Metro regressa às visitas guiadas para explicar às pessoas a sua arte

Há dois anos que o Metropolitano não tinha visitas guiadas abertas ao público em geral. Na próxima semana, quem quiser poderá conhecer melhor seis das suas estações no âmbito das Jornadas Europeias do Património.

Parque, Baixa-Chiado, Cais do Sodré, Oriente, Olaias e Saldanha. São estas as seis estações que os mais curiosos vão poder conhecer melhor na próxima quarta ou sexta-feira, dias em que o Metropolitano de Lisboa volta a ter visitas guiadas abertas ao público em geral, a propósito das Jornadas Europeias do Património. E há muito para ver, pois a ligação entre a empresa de transportes lisboeta e o mundo das artes vem desde a sua fundação, em 1959.

"Desde as primeiras estações que o Metropolitano tem tido presente a preocupação de dotar sempre as suas estações de obras de arte de uma dimensão estética que, de alguma forma, minimize os efeitos negativos do ambiente underground, para humanizar e tornar atrativos os espaços e daí também o Metropolitano ser conhecido como um museu, porque divulga e democratiza a arte pública nas suas estações", explica ao DN Helena Taborda, porta-voz do Metropolitano de Lisboa e a pessoa que será a guia das visitas da próxima semana. "É uma forma de o Metropolitano poder divulgar a arte de uma forma muito específica, mais do que aquilo que a pessoa que passa diariamente na estação vê, mas às vezes não olha com olhos de ver. Nós vamos nestas visitas explicar o porquê de determinada obra, o porquê de determinada temática da estação, de forma a que as pessoas possam olhar as nossas estações também de outra forma".

Com mais de cinco dezenas de estações e todas elas com obras de arte e de arquitetura porque razão foram escolhidas estas seis e não outras? Helena Taborda não quer levantar muito o véu para não estragar o fator surpresa das visitas guiadas da próxima semana, mas acedeu contar aos leitores do DN algumas das características que tornam únicas cada uma das estações.

"Escolhemos a estação Oriente porque foi inaugurada quando se fez a Expo 98 e foi a primeira estação a ter artistas, para além de nacionais, internacionais. O Metropolitano de Lisboa convidou artistas internacionais de renome e dada a universalidade do tema da Expo 98, que eram os oceanos, a estação Oriente foi subordinada a essa temática. Então foram convidados artistas dos cinco continentes existentes para intervir com os seus trabalhos, nós temos cinco artistas europeus, temos três asiáticos, um africano, um americano, um australiano - temos os cinco continentes lá representados e foi a primeira estação subordinada uma temática específica com artistas nacionais e estrangeiros. A estação Olaias também inaugurou em 1998, com a Expo, e é uma estação que, pela sua dimensão e arquitetura, sempre foi considerada a catedral do metro. É uma estação que tem a arquitetura de Tomás Taveira e tem uma série também pontos artísticos, de esculturas e de artistas plásticos cerâmicos de outros escultores. É uma estação muito grande, em termos de cais é o maior de todas as estações do Metropolitano. Foi considerada uma das dez mais bonitas do mundo em várias publicações. Depois temos a Baixa-Chiado. Foi inaugurada em 1998 e é uma estação muito sui generis por diversos motivos. Tem muito pouca intervenção plástica, a qual está confinada aos acessos de entrada, e tem uma arquitetura muito particular da autoria de Álvaro Siza Vieira, que toda a gente conhece. É uma zona muito clean, tudo com azulejos brancos, e esta conceção dos espaços é também diferente de todas as outras estações. Para além de que é a estação atualmente mais profunda do Metropolitano de Lisboa, a cerca de 40 metros de profundidade, o que equivale a um edifício de mais de três andares".

Dos Direitos do Homem a Alice no País das Maravilhas

A porta-voz do Metropolitano de Lisboa aproveita o intervalo nesta visita guiada virtual para lembrar que as visitas reais realizam-se nos dias 29 de setembro e 1 de outubro às 11.00 e 15.30. Da parte da manhã, as estações a visitar serão as do Parque, Baixa-Chiado e Cais do Sodré. À tarde, Oriente, Olaias e Saldanha. Cada visita está limitada a 20 pessoas e a inscrição pode ser feita no site do Metro. Voltemos então à segunda parte da nossa visita.

