Melgaço quer "atrair camadas mais jovens" para o concelho através do teletrabalho

O autarca Manoel Batista garante que o município reúne as condições essenciais para trabalhadores remotos que procurem trocar a rebuliço das grandes cidades pelo sossego do Alto Minho.

A pandemia vincou muitas das tendências empresariais que vinham sendo debatidas ao longo dos últimos anos, como a importância da digitalização e do trabalho remoto. Estas duas vertentes foram aceleradas pela mudança abrupta na organização da sociedade durante a crise sanitária, mas ainda antes da sua chegada a Portugal já o Governo lançava a iniciativa Trabalhar no Interior. Fixar pessoas em zonas menos povoadas e dinamizar as economias regionais são os grandes objetivos do programa estatal, que, em zonas como Melgaço, tem sido expandido com medidas locais. "Tivemos o regresso de alguns jovens que fizeram a sua carreira académica e trabalharam fora e que, entretanto, perceberam que poderiam voltar e trabalhar em Melgaço com qualidade e ganho", explica ao DN Manoel Batista.

O município tem vindo a apostar na sua promoção como destino ideal para "nómadas digitais" que queiram trocar o rebuliço das áreas metropolitanas pelo ritmo lento das cidades mais pequenas. Para isso, contudo, foi necessário, explica o presidente da autarquia, investir no reforço das infraestruturas de telecomunicações e na criação de um espaço de cowork já inaugurado. Até ao final de junho, Melgaço terá garantido o acesso de 75% da população a fibra ótica, que permite redes de internet mais robustas, estáveis e de alta velocidade.

Esta é, considera, a "autoestrada" necessária para cumprir os requisitos que tornem o concelho mais atrativo para trabalhadores à distância. A este propósito, Melgaço recebeu o selo "Remote Work Ready Town", da iniciativa Rural Move, que certifica regiões nacionais com base na oferta de condições para o teletrabalho, mas também em indicadores como a qualidade de vida. "O facto de termos este selo está a transformar-nos num território apetecível", revela Manoel Batista, que garante ter recebido vários contactos de pessoas interessadas em viver no município.

"Tenho tempo útil"

A frase é de Joana Luís, engenheira civil, que aos 30 anos e depois de mais de uma década fora de Melgaço, onde nasceu, decidiu regressar à terra-natal. Apesar de se mostrar feliz com esta mudança de vida, a escolha foi, em grande medida, condicionada pelos preços "insustentáveis" das casas no Porto, onde vivia, assim como pelas mudanças que a pandemia impôs. "Vim para ficar um mês ou dois para aproveitar a minha família e, entretanto, estou cá há um ano e dois meses", conta ao DN. As vantagens são muitas, diz. "O trânsito era uma coisa que me tirava anos de vida e aqui só apanho trânsito das cabras", sublinha. A trabalhar diariamente do Alto Minho para a Irlanda, Joana precisa de uma ligação "sólida" à internet que garante nunca ter sido um obstáculo desde que voltou.

A habitação é, porém, um desafio que o executivo municipal está a endereçar, revela o presidente. "A pressão na habitação é grande e a oferta não corresponde à procura", reconhece, justificando com o número crescente de estudantes que procuram a Escola Superior de Desporto e Lazer da cidade, hoje com perto de 500 alunos. A criação de alojamento para estes jovens ou a construção de habitação de custos controlados são hipóteses em cima da mesa, que o autarca considera como potenciais soluções para "aliviar" os valores de arrendamento. Esta é uma das dificuldades apontadas ao DN por

Tiago Alves, de 40 anos, que se mudou de Lisboa para Melgaço em 2020 também por consequência da crise sanitária. Consigo levou a mulher e os dois filhos pequenos, que desta forma poderiam ficar com os avós enquanto os pais trabalham a partir de casa. "Estávamos numa altura crítica dos nossos empregos, com potenciais promoções em vista, e o apoio dos avós era importante", explica.

Esta foi a principal razão que levou o casal a regressar ao local de nascença de Tiago Alves, que considera positiva a "isenção das taxas municipais" oferecida a quem se mude para Melgaço, embora não seja suficiente. "Pensaria duas vezes para investir um determinado valor [na compra de uma casa] num sítio como Melgaço, sendo que depois poderia querer vender ou ter algum retorno e isso seria impossível", diz, criticando os preços do mercado que, afirma, são semelhantes aos praticados em Braga. "O mais certo é que não seja possível ficarmos em Melgaço", lamenta. A qualidade de vida, a proximidade com a família e a variada oferta de espaços verdes e de lazer são vantagens que identifica no município, mas acredita que se a esposa passar do regime de teletrabalho para trabalho híbrido, com uma ou duas idas semanais ao escritório em Lisboa, não será viável continuar no concelho.

Já Joana Luís, pelo contrário, diz que é cedo para saber se sairá de Melgaço. "Adaptei-me bem e sinceramente não estou pronta para voltar para a cidade agora", garante. "Não me sinto isolada, sinto-me livre. Vou a qualquer lado a pé, tenho tempo útil", sublinha a engenheira civil. "Queremos aproveitar esta oportunidade para atrair gente nova ao nosso município, atrair camadas mais jovens para um trabalho que tem no digital uma alavanca maior", remata o presidente da câmara.

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