Artista açoriano José Nuno da Câmara Pereira morreu aos 80 anos

O artista plástico José Nuno Monteiro da Câmara Pereira, natural da ilha de Santa Maria, nos Açores, morreu domingo, aos 80 anos, em Lisboa, onde residia, disse hoje à agência Lusa fonte do Governo açoriano.

O diretor regional da Cultura, Nuno Lopes, disse à Lusa que o artista e dinamizador cultural, nascido a 01 de abril de 1937, será cremado na quarta-feira e as suas cinzas transportadas para a ilha Terceira, onde chegou a residir, segundo informação da família.

Segundo o diretor regional da Cultura, José Nuno da Câmara Pereira "é um dos expoentes máximos da arte plástica açoriana, com dimensão nacinal e internacional".

José Nuno da Câmara Pereira dedicou também grande parte da sua vida a atividades de dinamização cultural.

Licenciado em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, o artista expôs individualmente no continente, mas realizou também instalações no estrangeiro, e ainda nos Açores, e participou em diversas exposições coletivas.

Segundo informações disponibilizadas 'online' pelo Instituto Açoreano de Cultura (IAC), em 1987-88, José Nuno da Câmara Pereira frequentou o Center for Advanced Visual Studies do MIT -- Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge, nos Estados Unidos, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana.

Em 1990/1991, de regresso a Portugal, promoveu a criação do Centro de Arte e Investigação (CAI).

Já em 1994, e tendo-se fixado nos Açores, fundou a Oficina d'Angra - Associação Cultural, que "visava preencher uma lacuna na área da criação e divulgação artística na região".

Além de pintura e escultura, José Nuno da Câmara Pereira também se dedicou ao ensino e participou em projetos de decoração artística de igrejas, também no âmbito do teatro e na música.

Está representado em diversas coleções portuguesas, no Continente e Açores.

Entre as suas principais exposições individuais, de acordo com a Carmina Galeria, na Terceira, contam-se "Paisagens de Mito e Memória", no Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, e "Imaginação da Matéria", na Central Tejo, no final da década de 1970, além da série "Transfiguras", para a coletiva "Histórica Trágico-Marítima", organizada pela Associação Internacional de Críticos de Arte, Sociedade Nacional de Belas-Artes, em 1983.

"Recado para Inês", instalação na Igreja de Santa Clara-a-velha, em Coimbra, "A window on the Azores", no Newbedford Art Museum, nos EUA, e a mostra itinerante "O riso de Buda em tempo de Guerra" são outras exposições destacadas pela galeria açoriana.

José Nuno da Câmara Pereira expôs ainda, na década de 1980, na Feira Internacional de Arte Contemporânea, no Grand Palais, em Paris, em representação da Galeria Quadrum, e fez parte da coletiva "1984 o Futuro é já hoje", do Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Decorou as paredes do altar-mor e da entrada da Igreja Matriz de Almada, a convite do arquiteto Nuno Teotónio Pereira, assinou as instalações de homenagem a Goethe e Fernando Pessoa, no edifício Círculo de Leitores, e os relevos da entrada e envolvente da escadaria da Biblioteca Pública de Ponta Delgada, assim como o teto do Teatro Faialense, a convite do arquiteto José Lamas.

É autor dos painéis de azulejos na Escola Secundária da Lagoa, São Miguel, no Jardim dos Corte-Reais e no Jardim Público de Angra do Heroísmo, e do Jardim de Pedra para as Vinhas do Pico, nos Açores.

Foi premiado pela 1.ª Bienal dos Açores e Atlântico, na III Exposição de Artes Plásticas Fundação Calouste Gulbenkian, pela Associação Internacional de Críticos de Arte e pela Direção Regional da Cultura Açores, entre outras instituições.

O artista foi ainda distinguido em 2010 nas cerimónias oficiais do Dia dos Açores.

Em 2016, foi organizada uma exposição retrospetiva da sua obra, no Centro de Artes Contemporâneas - Arquipélago -, na Ribeira Grande, S. Miguel, comissariada por José Luís Porfírio, com o título "Um Sísifo Feliz", que reconstruiu uma das suas principais instalações, "Paisagem ou Mar de Lama", de 1986.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.