A "destruidora do coronavírus" e as outras razões do sucesso de Kerala contra o covid-19

Estado indiano de 35 milhões de pessoas tem apenas 524 casos de coronavírus e registou quatro mortes. Ministra da Saúde local é elogiada pelo trabalho que desenvolveu na contenção da doença, que tinha aperfeiçoado com um surto de vírus Nipah há dois anos.

Em maio de 2018, as autoridades de saúde do estado indiano de Kerala detetaram um caso de infeção causado pelo vírus Nipah. Encontrado pela primeira vez na Malásia em 1998, este é transmitido pelos morcegos da fruta e os sintomas incluem febre, tosse, dor de cabeça e falta de ar. Entre humanos, transmite-se através do contacto próximo com infetados. A rápida contenção do surto, com o isolamento de casos suspeitos, resultou em apenas 19 contágios e 17 mortes, com o governo de Kerala a ser elogiado pelo seu trabalho.

O Nipah foi um teste para o novo coronavírus, já que um sistema de contenção semelhante ajudou a que este estado de 35 milhões de pessoas tenha apenas 524 casos de covid-19 e quatro mortes registados até ao momento. À frente desse trabalho está KK Shailaja, de 63 anos. A ministra da Saúde e da Justiça Social de Kerala, que já foi professora de ciências no ensino secundário, é conhecida como a "destruidora do coronavírus" e tem o estatuto de uma "estrela" local com altos índices de popularidade.

O surto de Nipah em 2018 deu origem a um filme, um thriller médico chamado "Vírus", de 2019. Numa entrevista ao The Indian Express, Shailaja contou então que a atriz que interpretou o seu papel, Revathi, parecia sempre "desesperada e preocupada" enquanto ela "não podia dar ao luxo de mostrar medo". Os peritos acreditavam que poderia haver pelo menos 200 mortes.

Shailaja não hesitou na altura em visitar a aldeia de Changaroth, onde vivia a primeira vítima do Nipah, apesar dos alertas em contrário dos seus assessores. Os aldeões, em pânico, preparavam-se para fugir em debandada, mas quando receberam a ministra perceberam que o vírus só se transmitia através do contacto com infetados e não através do ar e acabaram por ficar.

Pouco mais de um mês depois do primeiro caso, o surto foi dado como terminado a 10 de junho. Um ano depois, voltou a aparecer um novo caso, mais de 300 pessoas ficaram de imediato em isolamento e observação e não houve mais problemas, com o jovem contaminado a recuperar.

"Acho que o que funcionou para nós foi a nossa abordagem sistemática, a comunicação com o público e o trabalho de equipa", explicou Shailaja à Vogue indiana. Uma fórmula que repete agora com o coronavírus.

De professora a ministra

Shailaja Teacher [professora Shailaja], como é conhecida por causa da sua anterior profissão de professora, nasceu em 1957 numa família com ligações à política, envolvendo-se nesta área através da associação de estudantes. Militante do Partido Comunista da Índia (marxista), dedicou-se em exclusivo à política após sete anos como professora de ciências. Depois de ter passado várias vezes pelo Parlamento estadual, em 2016, tornou-se ministra da Saúde do governo de Pinarayi Vijayan.

A ministra começou a preparar-se para o coronavírus assim que leu sobre o que estava a acontecer na China, a 20 de janeiro, dando ordens para os 14 distritos do país começarem a preparar equipas de resposta rápida, refere o The Guardian, que fez um trabalho com Shailaja. Quando o primeiro caso chegou, um estudante vindo de Wuhan, a 27 de janeiro, estavam preparados para aplicar o protocolo da Organização Mundial de Saúde: testar, investigar contactos, isolar e apoiar.

Três passageiros de um avião vindo de Wuhan que tinham febre à chegada foram hospitalizados e todos os passageiros ordenados a ficar em quarentena em casa. Os casos foram sendo contidos assim, mas à medida que a doença se espalhava pelo mundo era preciso fazer mais. Os aeroportos internacionais do estado fecharam a 23 de março e dois dias depois o país entrava em confinamento obrigatório.

No pico da pandemia, 170 mil pessoas estavam sob vigilância das autoridades de saúde, com aqueles que não tinham casa de banho em casa a serem alojados às custas do governo em zonas de isolamento. Cerca de 150 mil trabalhadores migrantes de outras zonas da Índia, que ficaram presos sem poder sair de Kerala, foram alimentados com três refeições por dia.

O sucesso de Kerala também se explica pelo seu sistema de saúde descentralizado, sendo o estado com a mais alta esperança média de vida da Índia e a mais baixa taxa de mortalidade infantil: "Cada aldeia tem um centro de saúde primário e há hospitais em todos os níveis de administração, além de 10 universidades médicas", explica o jornal britânico. Desde 2016, que o governo empreendeu uma modernização do sistema, com a criação de um registo para doenças respiratórias, que ajudou muito quando chegou o coronavírus.

Além disso, quando a pandemia chegou, cada um dos 14 distritos teve que dedicar dois hospitais só para o covid-19 e cada faculdade médica a reservar 500 camas. Os testes estavam em falta, sendo feito inicialmente só a doentes com sintomas e os seus contactos mais próximos, além dos grupos mais expostos.

O estado de Kerala está já a preparar-se para a segunda vaga, que poderá chegar com o regresso de vários emigrantes dos países do Golfo (principal destino daqueles que procuram outras oportunidades) assim que as fronteiras forem reabertas. "Vai ser um grande desafio, mas estamos a preparar-nos para isso", disse Shailaka ao The Guardian, explicando que há plano A, B e C (o pior caso), que implica requisitar hotéis para albergar doentes. A aposta é também na investigação dos contactos, estando professores a ser treinados para fazer esse trabalho.

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