Os talismãs, a guerra e a reparação inspiraram nova exposição na Gulbenkian de Paris

Os talismãs, o tempo, a guerra e a reparação inspiraram a nova exposição da Gulbenkian de Paris que abre esta sexta-feira e que reúne obras de 17 artistas, incluindo os portugueses Pedro Barateiro, Leonor Antunes e Isabelle Ferreira.
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A mostra, intitulada "Talismans - Le desert entre nous n'est que du sable" ["Talismãs - O deserto entre nós é apenas areia"], coloca o talismã no centro das atenções, incluindo um pequeno escaravelho azul de cerâmica, com 2800 anos, porque "é um objeto de infiltração, que atravessa geografias e tempos", explicou à Lusa a comissária franco-americana Sarina Basta.

"A ideia foi partir do talismã - um objeto que não é especificamente artístico, que está historicamente associado à superstição, que não vem de uma etimologia ocidental mas greco-árabe, que é associado a minorias - para questionar o objeto de arte e infiltrar questões sobre a nossa sociedade no espaço da exposição", descreveu a comissária.

A obra "The Universe in a Cup", de Pedro Barateiro, escolhida para o cartaz da mostra, é apresentada ao lado de "Cabaça" e "Mask", peças que o artista definiu à Lusa como os seus próprios talismãs porque o mantêm "numa ligação consciente com o mundo" e são a sua "tentativa de aguçar a vontade das outras pessoas de olharem para o mundo de uma forma diferente e de construírem os seus próprios universos".

"As minhas obras são obviamente os meus talismãs, claro. Fazem parte da minha construção enquanto pessoa, enquanto artista e eu acho que todas as pessoas o fazem, vão construindo uma espécie de memória a partir dos objetos que têm", afirmou, sublinhando que as obras, de pequena escala, foram surgindo em estúdio "de uma necessidade muito diária de manter uma relação próxima com os objetos".

O talismã é "um objeto poético", acrescentou Miguel Magalhães, diretor da delegação francesa da Gulbenkian, sublinhando que a exposição também se articula "em torno da incomensurabilidade do tempo, após uma tragédia, e da reparação".

"O talismã, aqui, não pode ser entendido enquanto um objeto com uma carga mística necessariamente, mas é um objeto que carrega a memória dos grupos, uma memória coletiva, eventualmente carrega a memória dos indivíduos, e funciona como um objeto poético, figurado para pensar na questão da reparação, da cura, de como encontrar formas de curar as chamadas feridas coletivas", indicou.

Uma dessas "feridas" aparece, em sentido mais figurativo, sob a forma de um espelho quebrado e reparado "como uma cicatriz", do francês Kader Attia, fazendo eco às "feridas" da guerra da Argélia, e há também poemas emoldurados do sírio Adonis que remetem para a repressão de um país em guerra há sete anos, numa sala onde uma frase na parede questiona "Como ficar vigilante, calmo, sereno no meio destes faróis?"

Quando o projeto da exposição foi encomendado a Sarina Basta, na sequência do prémio Gulbenkian Curator, em 2015, no cinquentenário da fundação em Paris, a comissária não conseguiu ficar indiferente à guerra na Síria que ecoa numa exposição que ela classifica como "mais poética que política".

"Na exposição há referências à Segunda Guerra Mundial, à guerra do Vietname e à guerra na Síria, entre outras. Trata-se da reflexão de artistas e poetas sobre o tema. É uma abordagem poética sobre como avançar após o apocalipse da guerra", afirmou a curadora.

O tempo, um outro vetor da exposição, é questionado, por exemplo, pelo artista norte-americano Laddie John Dill, com a instalação "Light and Sand", na qual tubos de néon fosforescente iluminam um chão de areia que "vai mudando com o tempo, com as vibrações das pessoas a caminharem ou do tráfego de lá fora".

"É uma combinação de objetos que criam uma impressão mágica e uma paisagem sobrenatural. Usei materiais de Paris: a areia vem das pedras de calcário que foram a matéria-prima para construir, por exemplo, Notre-Dame. Paris é conhecida como a cidade das luzes e o néon é muito comum. Mas a peça é efémera e microscopicamente muda a cada dia que passa", explicou o artista sobre a peça criada para a exposição mas concebida originalmente em 1970 para uma galeria parisiense.

A mostra conta, ainda, com obras de Leonor Antunes, Isabelle Ferreira, Art Oriente Objet, Bady Dalloul, Eleonore False, Claire Fontaine, Maria Hassabi, On Kawara, Tarek Lakhrissi, Cildo Meireles, James Nares, Azzedine Salek e Lawrence Wein.

"Talismãs - O deserto entre nós é apenas areia" vai estar patente até 01 de julho e vai ser acompanhada por conferências, filmes e performances de, por exemplo, Pedro Barateiro, Pedro Neves Marques, Francisco Tropa e Ana Vaz, na delegação francesa da Fundação Gulbenkian e nos museus Le Jeu de Paume e no Centro Pompidou, parceiros da iniciativa.

Pedro Barateiro, que participou na exposição coletiva "Sous le regard de machines pleines d'amour et de Grace", em 2017, no Palais de Tokyo, em Paris, e que já apresentou performances no Théâtre de la Ville e na Escola de Belas Artes de Paris, vai fazer uma performance a 17 de junho no Centro Pompidou.

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