Conheço alguns adeptos de futebol que seguem uma máxima: apoiam o clube de coração, mas são incapazes de ter “sentimentos” pela seleção nacional.As razões para tal só a eles dizem respeito, mas são pessoas que periodicamente ficam na bancada, ou mesmo afastadas da televisão, como vai acontecer em breve quando se iniciar o Campeonato do Mundo de futebol, este ano organizado pelos EUA, México e Canadá.O seu amor ao chamado, em Portugal, desporto-rei só volta lá para julho quando a preparação das equipas para a época 2026-27 começar a dar os primeiros passos. Até lá irão espreitar alguns jogos do Mundial, vão criticar escolhas e resultados e, quem sabe, dedicar-se a seguir as provas de ciclismo, fórmula 1, provas de motociclismo, ténis etc. Tudo competições muito interessantes e onde alguns atletas portugueses estão no topo.Mas, o que esses adeptos de futebol não percebem – ou não querem perceber – é que há valores muito maiores que a táctica do treinador nas presenças de uma seleção como a de futebol sénior numa competição de alto nível.Talvez não percebam porque nunca sentiram o orgulho dos emigrantes que andam quilómetros para ver por breves instantes os jogadores a entrar no hotel ou ao longe num treino.Como também não viram o brilho nos olhos de muitos portugueses que saíram do país há muito e que esperam horas por um autógrafo ou apenas por um sorriso dos “seus” craques.Sentimentos que são diferentes daqueles que estamos habituados a ver nos estádios em Portugal onde joga a seleção. Também estão cheios, não falta apoio aos jogadores, mas não é a mesma coisa.Comprovei isso no Mundial de 2006, na Alemanha. Era a quarta vez, segunda consecutiva que a principal equipa de futebol nacional estava na maior competição entre seleções.A equipa liderada por Luiz Felipe Scolari – o treinador brasileiro que em 2004 tinha conseguido convencer os portugueses a colocar uma bandeira nacional em todas as janelas -, tinha a sede em Marienfeld e no dia em que ali chegou foi recebida por uma multidão de portugueses que fizeram uma guarda de honra ao autocarro.Durante todos os dias havia portugueses, e alguns alemães, a passar horas junto ao hotel (que já tinha sido usado pelo FC Porto para estágios) com a esperança de ver os jogadores. Os treinos abertos à população que se realizaram no estádio da cidade de Gutersloh tinham as bancadas repletas com muita mais assistência que alguns jogos do principal campeonato nacional. E nos desafios a sério nunca faltou apoio nos recintos por onde a equipa passou. No final, a seleção perdeu na meia-final com a França (1-0) e na atribuição do terceiro lugar foi derrotada pela formação da casa (3-1). Mesmo assim a segunda melhor classificação depois do terceiro lugar no mundial de 1966. O que mereceu uma receção apoteótica em Lisboa.Já agora, para quem não se recorda, além de um Cristiano Ronaldo já em destaque, a prova ficou marcada pela despedida de Luís Figo e de Pauleta da seleção.Tudo isto presenciado sempre por milhares de portugueses que surgiam equipados a rigor por todo o lado.Este apoio dos emigrantes que se unem em torno da seleção tem de ser sempre destacado, pois para muitos esta presença em fases finais de competições europeias ou mundiais são, também, momentos de afirmação perante o país que os recebe.Por isso, certamente que este verão quando Portugal jogar em Miami ou em Houston - zonas com muita presença de lusodescendentes - as bancadas estarão bem preenchidas com equipamentos onde as Quinas estarão visíveis.Cabe à seleção fazer com que se orgulhem de dar esse apoio.