"Rei das flores" eternizado com homenagem em Arroios

Constantino de Sampaio e Melo, o homem que emprestou o nome ao icónico Jardim Constantino, foi agraciado com uma placa de homenagem pela junta de freguesia. Iniciativa resulta da proposta vencedora do Orçamento Participativo, apresentada em 2016.

A sombra cedida por duas árvores majestosas de interesse público do Jardim Constantino, em Arroios, serviu de palco para a homenagem prestada pela junta de freguesia ao homem que lhe empresta o nome, Constantino de Sampaio e Melo. A iniciativa, que decorreu na tarde de ontem, resulta da proposta vencedora do Orçamento Participativo da freguesia, apresentada em 2016, para divulgar a história daquele que ficaria para a história como o rei das flores. No evento marcaram presença a autora da proposta, um familiar do homenageado, a presidente da Junta de Freguesia de Arroios e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML).

"Sinto-me honrado", confessa ao DN Gonçalo Sampaio e Mello. A obra biográfica de Constantino, escrita em França durante o século XIX, acompanha o seu sobrinho-bisneto durante a cerimónia. O livro, conta-nos, terá sido propriedade da família real portuguesa - tendo passado pelas mãos de D. Pedro V, D. Luís I, D. Carlos e D. Manuel II -, com quem o fabricante de flores conviveu. Mas quem foi, afinal, Constantino Sampaio e Melo? Nascido em Torre de Moncorvo em 1802, frequentou o Convento de São Francisco de Torre de Moncorvo e terá sido ali que se deixou apaixonar pelas flores que pintavam a propriedade. "Não quis ser frade, ao contrário do que as tias paternas queriam. Fugiu do convento para se alistar como soldado raso", revela o representante da família. Chegaria à posição de alferes porta-bandeira de D. Miguel I, que acabaria por ser exilado após a disputa pelo poder régio com o seu irmão D. Pedro IV. Durante a fuga, Constantino é uma das 27 pessoas autorizadas a viajar com o regente do reino. Foi parar a Génova, em Itália, onde enfrentou dificuldades e chegou a passar fome. "Não se deixa abater pela desgraça" e segue caminho até Paris, a cidade onde viria a desenvolver a arte floral depois de ter arranjado emprego numa florista.

A partir desse momento, a vida de Constantino mudaria para sempre. Porém, ao contrário do que seria expectável, o antigo alferes de D. Miguel I preferiu dedicar-se ao desenvolvimento e fabrico de flores artificiais, uma arte que viria a aprimorar ao longo dos anos. Foi, aliás, com os seus ramos florais de grande pompa que conquistou diversos prémios internacionais, nomeadamente em Londres e Paris. Mais tarde, em meados do século XIX, visita Lisboa e é homenageado por figuras históricas, como os escritores Almeida Garrett ou António Feliciano de Castilho. Conta o sobrinho-bisneto ao DN que o criador de rosas, camélias e flores-de-lis chegou mesmo a oferecer "um ramo [de flores] à rainha D. Estefânia" em 1858. Viria a morrer em França 15 anos mais tarde, em 1873, deixando por realizar o seu último desejo. "O último desejo é vir a Portugal e morrer em Portugal, mas não consegue. Mas hoje é um dia feliz porque estamos aqui a prestar-lhe homenagem", assinala.

A importância do cidadão ativo

Filipa Neto Mariano conhece bem as ruas da freguesia de Arroios, onde moraram, "desde sempre", os seus avós maternos. Quis o destino que abraçasse o bairro alfacinha como seu em 2014, quando ali passou a viver e onde diariamente faz a sua caminhada. "Passando aqui todos os dias, comecei a pensar quem seria o Constantino. Falei com alguns moradores e ninguém sabia quem era", revela ao DN a advogada e autora da proposta que venceu, em 2016, o Orçamento Participativo da Junta de Freguesia de Arroios. Na altura, decidiu sugerir que se desse a conhecer aos lisboetas e aos visitantes da cidade quem foi o rei das flores e por que razão empresta o nome ao icónico jardim. Agora, seis anos depois, a ideia passou do papel para a realidade com a instalação de uma placa identificativa e de uma flor na calçada portuguesa que embeleza o jardim.

Carlos Moedas marcou presença na cerimónia de homenagem e fez questão de lembrar o seu passado enquanto "emigrante durante 15 anos" para confessar que se identifica com a história de Constantino de Sampaio e Melo. "A Filipa Mariano deu-nos uma lição sobre o que é a participação cívica", destacou ainda. Contudo, o presidente da CML optou por não referir a segunda parte da proposta apresentada por Filipa Mariano: a requalificação do jardim. "Em termos de competências, a requalificação nunca poderia ser feita com o orçamento da junta, e muito menos com 5 mil euros, que é o valor do orçamento. De qualquer maneira, deixei a ideia e o recado porque acho que é importantíssimo para a freguesia e para as crianças", afirma.

Questionada pelo DN sobre a eventual concretização desta obra, a presidente da Junta de Freguesia de Arroios, Madalena Natividade, diz não ter havido qualquer compromisso ou intenção de avançar assumida pelo executivo municipal. "Não tivemos nenhuma abordagem nesse sentido, mas penso que a CML tem abertura para nos apoiar nesse projeto inovador", perspetiva a responsável.

dnot@dn.pt

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