Anda por aí toda a gente no corre-corre pré-Natal, de compras em compras, muitas delas embrulhadas na hipocrisia dos votos formulados por estes dias..O verdadeiro espírito natalício há muito que se perdeu na voragem da queda dos valores, tão badalados nesta época em que – e se fosse só no trânsito – o desrespeito pelos outros e a desfaçatez não têm rosto..Por estes dias, atinge as raias do insuportável o egoísmo de elevadíssimo número de condutores que, a seu bel-prazer, por comodismo, param e estacionam como se fossem os únicos senhores do mundo, os reis das ruas e avenidas..A história é velha, retrata a tão apregoada falta de consciência cívica, mas agrava-se nesta época do ano, em que o cinismo tem luz verde para atuar: estaciona-se a par, como muitos condutores fazem, dia a dia, para ir ao multibanco, entregar o boletim do Euromilhões, esperar à porta da loja pela senhora que foi às compras, deixar as crianças na escola ou, muito simplesmente, comprar o jornal, uma vez que não é possível conduzir o automóvel até ao interior dos estabelecimentos..O estacionamento a par e, inacreditavelmente, sobre os passeios, é o cancro do trânsito citadino em Portugal. Impede a desejada fluidez na já de si difícil circulação em ruas e avenidas atafulhadas de veículos e reflete o que somos enquanto povo que olha só para o umbigo, descartando responsabilidades com inacreditável ligeireza. Como se nada acontecesse para lá do nosso mundo..Autocarro parados longos minutos; elétricos imobilizados à espera que alguém, sem pedir sequer desculpa, se digne retirar o automóvel; ambulâncias que se atrasam, por vezes, de modo irremediável, na corrida pela vida: este é um cenário, infelizmente, habitual, a qualquer hora, nas vilas e cidades portuguesas..O problema agrava-se por alturas do Natal, seja na afluência aos santuários do consumo ou nas artérias mais comerciais, em que a passividade de quem devia contribuir, com eficácia, para que o trânsito fluísse sem problemas e penalizasse os prevaricadores, lava as mãos como Pilatos. Como sucede em tantas situações. Mas, é (quase) Natal e enquanto uns se julgam reis do espaço coletivo, a maioria sofre, bloqueada longos minutos no trânsito e até há quem assobie para o ar..Talvez seja a hora de meter a mão na consciência e julgar o nosso comportamento no trânsito. A educação – até de um povo – vê-se ao volante.