A ciência contra Trump. Revistas de referência quebram regras para criticar Presidente

A New England Journal of Medicine e a Scientific American são apenas alguns exemplos de publicações prestigiadas de ciência que tomaram posição contra a política sanitária de Trump no combate à covid-19.

Donald Trump conseguiu o que mais nenhum outro líder dos EUA conseguiu antes: ter as revistas de ciência mais prestigiadas do mundo pela primeira vez na história posicionadas contra um presidente. Tudo pela forma leviana como tem lidado com a covid-19.

A última revista a juntar-se a este movimento foi a famosa New England Journal of Medicine (NEJM). Nos seus 208 anos de história, a publicação sempre se manteve posicionada de uma forma independente relativamente a assuntos políticos e jamais deu o seu apoio a qualquer candidato a presidente dos EUA. Mas esta semana a regra foi quebrada com um editorial assinado pelos 34 editores, onde acusam Trump de ter convertido a pandemia de covid-19 numa autêntica tragédia para o país.

"Esta crise produziu um teste à liderança. Sem boas opções para combater o novo patogénico, os países foram forçados a fazer escolhas difíceis sobre a forma de responder. Aqui, nos EUA, os nossos líderes falharam esse teste. Pegaram numa crise e tornaram-na uma tragédia", lê-se no editorial, que não apoia diretamente um candidato, limitando-se a atacar a atual administração.

É apenas a quinta vez que os diretores publicam um editorial conjunto - em 2014 escreveram um sobre contraceção, outro sobre os padrões de cuidados e um terceiro, que era, na realidade, um obituário de um antigo diretor. Em 2019 escreveram um sobre o aborto. Este é o primeiro sobre eleições.

A NEJM uniu-se assim a outras prestigiadas revistas de ciência, que também resolveram interferir nas eleições presidenciais de novembro. A Scientific American, por exemplo, numa decisão sem precedentes, decidiu apoiar publicamente o candidato democrata Joe Biden na corrida à Casa Branca porque, defenderam, o presidente Donald Trump "rejeita" a ciência.

"Não o fazemos de ânimo leve", escreveram os editores num duro editorial anti-Trump publicado online para a edição de outubro da revista (e com um título diferente). "As provas e a ciência mostram que Donald Trump prejudicou gravemente os EUA e o seu povo - porque ele rejeita as provas e a ciência", escrevem.

O exemplo mais devastador, dizem, é a "resposta desonesta e inepta" do presidente à pandemia de covid-19, que custou quase 200.000 vidas norte-americanas desde finais de fevereiro, pouco antes de Trump anunciar uma emergência nacional.

Outras publicações, como a Nature, Science, Lancet, British Medical Journal e a JAMA, apesar de não terem ido tão longe e assumido o desconforto com a política de Trump através de editoriais, têm publicado dezenas de artigos sobre os constantes ataques de Trump à ciência.

A natura, por exemplo, publicou a 5 de outubro um extenso artigo sobre o impacto nefasto dos quatro anos de mandato de Trump, focando temas que iam desde a proibição de viagens para cientistas, aos voos tripulados no espaço, até à gestão da crise sanitária causada pela covid-19.

Este texto dizia com todas as letras que Trump não fez da ciência uma prioridade do seu seu mandato, e que cortou muito nas verbas destinadas à investigação de várias instituições, assim como sempre desvalorizou as questões ligadas ao clima.

65% dos americanos acreditam que Trump se infetou por desvalorizar covid

Uma sondagem da Reuters/Ipsos mostrou que os norte-americanos estão desiludidos com a forma como presidente dos Estados Unidos está a lidar com o novo coronavírus. Sentimento que também se reflete nas intenções de voto para as eleições de novembro: Biden segue à frente e a dez pontos percentuais de Trump.

Se Donald Trump tivesse levado a pandemia de covid-19 mais a sério provavelmente não teria sido infetado, acreditam 65% dos norte-americanos, de acordo com uma sondagem da agência Reuters/Ipsos.

À medida que a pandemia evolui, nota-se que o chefe de estado norte-americano vai reunindo cada vez menos aprovação pela forma como lida com a covid-19. No final de setembro, segundo a mesma fonte, 54% dos norte-americanos não concordavam com a gestão de Trump. Esta semana, o mesmo indicador foi reavaliado em 57%.

Apenas 34% dos inquiridos disseram acreditar nas declarações do presidente sobre o novo coronavírus. Enquanto 55% não assumem como verdadeiras as suas afirmações e 11% têm duvidas.

Mais de metade dos americanos não acredita no discurso de Trump sobre a covid-19.

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