Lisboa. Um festival que nasce da vitória de um bairro

Marvila queria um espaço verde e de convívio e conseguiu a aprovação de um parque urbano. Para celebrar essa conquista vai fazer um festival de música, dança e circo no espaço que, dentro de poucos meses, já será um estaleiro de obras.

Há pelo menos 20 anos que aquele terreno estava completamente inutilizado. E os moradores de Marvila, mais precisamente do bairro dos Alfinetes, queriam mudar isso e fazer daquele imenso descampado um espaço público requalificado. Dentro de poucos meses deverá finalmente arrancar a empreitada de construção do novo parque urbano da cidade de Lisboa, precisamente naquele terreno, e os moradores vão celebrar esta conquista com o festival Felizmente Há Lugar, que arranca esta sexta-feira e se prolonga todos os fins de semana até ao final do mês.

Vai haver música, dança e circo neste projeto que é o culminar desta luta da população deste bairro de Marvila, uma freguesia geograficamente extensa, atravessada por duas linhas férreas, com uma frente ribeirinha industrial e uma área interior salpicada de bairros municipais e hortas. O palco da festa já está montado na Rua Luís Stau Monteiro, autor da obra "Aqui Há Luar", cujo título inspirou o nome do festival que agora acontece. Como muito do que tem sido feito no bairro, também o palco, feito de plástico reciclado, resultou do trabalho e entusiasmo dos moradores.

Tudo começou em 2018, quando o projeto Sê Bairrista começou a trabalhar no sentido de conseguir o envolvimento dos moradores na criação de um bem comum. Pintaram-se bancos de jardim, construiram-se canteiros e, entre outras iniciativas, avançou-se na ideia de fazer daqueles terrenos um jardim. Entre avanços e recuos, a proposta acabaria por ser aprovada pela autarquia e, uma vez mais, dos moradores vieram ideias bastante concretas no que respeita aos equipamentos, acessibilidades e até aos materiais a utilizar, que deveriam ter em conta a sustentabilidade ambiental. O projeto, nas mãos do arquiteto paisagista João Nunes, está em desenvolvimento e estima-se que as obras de construção comecem no primeiro semestre de 2022.

O Parque Urbano da Quinta Marquês de Abrantes vai ter, segundo o site da Câmara de Lisboa, cerca de sete hectares de percursos pedonais e cicláveis, parque infantil, campos desportivos e hortas comunitárias, num investimento de cerca de cinco milhões de euros. A zona junto à estação de Marvila será transformada na chamada Praça da Aldeia, que nos transportará para o passado. O projeto prevê ainda para o bairro dos Alfinetes a construção de edifícios de habitação no âmbito do programa de renda acessível.

Trabalho não termina

O festival, no fundo, "é o antecipar desta obra", diz Margarida Marques, uma das coordenadoras do Sê Bairrista, que, espera, vai revitalizar este "espaço que agora é contornado e não vivido". A festa vai ser protagonizada, na maioria, por artistas sediados na freguesia ou que colaboram em instituições do território, explica Cláudia Matos, coordenadora do programa. Esta sexta-feira o Felizmente Há Lugar arranca com um espetáculo de cabaret circo e no sábado cabe à escola do coreógrafo e bailarino Francisco Camacho fazer o baile da Eira, um "baile adaptado à pandemia". O coletivo Chelas é o Sítio, constituído por moradores que querem valorizar aquele bairro e acabar com o pendor pejorativo que lhe está associado, apresenta, dia 11, o espetáculo "Prata da Casa", com a atuação de alguns artistas locais, como G Fema, Tchapo ou Danny The Dawg. Na véspera, a 10, também há música, mas de cariz mais popular com a dupla M&M.

O Dia 18 é para a dança com um espetáculo do projeto europeu People Power Partnership, que envolve 13 cidades de 11 países, e que visa promover as relações pessoas e artísticas entre bailarinos. Assim, em palco estarão 16 bailarinos, metade nacionais e metade romenos, que apresentarão uma performance resultante desta colaboração. Para dia 24 está agendado o espetáculo teatral Paprika Gourmet, enquanto que o encerramento, no dia 25, se fará com Fadiagem, uma noite de fados reinventados por Marta Miranda e Jean Marc Pablo, dos Oquestrada.

"É uma devolução do trabalho feito, um momento de felicidade, de partilha", resume Cláudia Matos. A entrada é livre - para um máximo de 98 espetadores -, mas sujeita à reserva de lugar.

Feito o festival, conseguida a promessa do jardim, tenciona-se continuar a trabalhar nesta freguesia. "O Sê Bairrista já existia antes do parque urbano e vai continuar a existir", promete Margarida Marques acerca deste projeto que visa a requalificação dos bairros dos Alfinetes, Salgadas e Marquês de Abrantes, através de processos participativos. "Vai continuar a fazer intervenções noutros espaços públicos do bairro", garante a arquiteta, que entrou no projeto através da Rés do Chão, associação sem fins lucrativos que desenvolve projetos de regeneração urbana, através de ações de sensibilização, da reabilitação e dinamização de pisos térreos e do espaço público. O primeiro passo, e Marvila não foi exceção, é motivar os moradores. "Havia uns que não participavam ativamente e agora estão muito envolvidos", conta. E, quando se faziam planos, havia os que achavam que nada era possível. O festival que agora arranca no palco por eles montado prova que, afinal, nada é impossível.

O parque que ali vai nascer

O Parque Urbano da Quinta Marquês de Abrantes vai ter, segundo o site da Câmara Municipal de Lisboa, cerca de sete hectares de percursos pedonais e cicláveis, parque infantil, campos desportivos e hortas comunitárias, num investimento de cerca de 5 milhões de euros.

A zona junto à estação de Marvila será transformada na chamada Praça da Aldeia, que nos transportará para o passado. O projeto prevê ainda para o Bairro dos Alfinetes a construção de edifícios de habitação no âmbito do programa de renda acessível.

sofia.fonseca@vdigital.pt

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