No outro dia, num evento absolutamente aleatório, começou a tocar a música La Copa de la Vida, hino oficial do Campeonato do Mundo de 1998, interpretado por Ricky Martin. Foram precisos apenas 10 segundos para que a energia da pista de dança mudasse. Não porque a composição seja magnífica – que até é, no seu género – mas porque marcou toda uma geração e um momento particular de que nos lembramos todos com carinho.E, naturalmente, por questões científicas: sabia que a música ativa o sistema límbico (emoções), o hipocampo (memória) e os circuitos de recompensa (dopamina)? É por isso que quando ouvimos uma melodia, a combinação dessas três ativações faz com que experiências vividas ao som de uma canção sejam gravadas com mais intensidade e, anos depois, possam ser reativadas quase instantaneamente. Foi o que aconteceu ao som de Ricky Martin (Go, go, ¡gol! Alé, alé, alé /¡Arriba, va! El mundo esta de pie /Go, go, ¡gol! Alé, alé, alé!).De repente, estávamos todos na década de 1990, a ver Fernando Couto, Luís Figo, Vítor Baía, Costinha, Nuno Gomes ou Capucho falhar o apuramento para o Mundial sob o comando de Artur Jorge. Mas como somos povo dado a emoções, alegrámo-nos com os outros e a música serviu para nos animar durante a competição em que a França se sagrou campeã, depois de ter derrotado o Brasil numa final que fica na memória de todos – para quem, como eu, tem um pedaço de coração em terras de Vera Cruz, foi uma final bastante agridoce. Mas enfim, os franceses adoram dar-nos desgostos, não é verdade?Já que não tínhamos seleção portuguesa a jogar, pudemos dedicar-nos a algo que fazemos bem: aproveitar para sofrer com os jogos dos outros, ao som do ritmo latino de La Copa dela Vida, que decorámos e interpretámos no nosso melhor portunhol.O que aconteceu também nos anos seguintes, porque o Mundial de Futebol, às tantas, começou também a ser sinónimo de novos hits musicais a serem lançados para o mundo. É claro que, nos últimos anos – na verdade, depois de 1998, precisamente – o facto de se escolherem artistas consagrados mundialmente para interpretar os hinos oficiais da competição, tem ajudado. Depois de Ricky Martin foi a vez de Anastacia abanar o globo com a inesquecível ‘Boom’, e Herbert Grönemeyer foi o intérprete de ‘Celebrate the Day’, no Mundial da Alemanha. Mas os alemães nunca foram conhecidos por nos dar temas inesquecíveis, não é mesmo? (Vou usar o termo aborrecido, porque na verdade era mesmo isso que era esta música).Só que, depois desse erro de casting, chegou Shakira, com a famosa Waka Waka, para o Mundial da África do Sul e a fasquia voltou a subir escandalosamente. A música tornou-se numa das mais ouvidas da história do Youtube e ainda hoje é difícil ficarmos parados quando a ouvimos tocar. E sempre que a ouvimos, de que é que nos lembramos? De futebol, claro.O tema tocado pela artista colombiana tornou-se, aliás, tão popular, que quando Pitbull apresentou a sua “We are One” para o Mundial de 2014, no Brasil, nem as participações de Jennifer Lopez e Claudia Leitte fez com que as críticas fossem mais simpáticas. Durante os primeiros dias, tudo o que se disse e escreveu sobre o hino desse campeonato era mau. Os sentimentos não acalmaram depois de a Alemanha ter goleado o Brasil por 7-1 (que tragédia!), mas foi música que tomou conta das ruas após a final, em que todos os brasileiros eram alemães de nascença.A seleção orientada por Joachim Löw foi a estrela de um campeonato onde nenhuma vitória foi óbvia. Claro que nós, portugueses, também éramos alemães naquela final, tendo em conta a derrota sofrida por 4-0 em Salvador – se é para perder, que tenha sido com o campeão do mundo.E assim que, aos 113 minutos (finalmente), a Alemanha marcou o golo da vitória frente à seleção de Lionel Messi, no icónico Maracanã, foi bonito ver o que aconteceu no Rio de Janeiro: as janelas abriram-se de par em par, e como que combinado entre todos os cariocas, ligaram-se as colunas no volume máximo para deixar ecoar a voz de Madonna pelas ruas da cidade. “Don’t cry for me Argentina…” foi o tema escolhido para uma noite que acabaria em festa, com adeptos canarinhos e argentinos a celebrar com chope fresquinho e muita caipirinha. A banda sonora de Evita deu lugar a samba e a axé e as celebrações continuaram, com as emoções ao rubro.O Live it Up, interpretado por Nicky Jam, Will Smith e Era Istrefi para o Mundial de 2018, na Rússia, foi mais bem recebido que o antecessor, mas ainda assim, a emoção de Waka Waka não se repetiu. O Qatar optou por um tema instrumental – afinal, não precisavam de mais coisas a correr mal, depois de ativistas de Direitos Humanos do mundo inteiro estarem de olho no caos que foi a organização – e, este ano, Shakira voltou.Ainda não é certo que o tema se torne não famoso quanto La Copa de la Vida ou Waka Waka, porque a música também nunca voltou a ser o que era na época pré-streaming. O que é certo é que não é possível falar de Mundial sem falar de música, até porque os sistemas de recompensa que são ativados no nosso cérebro são os mesmos. E é isso que me encanta sempre nestes Campeonatos do Mundo. É que, não raras vezes, o futebol é mesmo o que menos importa. Haja festa, música, emoção e a certeza de que, durante aqueles períodos de pelo menos 90’, estamos todos juntos num propósito comum: ver quem é o melhor em campo. (Se no final deste texto não colocar a playlist das músicas do Mundial para ouvir, está a perder grande parte da emoção destes dias!)