de espera. Contudo, adianta o jornal espanhol, a outra metade das máquinas ainda se encontra em processo de instalação, compra ou licitação.

Na Galiza, onde o programa começou em outubro de 2015, não será possível instalar e colocar em funcionamento todos os equipamentos novos até 2021.

Já na comunidade de Andaluzia, onde se iniciou em maio de 2016, apenas 51% da tecnologia está atualmente operacional, não sendo expectável que o problema seja resolvido até ao final de 2020.

Apenas em quatro comunidades - Asturias, Cantabria, La Rioja e Navarra - estão em pleno funcionamento a totalidade dos equipamentos doados pelo fundador do grupo Inditex.

Segundo fonte do Departamento de Saúde de Andaluzia, citada pelo El Mundo, "a instalação de grande parte desta tecnologia é feita de forma progressiva, seguindo os parâmetros do Conselho de Segurança Nuclear".

Alejo Miranda de Larra, diretor-geral de infraestruturas sanitárias da comunidade de Madrid, explicou que, após o compromisso com a Fundação, é necessário preparar um concurso público, o que demora aproximadamente um ano. E ainda há locais com concursos a decorrer.

Além disso, as reclamações sobre as adjudicações por via administrativa também atrasam o processo. No entanto, diz Miranda de Larra, o que demora mais tempo são as licenças do Conselho de Segurança Nuclear, sem as quais muitos dos equipamentos doados, apesar de instalados, não podem funcionar.

Por outro lado, conta o jornal espanhol, os equipamentos têm tamanhos diferentes, o que complica o processo de instalação, que por vezes requer a construção de um bunker, tempos de teste e calibração.

Apesar das criticas do Podemos, os 309 milhões de euros doados por Amancio Ortega vão permitir triplicar os equipamentos de radioterapia nos hospitais públicos de todo o país.

O "pepino" é máquina única na Europa

A fundação dirigida por Amancio Ortega comprometeu-se a doar 46.5 milhões de euros à comunidade de Madrid para a aposta em alta tecnologia na saúde, o que permitirá comprar equipamentos de última geração, entre os quais aquele que é conhecido como o "pepino" - e é a primeira destas máquinas a funcionar na Europa.

Segundo o El Mundo, trata-se de um equipamento que permite realizar ressonâncias magnéticas e simulações de radioterapia, que poderá ajudar a diagnosticar e tratar milhares de pacientes com diferentes tipos de cancro.

A máquina, que custa cerca de nove milhões de euros, será instalada no Hospital Universitário de La Paz e só deverá estar em funcionamento no primeiro semestre de 2020.

Ao permitir realizar pela primeira vez uma radioterapia personalizada, é expectável que os pacientes se curem em menos tempo, com menor toxicidade e efeitos colaterais.

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