O Mundial, muito mais do que futebol

Carla Alves Ribeiro

Depois do curso de Ciências da Comunicação na FCSH/Nova, estagiei no Público, ainda quando Vicente Jorge Silva irrompia pela redação com a sua voz alta e apressada. Foi o início de um percurso no jornalismo económico que passaria pelo Semanário Económico, revista Visão, Económico TV/ Diário Económico e Dinheiro Vivo/DN. Agora estou na Cultura do DN, onde sinto que deveria sempre ter estado.

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Não sou do Sporting, do Benfica ou do Porto, nem de outro qualquer clube nacional ou internacional. Não acompanho futebol, seja na televisão ou ao vivo (embora já tenha assistido a partidas em estádios, apenas para confirmar que sou mesmo peixe fora de água). Não tenho um pingo de paixão clubística, e até teria dificuldade em conceber que alguém morra de amores por um emblema, não tivesse eu em casa uma pessoa assim. E, no entanto, quando é a Seleção Nacional em campo, algo em mim desperta.

Imagens cerebrais do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde da Universidade de Coimbra, de 2017, vieram demonstrar que quando adeptos de futebol veem jogos intensos do seu clube ativam circuitos cerebrais associados a emoções e recompensa semelhantes aos do amor romântico. Mais do que isso, ativam também a amígdala, uma parte do cérebro que não está envolvida na relação amorosa, sugerindo que a paixão por um clube até pode ser mais forte do que o amor por uma pessoa.

Também há estudos científicos que concluíram que a exposição a símbolos patrióticos ativa o córtex temporal médio direito, ligado a mecanismos de pertença social e memórias coletivas (sendo que patriotismo e nacionalismo são considerados fenómenos distintos, com este último a envolver uma rede cerebral mais ampla).

Assim se explica a emoção quando o hino nacional ecoa pelo estádio e os jogadores vestidos com as cores da bandeira pisam o relvado para defenderem Portugal. Nos momentos mais difíceis de uma partida decisiva fecho os olhos, saio da sala, não quero ver. Entendo, podia ser um clube, é Portugal.

Durante o Mundial, o país fica em pausa. Este ano serão 39 dias de competição e, com Portugal ainda em jogo, sabe a férias, a feriado, a Carnaval, ninguém leva a mal (e até há menos trânsito). Acaba-se o trabalho mais cedo, compram-se cervejas e tremoços e convidam-se os amigos lá para casa. O clima é de festa, mas sofrer, sabemos, faz parte.

Tenho guardadas emoções fortes e imagens inesquecíveis de uma das grandes conquistas da Equipa das Quinas. Na partida final do Euro 2016, no pequeno ecrã, Cristiano Ronaldo, em grande plano, sentado no chão, lesionado, com traças a esvoaçar em redor do seu rosto derrotado. Seriam um bom prenúncio, as borboletas noturnas. Éder no prolongamento cheio de confiança a levar a bola até à baliza de França e a euforia total após o tiro certeiro que concluiu a batalha.

Diz o estudo da Universidade de Coimbra que os circuitos da memória emocional são mais sensíveis a experiências positivas do que negativas, e que as derrotas perante equipas adversárias tendem a ser suprimidas. No Mundial do Catar, em 2022, ficou apenas a desilusão após o apito final da partida contra Marrocos. O desalento pelo fim da caminhada, apesar de tanto talento português reconhecido internacionalmente. Uma seleção cheia de potencial, mas que nunca venceu um Mundial de Futebol.

Chegámos às meias finais em 1966 e 2006, espero que em 2026 consigamos ir mais longe. Gostava que fosse desta, e que Ronaldo adicionasse, aos 41 anos, o título que falta na sua carreira de ouro. Que o capitão se despeça em lágrimas, desta vez de alegria.

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