A bomba que pôs Estaline a par da América ainda mata?

Passam esta quinta-feira 70 anos exatos sobre o primeiro teste atómico soviético. Foi realizado no Polígono de Semipalatinsk, no Cazaquistão, país independente desde 1991 que se tornou campeão da causa do desarmamento nuclear.

Guerrilha comunista na Grécia, bloqueio soviético de Berlim Ocidental ou Guerra da Coreia são alguns dos acontecimentos possíveis para datar o início da Guerra Fria, que alguns até fazem remontar à partilha da Europa em esferas de influência por Churchill e Estaline ainda o nazismo não tinha sido derrotado. Mas talvez 29 de agosto de 1949, faz agora 70 anos, seja a melhor opção, afinal nesse dia a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atómica e o monopólio da arma pelos Estados Unidos de Harry Truman desapareceu. Sim, foi o teste em Semipalatinsk, batizado de Primeiro Relâmpago, que estabeleceu o tal equilíbrio do terror, primeiro atómico e depois nuclear, que obrigou as duas superpotências a desistirem de uma Guerra Quente.

Semipalatinsk fica no Cazaquistão, nono maior país do mundo, terra onde pela primeira vez se domesticou o cavalo e hoje, com a ajuda da riqueza petrolífera, a mais bem-sucedida ex-república Soviética da Ásia Central. Ora, no final da Guerra Fria, quando a União Soviética se desagregou, tanto o Cazaquistão como a Ucrânia aceitaram desfazer-se das armas nucleares presentes nos seus territórios, herdando a Rússia todo o arsenal, ainda hoje mais de seis mil ogivas, mais ou menos o mesmo número das americanas. E os cazaques, liderados por Nursultan Nazarbaiev, tornaram-se mesmo dos mais ativos adversários da proliferação nuclear, o que se percebe porque há populações no nordeste do país, em redor de Semei e não só, que se queixam, mesmo após uma ou duas gerações, de sofrer os efeitos da radioatividade deixada por 456 testes, 116 deles atmosféricos e 340 subterrâneos. Um dos casos famosos é o pintor Karipbek Kuyukov, que nasceu sem braços, depois da exposição dos pais à radioatividade, por absoluta ignorância do que significavam os "cogumelos bonitos". Se os testes no Polígono indiretamente mataram ou ainda matam é uma terrível incógnita.

Admitamos, porém, que 74 anos depois das bombas atómicas americanas sobre Hiroxima e Nagasáqui, forçando o Japão a render-se, e 70 depois de os soviéticos se terem dotado com a arma, a bomba nuclear continua a ser cobiçada e já são nove os países a possuí-la. Reino Unido e França tornaram-se potências nucleares na década de 1950 e a China em 1964. Já Israel, embora negue a posse com escassa convicção, possui armas nucleares no mínimo desde 1986, quando o jornal britânico The Sunday Times revelou os segredos das instalações de Dimona, no deserto do Neguev, com base nas informações de Mordechai Vanunu, um cientista nuclear mais tarde capturado e levado de volta ao país pela Mossad. Índia e Paquistão, por seu lado, assumiram o estatuto nuclear em 1998, depois de um pingue-pongue de testes desafiadores uma da outra. E a Coreia do Norte fez o primeiro teste nuclear subterrâneo em 2006, confirmando ter a bomba, como reivindicava já desde o ano anterior.

Se repararmos nas datas, percebemos que quatro países se dotaram de arsenal nuclear depois da assinatura do Tratado de Não Proliferação (TNP) em 1970 e três deles até mesmo depois do fim da Guerra Fria, datemo-lo da queda do Muro a 9 de novembro de 1989. Positivo mesmo só Argentina e Brasil terem desistido dos seus programas nucleares (no tempo das ditaduras militares), assim como também o Iraque e a Líbia. O caso mais insólito é o da África do Sul, que terá obtido a bomba nuclear a dado momento mas desmantelado tudo antes de o apartheid dar lugar à democracia multirracial.

