Troco 69 jogos do Mundial 2026 por um do Chile 62

A FIFA continua a engordar a galinha dos golos de ouro. Num prémio para a mediocridade, são agora 48 as seleções presentes no Mundial 2026. Se se trocassem jogos como cromos, dava sem pestanejar dois terços destes por um Brasil-Checoslováquia ou um Chile-Jugoslávia.
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Quem escolheu a seleção do Chile para o jogo de preparação da equipa portuguesa de futebol, neste sábado, acertou em cheio: equivalem-se no historial no que respeita aos campeonatos do mundo. Ao picar o ponto no Canadá-EUA-México 2026, Portugal atinge as nove participações, tantas quanto as da congénere chilena, arredada deste torneio desde 2014. Mas há mais: exibem ambas, orgulhosas, como exceções à coleção de campanhas dececionantes, um terceiro lugar: o de Eusébio e companhia em 1966, e o de La Roja quatro anos antes.

Nestas provas participavam 16 seleções. Duas décadas depois, no primeiro mundial do qual guardo memórias – e no qual me tornei adepto do Brasil de Sócrates, Cerezo, Zico ou Falcão –, a Espanha recebeu 24 equipas. Em 1998, em França, onde o único português a pisar os relvados foi um árbitro, a prova foi insuflada com uma dúzia de seleções. Chegamos a 2026 com um campeonato faraónico dividido por três países, aos quais se juntam mais 45, com potências como o Haiti, Curaçao ou o Usbequistão. Uma abertura a outras latitudes que, ao contrário dos Jogos Olímpicos, onde os atletas com marcas mais modestas competem entre si nas pré-eliminatórias por uma vaga nas eliminatórias, confere o direito de participar diretamente.

Além de discutível do ponto de vista qualitativo, mas decerto compensador do ponto de vista económico, pelo menos para a FIFA, o argumento da inclusão e da representatividade não colhe: cerca de 74% da população mundial não vai ver a sua bandeira no Mundial. Fica a sugestão para resolver o problema de vez: abolir a fase de qualificação e juntar todas as seleções, inclusive de territórios sem reconhecimento, como o Saara Ocidental, numa prova de três meses, a partir de 2030 (Espanha e Marrocos com Portugal a reboque). Que tal?

Voltando atrás, a ligação de Portugal ao Chile nos mundiais dá-se, ainda que de raspão, pelo facto de ter sido em Lisboa, em 1956, o local da escolha da FIFA para a atribuição do país organizador da prova de 1962. Tanto quanto o terceiro lugar alcançado, os chilenos guardam na memória o papel essencial do dirigente Carlos Dittborn para a realização do mundial no seu país. Contam as crónicas que, um dia depois de o presidente da Federação Argentina de Futebol Raúl Héctor Colombo ter dito que o seu país estava pronto para realizar o torneio “amanhã”, porque dispunham de tudo, Dittborn optou pelo inverso. No discurso em que convenceu os delegados, reconheceu que o seu país estava no ponto de partida, mas que estava preparado para o desafio: “Porque não temos nada, queremos fazer tudo.”

Dois anos antes do Mundial, o Chile viveu dias de destruição e desespero com o maior sismo alguma vez registado (terramoto de Valdivia). Mas as palavras de Dittborn serviram de inspiração, aliadas a uma prova muito menos complexa do que as dos dias de hoje (32 jogos em quatro cidades, durante 19 dias, versus 104 partidas em 16 cidades, durante 39 dias). Os relatos dão conta de um torneio ao qual não faltaram emoções, a começar pela “batalha de Santiago” entre jogadores chilenos e italianos, com a polícia chamada a intervir em quatro ocasiões junto dos atletas.

O Brasil tornou-se bicampeão, apesar da lesão impeditiva de Pelé depois do primeiro jogo, mas ajudado em parte pelo perdão concedido a Garrincha, que havia sido expulso na meia-final contra a equipa anfitriã e pôde participar no jogo decisivo contra a Checoslováquia (graças a um conjunto de manobras de pressão política e do “desaparecimento” do fiscal de linha que instruíra o árbitro a expulsar o craque). Outro país entretanto dissolvido, a Jugoslávia, perdeu o terceiro posto para o Chile, onde brilhou uma das suas maiores lendas, Leonel Sánchez.

A nada disto assistiu Dittborn, que morreu um mês antes da competição, de ataque cardíaco. E eu, que temo pela saúde de quem se predisponha a expor à overdose de jogos via TV, trocaria de bom grado dois terços deste destempero por um só do mundial de 1962. De preferência, com os dribles de Garrincha. O homem que foi tão ou mais admirado pelos brasileiros do que Pelé não se preocupava com adversários nem táticas, conta Ruy Castro na biografia Estrela Solitária. “O futebol era uma coisa muito simples, de onze contra onze, as camisas pouco lhe importavam.”

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