"O Parque é uma estação muito, muito bonita, da primeira fase do Metro, de 1959, que foi remodelada em 1994 mas manteve a traça original. A estação Parque foi um projeto de uma artista plástica, que não foi convidada, mas foi ela que apresentou o seu projeto. Ela já tinha projetos com outros metros estrangeiros cujo objetivo era inserir a Declaração Universal dos Direitos do Homem em diversas estações do mundo. Perguntou ao Metro se nós podíamos participar nesse projeto e nós demos-lhe a estação Parque. Para além disso, e como a estação já tinha os Direitos do Homem, em 1995 tivemos o pedido para pôr uma escultura em homenagem ao Aristides de Sousa Mendes, o cônsul de Portugal em Bordéus, e no átrio temos uma escultura do João Cutileiro, que teve esse trabalho brilhante", conta Helena Taborda.

A nossa visita guiada dá agora um salto à Linha Verde onde vamos conhecer a estação do Cais do Sodré. "É uma estação em que quando nós contratámos o artista António Dacosta para fazer a sua intervenção ele estava vivo, mas depois quando a estação se efetivou ele tinha morrido há pouco tempo. Antes de morrer deixou alguns esboços já preparados para a estação e que foram integrados pelo pintor Pedro Morais. A estação também tem uma particularidade, e daí também ter sido escolhida, que é um pé direito do cais ao átrio: quem está no cais vê a parede toda até ao átrio. E as intervenções artísticas que lá estão nessas paredes são precisamente do cais ao átrio, são bonecos gigantes tirados da história da Alice no País das Maravilhas. Está lá o célebre coelhinho a dizer "estou atrasado, estou atrasado" e o coelhinho está do tamanho todo da parede, mas no cais só se vê um bocadinho das patas".

A servir as linhas Amarela e Vermelha está o Saldanha, que também merece uma visita. "O Saldanha pertence à primeira geração de estações, e teve uma remodelação que se insere com a área envolvente. Há muitas estações do Metro que têm as temáticas da área envolvente - como o Campo Pequeno que tem a tauromaquia. No caso do Saldanha, como não havia nenhuma temática muito concreta da área envolvente, o que é que o artista plástico foi buscar? Aqui trabalha com dois tipos de materiais, com azulejos no cais e com mármore nos acessos ao cais e no átrio, e temos temas como as estações do ano nos cais, e temos os mármores com caras enormes, mãos e cabeças. Vemos temáticas que estão relacionadas com o ambiente. Agora fala-se em sustentabilidade, na altura não se falava tanto, mas já tínhamos esta interligação e esta harmonia entre as estações do ano, entre o ambiente e entre tudo o que é mão de obra e a interligação entre a sustentabilidade e a harmonia que o ser humano deve ter com tudo aquilo que o rodeia". Ponto final na visita guiada virtual.

Visitas regulares de regresso em 2022

Na próxima semana, ao vivo e a cores, as visitas guiadas irão durar entre duas e duas horas e meia, já contando com a deslocação entre as estações. Mas mesmo assim, garante Helena Taborda, ficarão muitas histórias por contar.

Esta não é a primeira vez que a porta-voz do Metropolitano fará as vezes de guia nestas visitas e já apanhou todo o tipo de visitantes, desde estudiosos a famílias, mas há uma visita em particular que lhe ficou na memória. "Uma das que mais me marcou foi fazer visitas com crianças com deficiência visual. Foi surreal aquela visita. Tocavam em tudo, mexiam em tudo, nós escolhemos estações típicas com muitas esculturas e muitas obras de arte para que eles pudessem mexer e foram comentários fabulosos, como nós nunca poderíamos imaginar. É um universo completamente diferente, é muito bonito".

Quem não tiver oportunidade de aproveitar este regresso especial das visitas guiadas do Metropolitano, não perca a esperança, pois as visitas regulares voltam em 2022. "Estamos a refazer o programa de visitas, tencionamos provavelmente para o ano voltar ao programa de visitas guiadas não nos moldes 100% como tínhamos, mas mediante um determinado critério que será aberto a instituições de cultura e de cidade e algumas instituições escolares. O programa ainda está a ser feito, até lá continuamos a fazer parcerias culturais sempre que entendermos, pois são benéficas quer para o Metropolitano, quer para a entidade parceira. E continuaremos a aceder a pedidos pontuais para realização de visitas", adiantou ao DN Helena Taborda.

ana.meireles@dn.pt

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