Um dos pais do programa nuclear soviético (a par de Igor Kurchatov), Andrei Sakharov, veio a tornar-se um dissidente político, ganhando o Nobel da Paz. Preocupado com o risco de uma guerra nuclear, passou por uma fase de angústia, um pouco como o cientista americano Robert Oppenheimer, a quem é atribuída a frase, inspirada nos livros clássicos do hinduísmo, "tornei-me a Morte, a destruidora de mundos". A equipa de Kurchatov e Sakharov, de soviéticos geniais, contou com a ajuda de informações recolhidas pela rede de espiões de Estaline junto do Projeto Manhattan e de início com a colaboração forçada de cientistas nazis, pois a Alemanha tentara obter essa arma para evitar a derrota na Segunda Guerra Mundial. Lavrenty Beria, homem de confiança de Estaline para obter a bomba, foi quem escolheu Semipalatinsk.

Hoje sob suspeita de ambicionar a arma nuclear, pelo menos aos olhos dos Estados Unidos, está o Irão. E por muito que os ayatollahs neguem as acusações de Donald Trump, e mantenham a confiança dos países europeus como no tempo do acordo negociado por Barack Obama, até terão algumas razões tidas como lógicas para querer ter bombas nucleares, como tentar a paridade estratégica com Israel e dissuadir golpes contra a República Islâmica.

Teriam Saddam e Kadhafi sido derrubados se tivessem chegado a alcançar o poder nuclear, é uma interrogação pertinente. Sabe-se, por exemplo, que Kim Jong-un pensa nestes dois casos e não quer correr riscos e que por muito que faça cimeiras com Trump não se vê a Coreia do Norte a abandonar a tão poderosa arma.

Se o TNP só proíbe novos membros do clube nuclear e mesmo assim é um fracasso, já o Tratado para a Proibição de Armas Nucleares (TPNW) , em fase de assinatura, parece demasiado ambicioso, mesmo que apoiado por países como o Cazaquistão, o tal do Primeiro Relâmpago. Exige que o mundo renuncie às armas nucleares, algo que, apesar do terror comprovado que causa o nuclear, não se imagina nenhuma das potências a fazer. E até alguns Estados que não têm nuclear preferem não fechar essa porta de vez, tão dissuasória é essa arma - que não se imagina usada.

Para incentivar o desarmamento nuclear, o Cazaquistão criou o Prémio Nazarbaiev para um mundo livre de armas nucleares, hoje atribuído em cerimónia em Nur Sultan ao japonês Yukiya Amano, recém-falecido diretor da Agência Internacional da Energia Atómica, e ao burquinês Lassina Zerbo, secretário executivo da Comissão para a Proibição dos Testes Nucleares. O próprio Nazarbaiev, que este ano deixou a presidência, lançou um apelo pessoal às potências nucleares para se reunirem e dialogar sobre os riscos para o mundo, recordando como ele próprio fez questão de não querer para o novo país este tipo de armas.

Sim, a bomba não voltou a ser utilizada em conflito desde agosto de 1945, mas a destruição deixada no Japão deve alertar-nos para o tremendo risco de devastação que implica as 14 mil ogivas nucleares existentes no mundo, qualquer uma delas bem mais poderosa do que a Little Boy de Hiroxima ou a Fat Man de Nagasáqui. Só a título de comparação, a chamada Tsar Bomb, que a União Soviética testou em 1961 em Nova Zembla (Ártico russo), era 3800 vezes mais poderosa do que a bomba de Hiroxima.

E se falamos de Semipalantisk, diga-se que só no deserto do Nevada os americanos fizeram entre 1951 e 1992 mais de 900 detonações (800 subterrâneas) com as consequências para as populações também a causarem viva polémica.

Vivemos, apesar de tudo o que se sabe sobre o nuclear, uma época em que perigosamente se rasgam tratados herdados, como o da interdição de mísseis de alcance intermédio INF), da tal Guerra Fria que começou há 70 anos. Renegociá-los é o mínimo que os governantes devem fazer.

(Artigo publicado na edição de 24 de agosto e atualizado depois de visita a Semipalatinsk e Nur Sultan)

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