E o vencedor é...?

Susana Salvador

Licenciada em Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa, é jornalista da secção de Internacional há quase duas décadas. Mas continua a aprender coisas novas todos os dias.

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O leitor ou a leitora não se preocupe que não há aqui spoilers sobre que equipa vai ganhar o Mundial de Futebol – não fui à bruxa, a um vidente ou a um oráculo, nem recorri a um polvo (esta é só para quem se lembra do Paul no Mundial de 2010). O vencedor de que falo é um jogador que, ainda antes de entrar em campo, já estava a ganhar. Falo de Tim Payne.

Aqueles leitores que resolveram dar um descanso às redes sociais podem perguntar: quem? Tim Payne é um defesa neozelandês dos Wellington Phoenix, de 32 anos, e se nunca ouviu falar dele, não é o único ou a única. Antes do Mundial, se não fosse da Nova Zelândia, a probabilidade de não o conhecer era muito grande. Foi aliás isso que o tornou famoso ou, melhor, viral.

O criador de conteúdos argentino Valen Scarsini, mais conhecido como El Scarso, resolveu encontrar o jogador com menos seguidores nas redes sociais e fazer o que os influencers fazem: influenciar. Encontrou Tim Payne, que nem cinco mil pessoas seguiam no Instagram, e convidou os seus (na altura menos de 500 mil) seguidores a apoiá-lo.

"Faltam poucos dias para o início do Mundial e estamos todos ansiosos por apoiar a nossa seleção, mas e se houvesse um jogador que nos unisse a todos, um jogador de futebol que todos apoiássemos, independentemente da sua nacionalidade?", perguntou num dos seus vídeos.

(Há uns meses El Scarso também já tinha posto no mapa o Clube Sportivo de Cascais, da segunda divisão distrital de Lisboa, quando viu que um dos seus jogos estava a ser seguido online por apenas oito pessoas. Mas isso é outra história, voltemos a Tim Payne.)

O resultado do vídeo de Scarsini: Tim Payne tem hoje 5,7 milhões de seguidores, mais do que a população da Nova Zelândia (5,3 milhões). E até mais do que o próprio influencer, que é hoje seguido por 1,2 milhões de pessoas.

O argentino já foi conhecer pessoalmente o neozelandês e vai assistir aos jogos da Nova Zelândia (o primeiro na madrugada de dia 16, contra o Irão) e o próximo desafio é fazer que a McDonald's faça um copo especial com Tim Payne. Há lojas, na Argentina, que oferecem descontos caso lhes seja mostrado o cromo da Panini do neozelandês.

Tim Payne viralizou, como se diz na gíria das redes sociais, e está a aproveitar. Contou como estava a aprender espanhol com o Duolingo (espero que já esteja a fazer acordos publicitários) porque a namorada fala espanhol e querem que o filho seja bilingue, mas tinha continuado para poder "falar" com os novos fãs.

A namorada, Michelle Peters, também gravou um vídeo a cantar a música entretanto criada de apoio ao jogador – onde é descrito como o sucessor de Di Maria e diz, no refrão, "No Payne, no gain", isto é, "sem dor (pain, em inglês) - não há ganhos".

Pode o leitor ou a leitora perguntar: mas o que é que isto tem a ver com futebol? Nada e tudo. Porque, para mim, a essência do futebol é a capacidade de unir as pessoas – seja as que estão do outro lado do mundo ou as que se sentam ao nosso lado no estádio.

A mim marcou-me a primeira vez que entrei num estádio de futebol, o velhinho Estádio da Luz, que estava a abarrotar a poucos minutos do início do Portugal-Brasil na final do Mundial de Sub-20, em 1991. Eu tinha dez anos.

O estádio tinha capacidade para 120 mil pessoas, mas no tempo em que não havia bancos, estavam nesse jogo 127 mil pessoas. Entrei deslumbrada com toda aquela gente, saí aflita para ir à casa de banho aos 90 minutos, porque o meu tio nos tinha obrigado (a mim e ao meu primo) a beber quase uma garrafa de litro e meio de água porque não podíamos entrar com ela. E acabámos por não voltar a entrar e não ver o final do jogo. Resultado: estávamos a entrar em casa quando o resto da família festejava o facto de Portugal ter ganho nos penálties...

Esse é o futebol de que gosto, aquele que une as famílias e une desconhecidos, num grito de alegria ou numa lágrima de derrota. Não aquele que está cada vez mais pensado para fazer dinheiro.

Seja as bancadas vazias porque os bilhetes mais baratos custavam mais de cem dólares e depois entrou em jogo o sistema de preços dinâmicos.

Seja as "pausas para hidratação" aos 22 minutos de cada parte – leia-se, intervalo para publicidade numa América onde, um dos momentos altos da final de futebol americano, são os anúncios.

Se a América não consegue aguentar 45 minutos sem ver um anúncio, o problema é lá deles. Mas que a FIFA não se lembre de alargar esta regra a todas as competições. Podem estragar o soccer, mas deixem o futebol em paz.

E viva Tim Payne!

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