Madragoa está em festa e quase sem voz pelo fim de um enguiço de 28 anos da sua marcha

A Madragoa foi coroada vencedora das Marchas Populares, título que não alcançava desde 1994. No bairro, a notícia foi recebida em festa e até houve fogo de artifício. E agora já se fala em conquistar o bicampeonato no próximo ano.

"Marcha há só uma! É a Madragoa e mais nenhuma! Está quebrado o nosso enguiço! Estávamos enguiçados e injustiçados agora acabou, agora sentimos a vitória". As palavras são ditas por São da Brava, antiga marchante e filha do bairro lisboeta que na madrugada desta segunda-feira se sagrou campeão das Marchas Populares, título que já lhe fugia desde 1994, mas refletem o sentimento que ontem se vivia na Madragoa.

A notícia da vitória chegou ao bairro por volta das seis da manhã e a festa junto ao Esperança Atlético Clube, coletividade que organiza a marcha, prolongou-se quase até às 10.00, com direito a fogo de artifício e tudo. Mesmo em frente ao Esperança Atlético Clube fica o restaurante O Caldo Verde, onde trabalha Fátima Araújo, de 20 anos, que não nasceu na Madragoa, mas considera os seus moradores família. "Isto para o bairro é uma alegria. Eles estavam mesmo a precisar deste ânimo forte, porque foram 28 anos sem ganhar. Foi mesmo uma emoção muito forte, acho que estamos todos comovidos, mesmo quem não é do bairro está super feliz", conta a jovem ao DN, enquanto enquanto aponta para o lixo que está no chão, resquícios da festa da vitória, dizendo em tom de brincadeira que iria sobrar para ela. "Deixaram aqui a rua toda suja, mas isto também não acontece todos os anos, e Deus queira que para o ano estejam aqui outra vez a comemorar outra vitória. E estamos aqui para os apoiar no que precisarem".

Uns metros mais acima, na esquina da Rua das Madres, encontramos um grupo de moradores do bairro, ainda em êxtase pela vitória da Madragoa nas Marchas Populares - Alcântara ficou em segundo e o Alto do Pina em terceiro. Nesse grupo está um ainda muito ensonado marchante e explicam-nos que é o único membro da equipa vencedora que está acordado, embora já tenha ido umas horas à cama. "Ganhar pela Marcha da Madragoa foi a melhor coisa da minha vida. E a festa é uma sensação inexplicável. Foi até às tantas! Não há explicação, foi uma coisa que ninguém estava à espera e quando recebemos a notícia foi uma grande festa. Foi uma coisa espetacular, é uma emoção muito grande!", conta ao DN, já ao início da tarde, Carlos Coelho, de 30 anos e marchante há 16. "Para o ano temos que ser bicampeões. É sempre a andar!", promete Carlos, adiantando que já estava apalavrada uma volta da marcha pelo bairro "para fazermos um agradecimento às pessoas".

Um por todos e todos por um

Continuando a andar pela Rua das Madres, sempre acompanhados de gritos de "A Madragoa é linda!" que se ouvem pelo ar, encontramos na esplanada de um café um grupo de antigas marchantes, algumas delas vencedoras em 1994, e que entretanto já passaram o testemunho a filhas, netas, e sobrinhos. Sandra Peres é uma delas. Está quase sem voz por causa dos festejos das últimas horas e não consegue esconder a emoção que sente por esta vitória da Madragoa, uma emoção que quase a faz esquecer do que sentiu quando venceu há 28 anos. "Nem sei bem, foi bom. Gostei, adorei, como este ano. Já merecíamos!", diz com a voz que lhe resta. "Com as minhas filhas lá, com as miúdas que a gente conhece desde bebés, fiquei feliz por elas, e por nós, por todos". "Estamos malucas!", atira uma outra antiga marchante. "Foi giro! Foi gritar, cantar, saltar, foi tudo. Por isso é que tenho a voz assim", confirma Sandra.

Para o ano já estão a pensar no bicampeonato, mas será que é desta que vão acabar com o reinado de Alfama? "O reinado era nosso, que nós temos uma coisa que eles não têm, que é a taça de Rainha das Marchas. Mais ninguém tem, só nós é que temos", esclarece o grupo, referindo-se ao galardão que receberam pelas vitórias consecutivas entre 1964 e 1966 - na altura, a marcha da Madragoa era organizada pelo Vendedores de Jornais Futebol Clube.

Vinda do interior do café, São da Brava, outra antiga marchante, que começou por ser mascote, junta-se à conversa. "Já perdemos muitos anos em que íamos com marchas muito bonitas para ganhar o primeiro lugar e não conseguimos. Este ano era mais um em que achei que o júri... Só há publicidade para um bairro em Lisboa, que é para Alfama, é publicidade na televisão, é publicidade dos Santos Populares, é publicidade em tudo o que é publicidade e parece que não há mais nenhum bairro em Lisboa, só Alfama", diz São, ressalvando que gosta de Alfama e tem amigos em Alfama. "Eu sou mesmo da Madragoa e só entrei na Marcha da Madragoa. Não sou vendida por marcha nenhuma. O meu bairro é este e mais nenhum!".

São já deixou de marchar há muitos anos, mas a sua família, mais conhecida pelo apelido de Bravos, continua a marcar presença no grupo. "Agora tenho sobrinhos. Quem é que eu tenho mais? A minha família é tão grande que até me esqueço. E depois nós todos aqui do bairro somos uma família. Somos como o Dartacão, um por todos e todos por um. Na Marcha da Madragoa é assim!".

ana.meireles@dn.pt

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