Um pontapé para a história

Nuno Vinha

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

Publicado a

É meio difícil explicar aos nossos adolescentes que houve um tempo em que era raro a presença de Portugal num Mundial de Futebol. Um tempo antes de Cristiano Ronaldo. Um tempo antes de Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Vítor Baía, todos craques.

Um tempo antes da quantidade e consistência de grandes gerações de futebolistas dos anos 90, que saíam como pão quente das escolas de formação dos clubes e depois brilhavam nas seleções sub-20 e sub-21. Um tempo antes do profissionalismo que a FPF começou a adotar com o selecionador Carlos Queiroz e prosseguiu com outros.

Um tempo em que vivíamos "agarrados à máquina de calcular", um eufemismo bem à portuguesa para dizer que, muitas vezes, colocavamo-nos na dependência dos resultados das outras seleções para saber se iríamos ao grande palco. Na esmagadora maioria dos casos não corria bem.

Quando a FPF celebrou os seus 80 anos, a sua seleção principal apenas se tinha qualificado para dois Mundiais: o de 1966, em Inglaterra, quando um extra-terrestre chamado Eusébio deslumbrou o Mundo, e de 1986, no México.

O México-86 foi o primeiro Mundial em pude puxar por Portugal, o primeiro em que tive a plena consciência da magnitude daquela competição. Foi também a primeira vez que a seleção de Portugal me desiludiu como nunca depois. Mas já lá iremos.

O caminho até esse Mundial foi uma repetição de outras campanhas. Portugal perdeu 3-0 em Alvalade com a Suécia, perdeu com a Checoslováquia (sim, era assim o nome do país) em Praga e sofreu a derrota (por essa altura, habitual) com a República Federal da Alemanha, no Estádio Nacional. Numa das últimas jornadas, jogávamos com Malta e só um golo nos últimos minutos nos deu a vitória, por 3-2, na Luz. Foi um alívio, mas não era o golo do apuramento. Apenas o que nos permitia ir buscar à gaveta a máquina de calcular e sonhar com um milagre. Ou melhor, dois.

Primeiro, a Suécia tinha de perder com a Checoslováquia, em Praga. Nesse jogo, a Suécia até marcou primeiro, logo aos sete minutos. Péssimo para as aspirações de Portugal. Mas os checos deram a volta ao minuto 78, com um golo de Vizek. Milagre um. Só faltava o mais difícil: ganhar à Alemanha em Estugarda.

Quando a seleção da República Federal da Alemanha entrou em campo naquele 16 de outubro de 1985, nunca tinha perdido em casa um jogo de qualificação. Nem sonhava que tal pudesse acontecer. Só que aos 55 minutos, Carlos Manuel, homem da minha terra, recuperou a bola naquela terra disputada a seguir à grande área de Portugal e foi por ali fora, gingão e inebriado com todo o espaço que lhe estavam a dar. Galgou vinte, trinta metros. Louco pelo Neckerstadium afora.

Foi Meier, médio do Werder Bremen, quem finalmente teve uma intuição daquilo que o destino podia estar a conspirar. Que mesmo desengonçado, mesmo com quatro adversários pela frente, aquele doido de bigode e as quinas ao peito poderia ser – de alguma forma, por algum condão ou maldição – um perigo para a baliza alemã. Ofereceu o que pôde, metendo um pé à bola. Mecânico. Eficiente. Germânico.

E Carlos Manuel, um homem da Moita, médio do Benfica e da seleção, português da borda d´água, ofereceu-lhe o que tinha: uma finta à escovinha com a parte de fora do pé direito, cortanto para dentro, que deixou Meier a dois metros. E depois, mesmo dali, mesmo entre os defesas, mesmo do meio da rua, com o coração na relva e a cabeça na Copa do Mundo, disparou uma "bomba" que só parou no canto direito da baliza de Schumacher. Aquele golo – quem o viu, viu-o na RTP2, porque na altura só havia esta e a 1 – deve ter arrancado um grito às entranhas de todos os portugueses. Vivos, defuntos e vindouros. Uma nação que adora futebol a expurgar do peito as agruras daqueles anos: a pobreza, o resgate do FMI de 83, os lesados da Dona Branca, o terrorismo das FP-25 ou a tragédia de Moimente-Alcafache, o maior acidente ferroviário de sempre em Portugal que, um mês antes do jogo em Estugarda, matou mais de 150 pessoas.

O "Milagre de Estugarda" pôs Portugal no México. A rebelião e greve dos jogadores da seleção em Saltillo, em plena competição e após uma prometedora vitória contra a Inglaterra, afastou-nos do Mundial. A rebelião (e as derrotas frente à Polónia e Marrocos) foi também um enorme pontapé na esperança coletiva dos portugueses, que só queriam a repetição, em melhor, de 1966. Mas sem aquele grito de revolta face às condições de trabalho, face à falta de profissionalismo, sem aquele apelo ao foco no talento (que são os jogadores e não os dirigentes da FPF), talvez não se tivesse aberto o caminho que nos deu os craques, mas sobretudo a injeção consistência, que tornaram hábito (e quase direito adquirido) a presença de Portugal na Copa.

Diário de Notícias
www.dn.pt