A linha invisível do jogo

Raquel Baptista Lopes

Coordenadora Digital do Diário de Notícias

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Diz-se que este é o Mundial do gigantismo. Quarenta e oito seleções, três países de dimensão continental diferentes, e milhares de quilómetros de fusos horários que se cruzam entre o betão futurista de Atlanta e a atmosfera mística do Azteca. Num tabuleiro gigante, por apenas trinta e nove dias, o futebol parece maior que o ser humano. Passa a ser uma engrenagem geopolítica e financeira no seu melhor, a tentar engolir o planeta.

Mas há sempre um custo neste gigantismo. O excesso deixa pegadas que a história repete, campeonato após campeonato, entre a vaidade, o megalomanismo e o desperdício. Não precisamos ir longe na memória. Lembram‑se do investimento milionário nos estádios de Portugal para o Euro 2004? Aqueles monumentos de betão que o tempo, em alguns casos, condenou ao silêncio e ao abandono? Esta riqueza que o futebol exibe vive, está quase sempre, de costas voltadas para a realidade local. 

Nada de novo.

Só que o futebol é mais do que as suas infraestruturas ou a sua própria História. É um fenómeno vivo. Com o passar das décadas, o futebol deixou de ser um lugar fechado, cinzento e exclusivo, para evoluir para algo universal e sem género. O futebol e a paixão já não têm um único herdeiro. O futebol e a paixão pertencem a todos, de modo fluido, espelhando um mundo que também ele teve que mudar.

É por isso, por mais que se tente expandir a escala financeira da coisa, o jogo insiste em ficar na nossa vida mais íntima. No final do dia, nenhum adepto quer saber dos relatórios da FIFA ou das rotas aéreas entre Seattle e a Cidade do México. O tema mede-se pelo tempo. Pela nossa própria linha do tempo.

Os Mundiais são como balizas de tempo da nossa vida. São como marcadores de página que nos lembram exatamente onde estávamos, que idade tínhamos e quem éramos quando se ouviu o apito de começo de determinado jogo. Quando nos lembramos de um golo, lembramo-nos, inevitavelmente, da sala onde o vimos. De quem ainda se sentava connosco à mesa e que já partiu. Ou de quem ainda nem tinha nascido. Existe um fardamento emocional que se renova a cada quatro anos. Queira a FIFA ou não.

Enquanto o mapa se estende por uma América do Norte enorme, o nosso olhar continua a ser micro. As distâncias podem ser administrativas, frias e corporativas, mas a nossa memória procura o mesmo de sempre. O pretexto sagrado para parar o relógio da rotina.

Trata-se de criar laços instantâneos com alguém desconhecido, e que, possivelmente, jamais iremos voltar a ver. Apenas por estarmos sentados no mesmo quiosque, de olhos colados ao ecrã que transmite o jogo do nosso clube de coração. Da nossa pátria. É essa linha que une os cidadãos de um país num único momento. O orgulho de ver a nossa equipa ganhar, não importa o quão grande ou pequeno seja o nosso país, quantas derrotas ou vitórias tivemos, nem mesmo quanto dinheiro foi enterrado nos estádios.

No fundo, o que se destaca é a nossa identidade, é sabermos exatamente quem somos. E com quem queremos partilhar o tempo que passa.

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