"Segregador". Polémico confinamento de Madrid atinge mais os bairros pobres

Epicentro da covid-19, região da capital avança com medidas para bairros e municípios mais atacados (e mais pobres). Madrid e governo central acertam gabinete conjunto para articulação de políticas.

"Temos a impressão de que estão a gozar connosco: podemos continuar a trabalhar noutras áreas que não estão confinadas, apesar do risco de aumentar as infeções, e também podemos infetar-nos no nosso bairro", denunciou Bethania Pérez, enfermeira de 31 anos, durante uma manifestação que decorreu no domingo contra as novas medidas, em vigor durante duas semanas a partir desta segunda-feira.

As restrições só visam partes de Madrid e alguns municípios vizinhos, principalmente em bairros e municípios densamente povoados e de baixos rendimentos, o que provocou indignação por esta espécie de discriminação de classes, apesar de nessas áreas se registar um surto de infeções por covid-19.

O governo regional diz que as áreas em causa têm todas registado mais casos de covid-19 por cem mil habitantes, cerca de cinco vezes a média nacional, que em si mesma é a mais alta da União Europeia.

Entre as medidas, que atingem 850 mil pessoas, ou 13% da região de Madrid, está a proibição de sair da sua área de residência exceto para ir trabalhar, para a escola ou para procurarem cuidados médicos; além disso, os parques públicos estão encerrados, cafés e restaurantes não podem servir ao balcão e têm fecho antecipado, até às 22 horas.

Os moradores podem circular livremente dentro da sua área de residência, embora as autoridades regionais recomendem que "fiquem em casa o maior tempo possível".
Da mesma forma, a entrada nessas áreas está proibida, exceto pelas mesmas razões de necessidade.

"Você está a sair do setor sul"

Na segunda-feira os moradores que passassem a pé por baixo de um viaduto que separa Vallecas de Retiro podiam ler um cartaz a simular um que existia no famoso posto militar Checkpoint Charlie entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental. "Você está a sair do setor sul", lê-se em várias línguas (apesar dos erros ortográficos).

Mas a reação não se ficou pelo humor ou pela manifestação da véspera. Um manifesto foi subscrito pelos partidos PSOE, Unidas Podemos (os partidos na coligação governamental) e Más Madrid e pelas centrais sindicais UGT e CCOO e ainda pela Federação Regional de Associações de Moradores de Madrid horas antes de a presidente da região de Madrid, responsável pelas medidas sanitárias, Isabel Díaz Ayuso (do Partido Popular, centro-direita) e o primeiro-ministro Pedro Sánchez se terem reunido.

"Os habitantes das 37 zonas confinadas sentem-se marcados, estigmatizados, falsamente acusados de irresponsabilidade nas suas relações sociais e familiares e, portanto, mostram a sua rejeição e exigem um tratamento justo e não discriminatório", afirma o texto. "Para as organizações signatárias, estas medidas restritivas são totalmente inaceitáveis porque são inúteis e por serem claramente segregadoras", concluem.

O Más Madrid, inclusive, quer explorar com as outras forças de esquerda a possbilidade de derrubar a controversa presidente de Madrid e o seu "governo fracassado" na gestão da pandemia, adianta a Europa Press.

Antes da reunião com Sánchez, Ayuso fez saber que estaria interessada em ajuda militar, mas nada disso transpareceu. Ficou, sim, estabelecido que o governo regional e o governo central criaram um grupo conjunto covid-19 e que este deve reunir-se semanalmente.

No final da reunião, Sánchez disse que o executivo nacional não vai sobrepor-se ao regional. "Estamos aqui para apoiar, para ajudar e não para tutelar nem para substituir", garantiu o socialista.

"Se é verdade que aqui há mais surtos, algo tinha de ser feito, tinham de ser tomadas medidas", comenta Gustavo Ojeda, de 56 anos, à saída da estação de metro em Puente de Vallecas, um bairro operário no sul de Madrid, ao regressar a casa depois de ter trabalhado durante a noite num armazém.

"Os factos são factos, há uma fonte de infeção deste lado de Madrid", disse Ojeda, usando uma máscara, à AFP. Em Puente de Vallecas, que nasceu de um bairro de lata, há 1241 casos por cem mil habitantes. Quando foi trabalhar nos últimos dias, Ojeda via pessoas dentro de um bar sem máscaras ou "a andar com a máscara no cotovelo, na testa".

Opinião contrária mostrou Ricardo, de 60 anos, ao El Diario. Gerente de um bar há três décadas, não esconde a raiva por ter de fechar mais cedo a casa. "Já decidi que vão ser duas semanas perdidas. Porque é que tenho de fechar às 22 horas e os que estão aqui, a poucos metros de distância, não?" Para este homem as medidas são "sectárias" e dividem os madrilenos.

Multas a partir de quarta-feira

A polícia não estava a verificar os peões, mas vários carros patrulha pararam veículos ao acaso para ver se os passageiros tinham provas de que tinham uma razão aceitável para viajar.

Um polícia disse que os agentes estavam apenas a lembrar os condutores das novas limitações, mas que vão começar a multar os infratores a partir de quarta-feira. Andres Vieco, um desempregado de 37 anos, foi parado pelo agente quando estava a caminho de casa depois de ter tomado conta de um amigo e foi-lhe dito que não seria autorizado a passar no futuro. "Veremos como podemos contornar isto", disse Vieco.

Cerca de 200 polícias municipais serão destacados para cerca de 60 postos de controlo deste tipo em Madrid, para fazer cumprir as restrições do vírus.

Nas ruas laterais adjacentes, várias pessoas questionaram porque é que as restrições não foram postas em prática em toda a região de Madrid, que alberga 6,6 milhões de pessoas e é o epicentro do surto do vírus em Espanha.

Alejandro Campos, um agente de viagens de 30 anos que trabalha a partir de casa desde março, disse que será difícil impedir as pessoas de viajar entre as diferentes áreas. "Não se pode fechar uma parte de um bairro e não outra, uma rua sim e uma rua não. Portanto, ou se fecha tudo, o que será catastrófico, ou não se fecha nada", disse.

Muitas pessoas nos bairros do sul de Madrid, como Puente de Vallecas, não podem fazer teletrabalho. "Infelizmente as pessoas que vão trabalhar em restaurantes e bares são daqui, as pessoas terão de se deslocar a toda a hora, muitas pessoas aqui são trabalhadores da hotelaria", disse.

O Ministério da Saúde espanhol registou 31 428 novos casos de coronavírus desde sexta-feira, dos quais 2957 ocorreram no último dia. A região com mais casos continua a ser Madrid: um total de 11 991 durante o fim de semana, dos quais 794 foram identificados entre ontem e hoje. No total, desde o início da pandemia, foram contaminadas 671 468 pessoas.

O número total de mortes devido a covid-19 é de 30 663. Destes, 311 morreram na última semana.

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