Jornalistas mostram as garras ao Facebook

Associações internacionais fazem carta a Mark Zuckerberg para que deixe de armar-se em "editor". Há cada vez mais vozes críticas a ouvir-se e a plataforma está a perder poder perante o público

A guerra entre o Facebook e o jornalismo tem mais um episódio - sete organizações de media representando mais de 20 mil editores e profissionais em mais de 120 países escreveram uma carta aberta a Mark Zuckerberg protestando contra a nova política de publicidade que identifica a promoção de notícias como conteúdo político.

Desde janeiro que, por causa das mudanças nos algoritmos que favorecem a partilha individual de artigos em detrimento das organizações informativas, as empresas de media passaram a usar o Facebook como instrumento de marketing, promovendo artigos com interesse editorial e pagando a sua difusão.

Pela primeira vez em vários anos, o consumo de informação séria através do facebook diminuiu

Entre as mais ativas nesta prática está o jornal americano The New York Times, que foi também um dos primeiros a ser "apanhado" pela nova forma de cancelar esses anúncios - política que a plataforma de Zuckerberg usa para se defender dos ataques políticos de que foi alvo, com as polémicas da intervenção russa nas eleições americanas e no Brexit.

"Desta forma o Facebook está a apoiar os inimigos do jornalismo de qualidade, ainda que de forma não intencional", disse, furioso, Mark Thompson, chief executive do The New York Times Company, numa conferência no Tow Center for Digital Journalism na Universidade de Columbia, na cara de Campbell Brown, a chefe das parcerias com os media do Facebook.

Apesar da resposta do Facebook de que estará apenas a proteger-se de mais problemas em eleições, Thompson continuou a acusá-los de "se autointitularem os editores do mundo digital, dando prioridade, diminuindo e rejeitando conteúdos de acordo com critérios elaborados a partir de uma qualificação meramente quantitativa e baseada em números de que o fornecedor desses conteúdos é de confiança."

As várias associações de media que assinaram a carta contra esta prática sugerem precisamente que há várias maneiras - exteriores às plataformas - de avaliar a segurança e confiança das organizações noticiosas, nomeadamente se elas fazem parte de associações do meio ou não. E avisam: se isto não for feito o Facebook vai "arrasar com o papel do jornalismo como quarto poder, e legitimar narrativas anti-jornalísticas à volta do mundo". E pedem que os media jornalísticos deixem de fazer parte da lista de censurados no sistema.

Michael Golden, presidente da World Association of Newspapers and News Publishers (WAN-IFRA), que esteve recentemente em Portugal em congresso, diz que o "Facebook tem de reconhecer o valor do jornalismo criado por meios independentes e respeitar o seu papel crítico no apoio às sociedades".

"Facebook tem de reconhecer o valor do jornalismo criado por meios independentes e respeitar o seu papel crítico no apoio às sociedades"

O congresso da WAN-IFRA em Lisboa foi patrocinado pelo Facebook e por outras plataformas, em mais um exemplo do que tem sido a política de relações públicas destas empresas para conquistar o mundo dos media. Não tem sido até agora muito bem-sucedida. Aliás, as recentes polémicas já estão a ter efeitos reais: pela primeira vez em vários anos, o consumo de informação séria através do facebook diminuiu, segundo o recentíssimo relatório do Reuters Institute, Digital News Report. Os meios de comunicação tradicional mantiveram a influência registando-se, aliás, uma tendência para voltar a pagar por informação - tendência que ainda não chegou a Portugal.

Outro estudo, divulgado em Lisboa na conferência da Global Editors Network, por Emily Bell, do Tow Center for Digital Journalism da Universidade de Columbia, explicava que a relação entre os jornalistas e as plataformas é tão complexa que já está a mudar o jornalismo... e o mundo, a sociedade. "Amigos e inimigos: a imprensa de plataforma no coração do jornalismo", assim se chama o estudo que foi ontem apresentado por inteiro em Nova Iorque.

Emily Bell dá conta que o afastamento tem sido cada vez maior, mas que a relação está a ser mais pensada e refletida do que nunca. "Tornou-se claro que esta relação, esta aliança desconfortável entre jornalismo e plataformas sociais contém implicações, que alcançam mais do que modelos de negócio. E que chegou a hora de levantar as questões cívicas. E não é preciso dizer que o jornalismo não devia ser fraco em relatar estas coisas à medida que acontecem". Veremos o que trazem os próximos episódios, mas parece que o jornalismo está disposto a lutar - pelo menos já está a por as garras de fora.

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