"É um erro círculos norte-americanos pensarem que é compensador sacrificar a União Europeia", alerta o Presidente da República.
"É um erro círculos norte-americanos pensarem que é compensador sacrificar a União Europeia", alerta o Presidente da República.FOTO: Gerardo Santos

Marcelo alerta que cada vez que os EUA sacrificam relação transatlântica pagam por esse erro

O Pesidente da República falava sobre a futura administração Trump, mas defendeu também que a União Europeia tem de "acordar" em matéria de defesa e deve reforçar "a autonomia estratégica e peso na segurança e defesa".
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O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, alertou esta quarta-feira que, de cada vez que os Estados Unidos da América sacrificam a relação transatlântica, pagam esse erro mais tarde, com o custo acrescido de guerras e reconstruções.

"Por muito que haja círculos norte-americanos -- e eles existem -- que pensam que é compensador sacrificar a União Europeia, por questões de afirmação da economia americana, ou por jogadas táticas momentâneas para resolver os conflitos internacionais, é um erro", afirmou o chefe de Estado, na Academia Militar, na Amadora, no distrito de Lisboa.

Marcelo Rebelo de Sousa, que falava a propósito da futura administração norte-americana presidida por Donald Trump, acrescentou: "De cada vez que os Estados Unidos da América minimizam a relação transatlântica, pagam esse erro mais tarde, e com um custo acrescido: têm de pagar guerras, têm de pagar reconstruções, têm de pagar realidades que pensam que estão ultrapassadas, virados que se encontram para o Pacífico".

"A geografia tem essa limitação: a Europa está onde está, os Estados Unidos da América estão onde estão e, portanto, por muito importante seja o Pacífico, o Atlântico também o é", sustentou o Presidente da República, que discursava na sessão de enceramento de um congresso da Associação de Auditores dos Cursos de Defesa Nacional (AACDN).

Neste encontro sobre "A Segurança e a Defesa na Europa -- Desafios", Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que a União Europeia tem de reforçar "a autonomia estratégica e peso na segurança e defesa", mas para esse investimento precisa do "apoio das opiniões públicas", o que "só é possível havendo crescimento económico".

"É difícil explicar prioridade tão importante quanto a prioridade política de segurança e de defesa em sociedades com crises económicas, com falta de retoma, com desigualdades acentuadas, com sistemas ultrapassados e, portanto, com lideranças fracas", argumentou.

O Presidente da República antecipou que, neste início de "novo ciclo de lideranças", a União Europeia enfrentará o desafio de "manter e reforçar a sua unidade num contexto em que vai haver muitas solicitações para posições originais", cabendo-lhe "salvaguardar sempre o eixo transatlântico".

"Tudo isto junto poderá ser mais complexo se os Estados Unidos da América falharem à Europa, ao menos em parte, porque dificultaria a gestão da frente ucraniana e dificultaria a existência urgente de uma voz única da Europa, que ainda não existe, quanto ao Médio e Próximo Oriente", considerou.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, "escusado será dizer que é do interesse norte-americano a relação transatlântica, não é só do interesse europeu", e tanto "Estados Unidos da América e União Europeia sairão mais fortes ou mais fracos deste momento de transição de ciclo conforme a nova administração norte-americana decidir ser mais ou menos favorável à convergência transatlântica". 

Na sua opinião, na anterior administração de Donald Trump, "há oito anos, não vingou uma orientação propícia à convergência". 

"Desta feita, o que muitos, desde logo na Europa, mas também nos Estados Unidos da América, desejam é que ela triunfe, politicamente e economicamente. Quanto à Federação Rússia e à China, ganharão com tudo o que enfraqueça o eixo transatlântico e perderão com tudo o que o reforce", acrescentou.

No quadro europeu, o chefe de Estado vincou a importância de se "assegurar a retoma económica, que não apareceu ainda em economias e sociedades fundamentais".

