A app do primeiro-ministro indiano que espalha fake news

Chama-se NaMo, as iniciais de Narendra Modi, e já foi descarregada 10 milhões de vezes na Índia. Investigações jornalísticas recentes mostram como, além de espalhar ódio sobre adversários políticos, a app difunde imagens manipuladas e informação falsa como propaganda

"Do total de 40.000 casos de violação na Índia, nos últimos dez anos, 39.000 tiveram um agressor muçulmano. Ainda assim, o [partido do] Congresso e Rahul Gandhi dizem que os hindus são violadores e terroristas. Que vergonha para o Congresso e para a família Gandhi!" Não deve haver uma única premissa verdadeira nestas duas frases. Nem as violações são um caso religioso - e muito menos são registadas dessa forma pelas autoridades - nem Rahul Gandhi chamou "violadores" aos hindus. Mas Sanjay Gupta, em agosto, partilhou estas mentiras num grupo do Google Plus chamado" Narendra Damodar Das Modi ".

O grupo tem mais de dois milhões de seguidores, e Gupta é o moderador. A palavra "moderador" (como tantas outras deste mundo tecnológico, como "viral") não faz justiça à atividade desempenhada por este apoiante do primeiro-ministro Modi. Outro exemplo: "92% dos muçulmanos votaram nas eleições de Karnataka, 86% dos cristãos votaram, mas apenas 58% dos hindus votaram. 42% dos hindus nem sequer votaram." Foi assim, com estas estatísticas falsas, que Gupta tentou explicar a derrota do seu partido nas eleições regionais. Com uma indução errada, baseada em puro sectarismo. A Comissão Eleitoral da Índia não tem qualquer forma de saber quem são os votantes, por religião. Mas a religião faz parte da propaganda política, e do discurso de ódio que circula online.

Estes dois exemplos, difundidos em redes sociais na Índia, tiveram ambos origem numa aplicação para telemóvel ligada ao primeiro-ministro indiano Narendra Modi. A app NaMo é a fonte destas fake news, revela uma investigação do jornalista Samarth Bansal, publicada no domingo, 27.

Depois de vários relatórios atribuírem à desinformação um papel no aumento da violência política - dezenas de linchamentos, organizados no WhatsApp, por exemplo -, agora é a própria aplicação oficial do primeiro-ministro a estar no centro de um problema sério para a democracia na Índia.

A app NaMo já tinha sido acusada de recolher dados privados, sem o consentimento dos seus utilizadores. A BBC já tinha concluído, num trabalho recente, que os apoiantes do partido do Governo - o Bharatiya Janata (BJP) - partilhavam muito mais desinformação do que os militantes da oposição, nas redes sociais.

Este é um tema muito relevante na Índia, que vai a votos em Maio. Sobretudo quando o BJP tem uma campanha sistemática de mentiras lançadas sobre os seus adversários. Uma delas é um caso óbvio de manipulação.

Rahul Gandhi, neto de Indira Gandhi, mas sem qualquer parentesco com Mahatma, o fundador da Índia moderna, aparece numa foto, nas instalações do Partido do Congresso, em Deli. Atrás de si, em vez da foto real (que está na parede), de Mahatma Gandhi, uma manipulação da imagem mostra um quadro bem diferente - o do imperador mongol Aurangzeb, que invadiu a Índia e perseguiu os hindus, no final do século XVII. A falsidade foi detetada e provada. Como o foi uma alegada investigação da BBC que provaria como o Partido do Congresso é o quarto mais corrupto do mundo. Nunca foi feita nenhuma notícia do género. Mas em ambos os casos, o partido no Governo diz, ao Quartz, que não há nenhuma premeditação neste uso de fake news. Que tudo se deve ao carácter aberto da aplicação, que possibilita aos utilizadores partilhar informação uns com os outros.

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