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, para isso, há que "colmatar o atraso científico e tecnológico" da União Europeia, que "ficou para trás" em relação aos Estados Unidos da América, à China, à Índia e a outros países asiáticos "nos últimos cinco a dez anos".

"Sem esse investimento não há a produtividade, não há a capacidade de competição, não há crescimento. Criar, com base nisso tudo, a autonomia estratégica e peso na segurança e defesa", resumiu.

"É óbvia a necessidade de acordar da Europa"

O Presidente da República defendeu ainda que a Europa tem de acordar em matéria de segurança e defesa e elogiou o Governo português e o ministro Nuno Melo, manifestando esperança na sua atuação relativamente às Forças Armadas.

Dirigindo-se ao ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, o chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas declarou: "Aproximando-me de nove anos de mandato presencial, tenho a dizer-lhe que encontrei no atual Governo e em vossa excelência, é verdade que por passos ainda primeiros, e espero que não últimos, encontrei um sinal que não encontrei em governos anteriores e em ministros anteriores". 

Quanto ao tema deste encontro, para Marcelo Rebelo de Sousa "é óbvia a necessidade de acordar da Europa" e "não deveria ter sido preciso haver guerras " para se perceber "a importância, em ligação à NATO, de efetivamente definir uma autonomia estratégica, de investir, mais do que investir, de sensibilizar as sociedades civis para o que significa da prioridade política o investimento em matéria de defesa e segurança".

Sobre a atuação do atual Governo PSD/CDS-PP o Presidente da República considerou que "mais vale antecipar a ir sempre a reboque dos acontecimentos", mas que o planeamento "tem de ser móvel", referindo-se ao "drama das leis de programação militar", que "quando nascem já estão ultrapassadas".

"E eu penso que essa é a esperança que existe, senhor ministro, em relação a este Governo. E, portanto, tenho a certeza que não nos vai desiludir, o Governo -- eu já abarco o Governo, porque sei quanto isso tem componentes financeiras e outras que são pesadas -, não apenas no estatuto dos recursos humanos, que é fundamental", acrescentou.

O chefe de Estado manifestou-se confiante de que, "na linha do caminho traçado e aberto pelo senhor ministro da Defesa", os responsáveis políticos irão "efetivamente criar condições" para que as Forças Armadas Portuguesas, "nas capacidades, nos recursos humanos, em todas as vertentes da sua formação, essenciais para cumprir o desígnio nacional, possam cumprir esse desígnio". 

Marcelo Rebelo de Sousa pediu que se comece quanto antes "essa valorização das Forças Armadas assumida pelo poder político legitimado pelo povo", para que "amanhã não seja tarde demais".

Nesta intervenção, de 45 minutos, o Presidente da República retomou a ideia de que se vive "um ciclo histórico" a nível mundial, num "lusco-fusco de contornos indefinidos", com "a aurora ainda por afirmar".

"De entre as novas lideranças e as novas recentes memórias do ciclo, avultam pelo menos desde a anterior presidência Donald Trump, no que se poderia apelidar de trumpismo, as lideranças que representam uma subida de alternativas aos sistemas anteriores - alternativas políticas, partidárias, sociais, económicas e intensamente mediáticas", apontou.

Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que no 25 de Abril de 2018 advertiu para o surgimento de "messianismos" com "endeusamento ou vocação salvífica", num discurso que o então primeiro-ministro, António Costa, disse ser difícil de interpretar, como a arte moderna.

"Tinha havido as eleições americanas e tinha havido eleições na Europa e havia novos protagonistas e novas lideranças e novos movimentos. Não era pintura abstrata, era pintura realista, e chegara para ficar", contrapôs agora o chefe de Estado.

De acordo com o Presidente da República, no atual contexto global, "é crucial" a União Europeia reforçar "a autonomia estratégica e peso na segurança e defesa", mas precisa do "apoio das opiniões públicas" para esse investimento, o que "só é possível havendo crescimento económico".

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